Mais um ciclo se encerra. Mochilas fechadas, quadro apagado, armários desocupados, sala vazia. Na secretaria, diários devidamente riscados e entregues, Ata do Conselho de Classe final – assinada, petiscos e refrigerantes entrecortados por troca de presentes e votos de boas festas. Para os “da casa”, um descanso remunerado até o início de fevereiro. Para os temporários o caminho é outro, buscar novas listagens de contratações para o próximo ano letivo. E isso se repete, ano após ano, nas escolas públicas desse país. E nessa sequência de acontecimentos, o que se pretende mudar no processo de ensino-aprendizagem para o ciclo seguinte?
De antemão, posso responder que nada irá acontecer. E isso se dará por uma única razão: nosso modelo Educacional (ao menos nas Redes Públicas) não é reflexivo. Ao contrário, funciona como uma o forno de uma grande padaria – que deve assar todos os pães sempre da mesma forma, tanto na aparência quanto no sabor – e se algum sai fora desse padrão, o caminho do desvirtuado é o descarte. Vendo por essa ótica, portanto, não há o que mudar, pois tudo está como sempre esteve.
No entanto, algum sabichão pode refutar minha análise com os resultados dos últimos Exames Oficiais de Proficiência, que demonstram melhora nos indicadores. Ah, as palavras! Podem ser pérolas ou farelo que se esparrama com o vento. Nesse caso (cabe dizer) se enquadram na segunda opção. Isso porque (como o próprio vocábulo denota) eles “apenas” indicam, mas não solucionam nada e, tão acostumados que estamos a fazer sempre os mesmos pães, esses dados “cientificamente tabulados” não modificam a receita, e assim não alteram seu formato ou sabor.
Um dos campos de estudo da Linguística é a Metalinguagem, que é a linguagem que fala de si mesma. Ou seja, serve-se do próprio código para explicá-lo. Talvez fosse, portanto, apropriado falarmos aqui de Metaeducação, como uma maneira (ainda que empírica) de refletir sobre o que se faz, e o que se diz dentro do sistema de ensino brasileiro. Conversando esses dias com um colega sobre o porvir do próximo governo, destacava a relevância e a pertinência do debate, e do investimento na Educação Básica, para conseguir mudar a qualidade, e o acesso ao Ensino Superior.
Falando então, mais uma vez de Rede Pública (e de pães) é como se tivéssemos em uma mesma padaria dois padeiros – um da casa e um contratado: o primeiro faz a massa seguindo sempre a mesma receita, e não aceita que seu pão pode melhorar; o outro busca inovar acrescendo um tempero próprio, para oferecer um produto diferenciado. Mas como o seu vínculo é temporário, findo o contrato, tudo volta ser como sempre esteve.
Nas escolas, a lógica perversa da descontinuidade de ações leva a situações como essa: muitas das vezes um professor (contratado) desenvolve um trabalho durante todo um ano letivo, alcançando resultados significativos no processo de aprendizagem, mas no ciclo seguinte (sem a sua presença) o establishment fala mais alto, e tudo volta a ser como d’antes no Reino de Abrantes. E Isso só acontece porque, como dito no início desse Artigo, a Educação Pública não é reflexiva, nem tampouco autocrítica.
Contudo, hoje sou eu quem encerra mais um ciclo no sistema de ensino. Passo, então, a fazer parte daquele grupo de colegas aguardando nova contratação. Mas concluo meu trabalho com a convicção de que apresentei um pão diferenciado, com um tempero especial aos que ensinei, e se não consegui fazer tudo que precisava, fiz o que estava ao meu alcance para inspirá-los, e encorajá-los a voar.
E como “De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra” (Salve Rubem Alves) isso por si só me deixa com a consciência tranquila, na certeza do dever cumprido, esperando que daqui pra frente, ao menos com aqueles que foram meus alunos, nada mais fique como sempre esteve, sendo assim, Fim de Jogo.