Quando Marcel Proust “em busca de seu tempo perdido” saboreia o pedaço de uma madeleine, misturada ao gole de uma xícara de chá, como que num passe de mágica, sua memória traz de volta as lembranças da tia Léonie, nas manhãs de Combray. Aqui Literatura e realidade se entrelaçam, pois, é para falar das memórias sensoriais evocadas pelas comemorações natalinas, que construo esse Artigo como forma de reconciliação com um tempo passado, que ficou guardado nas minhas recordações infantis.
Afinal, para você o que significa o Natal? E não me refiro aqui ao simbolismo religioso do Advento, do nascimento de Emanoel. Qual a imagem, qual a lembrança que você guarda dessa data em sua vida?
Pergunto isso porque (ao menos para mim) ele tem um sentido, um efeito sinestésico, que evoca as mais doces e saudosas lembranças de uma época que não existe mais. Em tempo, segundo a Psicologia sinestesia é uma relação espontânea entre sensações diversas, mas intimamente ligadas na aparência como cheiro, cor, sons dentre outras.
A primeira imagem que Mnemosyne, a deusa da Memória, resgata dos meus tempos idos é a da simplicidade – uma casa muito modesta, mas onde nunca faltou o abrigo e o pão, e sempre sobrou aconchego e acolhimento, tanto é que no período das festas a pequena residência de 6 cômodos se agigantava, tornando-se quase um salão onde a lógica geométrica era quebrada por um sem número de pessoas acomodadas no mesmo espaço.
Esse era o tempo da espera, da ansiedade – primeiro pela data em si mesma, pois aguardava ansioso o último mês da folhinha – enquanto ficava na expectativa da chegada dos parentes, vindos de longe, para o reencontro e a celebração.
Uma outra evocação vem dos sons natalinos que sempre tocaram muito fundo minh’alma, desde o tradicional Jingle Bells, até os temas de final de ano da TV Globo – bastava começar o primeiro acorde para o meu espírito se encher do brilho e da alegria, que esse tempo representava em meu imaginário infantil.
E por falar em brilho, como não lembrar dos enfeites natalinos – da árvore de Natal e das luzinhas piscantes – aqui cabe um adendo, estou falando de um tempo vivido há mais de 30 anos, portanto, muitas das tecnologias de hoje nem eram sonhadas naquele tempo. Devido à simplicidade da casa, obviamente, a árvore era também singela, bem como muitas das bolas eram amarradas com arame nos ramos natalinos, devido ao desgaste do tempo. Mas isso nunca diminuiu a magia que a criança guardava nos seus olhos.
Natal sem cheiro e sabor? Então, certamente ele não aconteceu. E para mim essa mistura de sensações era representada pelos pratos que cada conviva trazia para a ceia – a um cabia a ave, a outro o pernil, a farofa só podia ser do fulano, a maionese do beltrano – e era essa mistura de temperos que fazia daquela noite um momento único, onde a fartura não se confundia com a soberba. Comer antes da meia-noite? Impensável, pois antes de tirar qualquer naco de comida ainda havia a distribuição dos presentes. E assim, caminhava para o fim mais uma comemoração, cheia de sensações e simbolismos que ainda hoje inundam as lembranças de um cinquentenário saudoso, graças a esse embriamento dos sentidos.
Hoje os tempos são outros – a criança virou um adulto, e o encantamento dos olhos do menino se perderam em alguma curva da memória. O Natal mudou – tornou-se protocolar, refinado, onde a troca de presentes (enquanto demonstração de um real afeto) se transformou no sorteio de um “amigo” fortuito. Sua magia acabou? Logicamente que não, ainda conheço histórias de famílias que se reúnem com a mesma simplicidade que conheci outrora. Mas e para você? Qual o cheiro, a cor e a sensação que o tempo do Natal lhe evoca?