*Flashback Ana*

Gabrielle da Silva Thomaz de Souza

“Senti meu corpo gelar, e minha garganta fechar enquanto os ventos sopravam meus cabelos, e as lágrimas escorriam de meus olhos. Já era, não tinha mais volta. A sensação era boa, eu finalmente me veria fora deste inferno, mas ao mesmo tempo eu tinha medo… estou me matando, e é assustador”.

Quando pequena eu tinha uma amiga chamada Ana. Eu e Ana crescemos juntas, éramos inseparáveis como irmãs gêmeas, ela era tudo de mais precioso que eu tinha. Nós brincávamos todos os dias, de manhã bem cedo até de noite…éramos uma dupla imbatível…

Contudo, Ana já não era muito querida antes mesmo de nascer. Sua mãe quis abortá-la, mas seu pai não deixou. Quando nasceu era muito gordinha, seu pai não conseguia nem encara-la por que a achava “feia”, porém o resto do mundo sempre se encantou com Ana.

Seus pais sempre brigaram muito, mas quando ela tinha seis anos, e seu irmão mais velho foi embora de casa, as brigas começaram a ficar mais violentas. Ainda tão pequena, não sabia o que fazer quando via seus pais brigarem. Eles a obrigavam a assistir os atos de agressão, pois caso desse algum “BO”, serviria de testemunha.

Ela não falava muito sobre isso, mas anos depois me disse que a fizeram prometer que não contaria nada a ninguém – “o que acontece dentro de casa, fica dentro de casa” – é o que eles diziam. Eu também era uma criança nessa época, e não entendia o quanto aquilo podia doer, até porque era filha única, e por isso sempre fui a “filhinha do papai e da mamãe”. Mas não pude deixar de perceber que ela ficava mais quieta a cada dia, e quando eu perguntava dizia que estava com sono…era mentira, eu sabia porque conseguia ver as marcas em seu pulso

Alguns anos se passaram, Ana não mudou muito nem o relacionamento de seus pais. Desde pequena eles sempre iam e voltavam, mas uma certa vez, quando ela tinha 12 anos, seu pai saiu de casa por três meses – ele havia descoberto uma traição, e por isso também traiu a esposa. Mesmo tão nova teve que cuidar sozinha de sua mãe com depressão, eu estava na casa dela na madrugada em que tudo aconteceu.

Acordei com a gritaria, mas ela dormia como um anjo – talvez porque ‘já estivesse acostumada. Depois de alguns minutos seu pai a sacode dizendo que sua mãe queria se matar, e ela precisava fazer algo por que ele não estava nem aí. A mãe dela saiu procurando uma corda pelo quintal e Ana, ainda meio sonolenta, sem entender nada, saiu correndo atrás dela.

Seu pai disse que eu devia ir pra casa, já que nós éramos vizinhas, mas ela me disse que, pela primeira vez, sentiu medo do seu pai, porque ele estava irreconhecível, parecia um mostro; então ela agachou no canto da cozinha com as mãos nos ouvidos implorando a Deus que aquilo tudo acabasse. Depois disso, seu pai foi embora.

Aquela menina, ainda quase uma criança, cozinhava, limpava e ainda tinha que dar conta dos estudos e cuidar da mãe, totalmente sozinha. Ela dizia que havia perdido várias noites de sono, com medo de acordar de manhã e encontrar sua mãe morta.

Três messes se passaram, e a mãe de Ana já tinha superado aquela crise, estava melhor e muito grata à filha por ter sido a única pessoa que havia se importado com ela. Depois de um ou dois meses seu pais voltaram, ela queria explodir de tanta raiva, mas sua mãe estava feliz…. O ruim é que quando seu pai voltava pra casa, eles faziam “coisas” e ela tinha que ouvir tudo… Não suportava aquilo, mas fazia tudo pela sua “mamãe.”

Depois de um tempo, sua mãe começou a ficar fria com ela, a tratava mal, xingava de nomes pesados por motivos idiotas. Chegou até mesmo a dizer que Ana era um problema na vida dela, uma decepção… Porque ela gostava de meninas, e quando sua mãe descobriu disse coisas horríveis como ” tenho nojo de você!” ou “tenho vergonha de ter você como filha   “.

Muito triste, ela nunca mais tocou no assunto, mas chorava sempre que lembrava. Seus pais fizeram voto de silêncio com ela por meses, a ignorando por isso nunca mais tocou no assunto. Ana implorava a Deus que tirasse isso dela, ela fazia jejum e até entrou pra Igreja.

E foi lá que ela conheceu uma menina linda. Elas começaram a se gostar, era lindo, sempre me falava dela com os olhos brilhando. Mas um dia chegou chorando muito, disse que a menina não sentia o mesmo, e que ela tinha outra, ou algo assim.

