A Onomástica é um ramo da Linguística que estuda o uso dos nomes próprios, e não por menor importância Machado de Assis sempre “brincou” com suas personagens, deixando velado sobre as alcunhas um segredo, uma pista sobre sua trama. Acredito que se a primeira impressão não é a que fica, ela pode causar grande impacto. Por isso, vendo o mote do atual governo para essa gestão, devo dizer que, para além de uma combinação feliz de palavras, ela esconde uma mensagem que para ser compreendida é necessário retroceder com a lente da memória ao último quadriênio.
O dia era 6 de setembro, véspera da Independência do Brasil, quando o então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, passou por uma experiência de quase morte, e o resultado dessa conjunção de fatos é que ele iria renascer na condição de “Messias”, o “Desejado”, o “Encoberto” que, tal como Dom Sebastião em Portugal, retornava do mundo dos mortos para restabelecer a honra e a dignidade da pátria.
O resto dessa história todos já conhecem, mas o que guarda maior significado nisso tudo é que ele de uma maneira lisérgica, e quase delirante, assumiu como personalidade essa personagem de “Salvador da Pátria”, enviado de Deus que tinha como missão resguardar a família e os “bons costumes” da sociedade brasileira, perseguida e ameaçada pelas perversões da Esquerda, e por uma invasão comunista eminente.
Não se pode conferir a Bolsonaro nessa trama burlesca, um papel de protagonismo diante do que viria a acontecer, pois sua investidura celeste sempre foi marcada pela conveniência dos fatos, sendo assim ele deve ser tratado apenas como um coadjuvante importante. Digo isso por que, verdadeiramente, o papel principal dessa história cabe à própria sociedade brasileira, conservadora por excelência, mas que guardava (dentro de uma caixa) todas as marcas que pudessem identificar seus predicados preconceituosos e atávicos de quem ainda não aprendera a conviver com a diferença, nem tampouco com o contraditório, aguardando apenas um sinal para serem mostradas.
Victor Hugo já dizia que “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” Melhor definição não há para o que se viu acontecer nos últimos dois meses no Brasil, mas em especial no último final de semana, em Brasília. Uma turba de seguidores, entorpecida pelas palavras de um Falso Mito (já que ao primeiro sinal de fumaça foi passear na Disney) que pregou o ódio e a cizânia, como quem ateia combustível ao braseiro, mas quando o fogaréu sai do controle, se exime da responsabilidade e da autoria do incêndio.
Palavras têm força e têm poder, por isso União e Reconstrução, para além de uma bela marca, representa a necessidade de promover a reaproximação entre irmãos que se afastaram, e reconstruir uma nação fragilizada pelo ataque contumaz à Democracia, às suas instituições e, de forma vil, a algo muito maior e que sempre foi a marca do povo brasileiro – seu espírito pacífico e ordeiro.
Não trato aqui de ideologia partidária, mas tenho a convicção de que melhor governante não haveria para lidar com essa crise do que Luiz Inácio Lula da Silva – e não falo isso para enaltecer o Presidente, mas sim porque sem a experiência que a vida lhe conferiu, somada aos anos deixados como marcas em seu rosto, talvez o estratagema criado pelo “Messias” teria dado certo, e nem posse teria havido. Contrariando o “Desejado”, ele soube fazer do limão a limonada, e transformou o que seria uma gafe no ato mais simbólico de Posse de um Presidente da história da República.
De igual modo, quando a sanha e a ira tomaram de assalto a Praça dos Três Poderes, poderia ter contemporizado, se acovardado até, mas não fugiu à responsabilidade que a maioria dos brasileiros lhe outorgou através do voto, sendo duro quando necessário, e sagaz o suficiente para reunir os mandatários de todos os poderes constituídos do país, aliados e opositores, em torno de um único projeto – reconstruir a nação brasileira, ato marcado pela simbólica descida da rampa do Planalto.
Coincidência, sorte na escolha das palavras? Não há como ter certeza, mas o fato é que ninguém poderia imaginar que um mote de governo, um slogan, poderia ter tanto significado e simbolismo quanto União e Reconstrução tem nesse momento histórico. Como bem nos lembra Rubem Alves, “As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.”, então que seja esse o renascimento de um Brasil melhor.