Na iminência da virada do calendário, vozes mundo afora proclamam a chegada do Novo Ano – Frohes Neues Jahr / Sana sa’eedah / Feliç any nou / Godt nytår / Feliz año nuevo / Bonne année / Kali chronia / Shana Tova /Happy New Year / Buon anno / Feliz ano novo / La mulți ani! – em um coro laudatório, repleto de simbolismos, promessas e expectativas, crendo que aquele que vem nascendo, será melhor que o que se vai deitando no poente.
No último 31 de dezembro, coloquei dentro de uma Arca minhas proposições e projetos de vida para o ano de 22, mas junto a eles desejei também que fossem dias de paz e prosperidade em todo o mundo, sem o temor da COVID-19 e seus trágicos efeitos. E que no Brasil ressurgisse a esperança, graças às mudanças que o ano de eleições gerais poderiam (e deveriam) trazer ao povo brasileiro, tão sofrido e machucado pela falta de comida, de saúde, de emprego e de boas novas.
O fato é que, logo no início do Novo Ano, o mundo foi surpreendido por um conflito armado entre nações que compartilhavam a mesma origem, dividiram o mesmo território, mas que atingidas pelo vil desejo humano de dominação e conquista, colocaram irmãos para se digladiar em um campo de batalha. Passados quase doze meses, a egolatria e a intransigência, tanto de um lado, quanto do outro, transformaram um conflito territorial, em uma guerra que parece ainda distante do fim.
Os dias de isolamento da COVID-19 acabaram – ainda bem – mas faltou ao aluno aprender a lição, que só mesmo uma doença de impacto mundial poderia ter deixado como ensinamento. O negacionismo, a falta de responsabilidade com o autocuidado e o descrédito com a eficácia da vacinação cobraram (e ainda estão cobrando) um preço muito alto. A doença não acabou, as mortes não cessaram e, ainda assim, o noticiário mostrou essa semana que no Brasil mais de 30% do público-alvo não completaram o calendário de reforço vacinal previsto pelo Ministério da Saúde.
Enquanto isso, no outro lado do mundo, a China que impôs à população o mais severo controle de circulação e isolamento (no primeiro momento da Pandemia), vive hoje a sua pior crise da doença, justamente por ter negligenciado a única profilaxia eficiente para combater o vírus, que sempre foi a vacinação.
Por aqui realmente vivemos um ano de eleições histórico, marcado pela polarização do eleitorado, atestada pelo resultado das urnas que confirmaram a força e a maturidade do processo democrático brasileiro. O que se acreditava, então, é que proclamado o resultado vencedores e vencidos tornassem às suas posições de origem – todos filhos da mesma pátria. Eis que não ocorreu assim, pois o efeito colateral dessa cizânia, alimentado por um messianismo idólatra, fez com que passados dois meses do pleito, o país ainda esteja em estado de alerta, temendo um atentado, ou um proclamado golpe que nunca aconteceu. Enquanto isso, o “Desejado”, o “Encoberto”, o “Messias” tratou logo de embarcar em um avião para salvar a própria pele, deixando seus seguidores frustrados e molhados na porta dos quarteis.
Quanto a mim? Bom nunca poderia dizer que esse foi um ano ruim, ou infeliz – seria ingrato com tanta coisa boa que aconteceu. Contudo, meus propósitos e projetos não se realizaram (ainda). E tenho a clareza de que isso não ocorreu porque entre o desejar e o realizar existe um mar de incertezas que, via de regra, nos atinge com suas vagas gigantescas, teimando em nos fazer sucumbir. Mas agarrado que estou, a minha boia chamada esperança, vou superando uma a uma, na certeza de que após as águas revoltas vou encontrar a calmaria, e lá minha realização.
Os ponteiros do relógio já caminham para o infinito. É hora de depositar na Arca da Promessa meus projetos e propósitos para 2023, com a certeza que somente um poeta das coisas simples, como Mário Quintana, poderia me proporcionar numa noite como essa: ‘Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado. Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.”