Maria Eduarda de Souza Castro
Todos nós precisamos de uma manhã de sol,
depois de uma grande tempestade.
21 de fevereiro – Era uma manhã chuvosa, por volta das 6h. Eu acabara de acordar para ir ao trabalho, e aliás, sou uma investigadora. O clima estava tenso, meus olhos estavam cansados, as gotas de chuva caiam e me arrepiavam, algo estava errado.
Ao chegar no trabalho, às 8h, todos cochichando e escondendo algo. Como sempre faço, entrei na seção, peguei o meu novo caso a ser investigado e, ao ler o nome, meus olhos encheram-se de água. Não acreditei, era minha melhor amiga de muito tempo, no boletim feito pelo legista com o depoimento de um amigo nosso, dizendo:
– Bruna saiu na tarde do dia 19, em um carro preto com alguém de cabelos claros e olhos claros. Ela estava de blusa de moletom rosa, calça jeans escura e tênis, com cabelos soltos.
E a pior parte não foi essa, mas sim ler o que o perito descreveu:
– Bruna foi estuprada, enforcada e assassinada com 10 facadas, um crime por ódio.
Eu me desmanchei em lágrimas. Meu chefe ao ver isso não queria que eu pegasse o caso, e insistiu que eu passasse para outro do departamento, mas se tinha alguém que precisava, e iria resolver esse assassinato, seria eu.
Arrumei toda a papelada para poder começar a investigação, mas isso demora, já eram 21h, então acabei indo pra casa.
Deitada na minha cama eu pensava em quem poderia ter feito aquilo, e um detalhe que esqueci de contar pra você – esse amigo em comum era meu ex-namorado, Vinícius, com o qual tive um relacionamento de quase cinco anos. De repente, alguém bate à porta. Era ele que, preocupado comigo, veio ver como eu estava.
De alguma forma seus olhos verdes me traziam um pouco de paz, e deitada ao lado dele, enquanto passava a mão em seus cabelos loiros, me sentia mais calma, pensando que precisava buscar justiça pelo que fizeram com Bruna.
22 de Fevereiro – Já acordando na correria, me despeço do Vinícius, entro no meu carro e saio apressada para a delegacia. Pego o boletim e vou direto ao local do crime. Era um beco molhado, frio e sujo ao lado de um bar onde que ela adorava frequentar, íamos lá todo domingo à tarde, para beber e comer.
Entro no bar e lá estava o dono. Ao chegar pergunto se ele poderia responder algumas perguntas, e me apresentar as filmagens da câmera de segurança. Nervoso, ele disse que não faria isso, e só as entregaria com um mandado. Mas quando cheguei vi uma coisa grande e brilhante no chão, era um brinco. Saí dali e fui olhar o beco onde aconteceu o crime, e adivinha? O outro par do brinco estava lá.
Então entrei no bar pelos fundos, onde eu e Bruna fumávamos escondido, e que dava na sala do dono do estabelecimento.
Enquanto ele estava lá em baixo nervoso, consegui pegar as imagens das câmeras e passei para o meu celular. Corri para fora do lugar pelos fundos, e entrei no meu carro. Ao abrir a filmagem, vi Bruna correndo para fora do bar chorando, e um homem vinha atrás tentando beijá-la. Ela o empurra e então eu vi tudo – ele a estupra e mata cruelmente, esfaqueando-a no peito dez vezes.
Eu sentia meus pés gelados, minha mão fria e meu corpo bambo de tanto chorar. Peguei o brinco, e ao olhar bem estava escrito um V, da marca de joias Vivara. Saí dali e fui direto ao shopping, onde ficava aquela joalheria. Chegando na loja mostrei o brinco para uma atendente, que entrou no sistema e descobriu que quem havia comprado aquele par de brincos era um tal de V.S.D..
Eu conhecia essas siglas, era a senha do computador do Vinicius, mas por que ele compraria uma joia para a Bruna se ele nunca me deu joia nenhuma? Me perguntei isso o caminho todo de casa, e ao deitar na minha cama comecei a pensar que ele estava calmo demais para quem tinha acabado de perder uma amiga. E estavam só Bruna e ele naquele bar? Por que?
Bruna não falava comigo já tinha uma semana e Vinícius sempre tinha uma desculpa para não me ver, será que era isso? Eles estavam tendo um caso em segredo? O meu choro foi compulsivo, não conseguia me conter, eram duas traições em um só dia – uma amiga que considerava irmã, e meu ex-namorado de cinco anos de relacionamento, não era possível?
Me levantei da cama às 3h da manhã, peguei o carro e fui correndo pra casa dele. Cheguei lá e ele estava acordado, sentado em uma cadeira com uma faca na mão, a mesma faca suja de sangue que ele usou em Bruna. Então ele me disse:
– Já estava achando que você não ia descobrir mais.
Então respondi:
– Como pode fazer isso comigo? Ela era minha melhor amiga, e se estavam juntos por que matou ela tão friamente?
Sem esboçar remorso, ele respondeu:
– Eu me apaixonei pela Bruna, mas ficamos apenas aquela noite no bar. Só que ela era muito fiel a você, e não quis ir pro Motel comigo. Então me enfureci e a matei – se ela não ficasse comigo, não iria ficar com mais ninguém.
Senti um ódio tão grande, meus olhos se encheram de lágrimas, minha cabeça ferveu, meu corpo gelou e quando me dei conta já havia atirado na garganta dele. Caí no chão chorando, enquanto via ele se afogar no próprio sangue.
Os vizinhos escutaram o tiro, e chamaram a polícia. Chegando ao local, acionaram o socorro médico, e me levaram pra delegacia. Aleguei legítima defesa, assinei uma papelada e fui pra casa.
Ao sentar na mesa da sala de jantar, não saberia descrever o que sentia – era um misto de sensações: uma dor tão grande no peito, eu havia sido traída por minha melhor amiga, e ainda havia perdido ela. Mas ao lembrar dele se afogando no próprio sangue, de alguma forma isso me acalmava. Mas nem tudo fazia sentido nessa história. Por que o cara do bar estava tão nervoso? O que mais faltava esclarecer nesse caso? É, acho que minha manhã de sol ainda não chegou, e esse não é o fim dessa história…