Acho que esqueci de mencionar, mas ela passou por vários relacionamentos desde nova – era sempre trocada, sexualizada, traída…(ela tinha trauma de abandono…). Mas nunca desistiu de buscar um “amor verdadeiro “.

Na escola, não estava indo bem. Passou por coisas demais pra conseguir se concentrar. Ela não podia repetir, senão sua mãe a mataria. Eu sempre tentava ajudar, mas eu não sou tão poderosa assim.

Ana parecia melhor, apesar de tudo, mas era tudo enganação. Uma vez ela me pediu um vestido emprestado, para ir a um encontro. Eu toda empolgada entrei no quarto, de surpresa, pra ver como tinha ficado e vi seu corpo…estava cheio de arranhões, hematomas e cicatrizes. Eu sabia que ela estava mal, mas não imaginava que pudesse chegar ao ponto de recorrer a automutilação.

Eu perguntei o porquê dela estar fazendo aquilo com o próprio corpo, e ela me disse que amenizava a dor que sentia. Pedi então pra que não fizesse mais esse tipo de coisa, ou eu ficaria muito triste (acho que fui meio egoísta nessa hora) e ela prometeu que não mais o faria. A abracei e choramos juntas por uns 30 minutos

– Eu te amo, ela disse.

– Eu também, respondi. 

Foi então que a diagnosticaram com crise de Ansiedade, e Transtorno de Borderline. Ana tinha uma irmãzinha de 4 anos, que era tudo o que ela mais amava mas, por conta da doença, às vezes se tornava grossa com a pequena, gritava e praticamente a tratava como um adulto. Mas não fazia por querer, e logo se arrependia pedindo desculpas. E quando sua irmã chorava, ou dizia coisas como “não fala assim comigo, Aninha”, era como se rasgassem seu coração, em cortes fundos, com uma faca. Sabia que não poderia proteger sua irmã de si mesma, e não queria que ela tivesse o mesmo destino – ser criada por pessoas descontroladas emocionalmente!

Apesar de tudo isso, quando não estava em crise, nunca deixou de ser doce, gentil e educada. Ela gostava do verão e de girassóis, e dizia que a lua era fria por isso gostava mais do sol. Ela gostava de arte, qualquer tipo de arte, enxergava beleza em tudo, seu sorriso brilhava e se eu pudesse defini-la em uma palavra seria inocência.

Ainda que quando mais precisou, Deus não tenha estado ao seu lado pra ajudá-la, nunca duvidou uma só vez se quer que ele existisse, ela o amava e o admirava pois era seu amor maior e melhor amigo, por isso queria se juntar a ele.

Tinha um velho lá na rua que já havia assediado, molestado e perseguido Ana, mas ela não denunciou porque não queria “dar mais problemas ao papai e à mamãe”. Algo me diz que dessa vez foi pior, que ele realmente cometeu o abuso e isso pode ter sido a gota d’água.

No dia 01 de dezembro de 2017, data que nunca vou esquecer, cheguei em casa depois da escola e percebi que tinha ambulância e viatura de polícia na porta da casa de Ana. Ainda que não quisesse acreditar, já sabia o que tinha acontecido. – Porra Ana, depois de tantas tentativas, então finalmente você conseguiu?

Corri para a sua casa, mas um policial não me deixou entrar, o que não me impediu de ver os cachos dela, ensanguentados em cima da maca. 

– Não, não! Fica comigo Ana! Eu não posso viver sem você, você é a minha irmãzinha. Você não pode ir, você nem se despediu! O que vai ser da caçula?

– Você ia ser médica, lembra? Ia ter dois filhos, ia se casar. Porra, por favor Ana! Gritei em meio ao choro, mas nada a traria de volta. 

Seu velório foi no dia seguinte. Chovia muito. A menina bonita da Igreja estava lá, ela chorava tanto (parece que a gente realmente só dá valor quando perde né). E eu estava acabada, com o rosto inchado e descabelada. No final do enterro me entregaram uma carta, era de Ana, e nela dizia:

– “Oi meu solzinho, imagino que nessa altura do campeonato você já saiba o que aconteceu. Olha, não fica com raiva de mim. Todos estão melhores agora. Também não fique com raiva de Deus, ele é tão bom quanto eu. Você é uma pessoa incrível, consegue sem mim. Por favor, cuide da caçula, console o tio e a tia. Eu sempre estarei com você, de alguma forma, em um girassol, ao pôr do sol, ou em um sorriso…Eu te amo, mas já não aguento mais,
então por favor seja forte, e viva.”

Nota do autor: eu só quero que saiba que se estiver passando por algo assim, você não está sozinho. Procure ajuda. Conversar ajuda muito, mais do que se machucar; a vida ainda vai ser muito boa, mas você não pode desistir. Por favor, se você estiver sendo como a Ana, me deixe ser sua.

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