Júlia Cardoso de Oliveira
Aqui estou no mesmo lugar, onde prometi nunca te esquecer, só não sabia que seria assim. Por que você fez isso comigo, você parecia estar tão feliz?
Penso comigo mesmo, mas meus pensamentos são interrompidos pelo barulho da campainha. Atendo e lá está minha mãe, com um sorriso no rosto
– Como você está, meu filho? Perguntou minha mãe.
– Bem, eu acho.
Respondo com um sorriso falso em meu rosto
– Meu bem, já fazem três anos, desde que Liz se matou.. Sei que é difícil, mas você tem que seguir em frente!
Ela fala com uma cara de preocupada.
– Por favor, de novo não. Eu tô bem assim, só não entendo por que ela fez isso, ela parecia tão feliz…
Minha mãe não fala nada, apenas abaixa a cabeça com os olhos lacrimejando. Eu não aguento segurar, e sinto as lágrimas descendo em meu rosto.
Assim que ela vai embora vou para o meu quarto, mas no caminho paro em frente à nossa suíte – um lugar em que passamos a maior parte do tempo. Então penso por instantes, depois de três anos já está na hora de entrar lá de novo.
Ponho meu pé lá dentro, sinto um aperto tão grande no coração, e os flashbacks do pior dia da minha vida, de todos os sentimentos que eu senti naquele momento, voltam à tona, mas fico firme.
Sento na cama e respiro fundo, mas as lágrimas voltam a aparecer em minha face.
– Você era a pessoa mais feliz que eu conhecia, então por que fez isso?
Falo sozinho e um silêncio toma conta do lugar. Abro a gaveta do criado mudo, e avisto uma carta.
De:Liz
Para:Thiago
Meu coração acelera, eu quero ler mas não consigo nem encostar no papel, apenas saio daquele lugar e vou para o meu quarto.
No dia seguinte, me arrumo e vou trabalhar. Tenho pensado muito na minha carreira, já que agora não tenho mais nada que me dê vontade de fazer, tudo acontece como todos os dias, nada de diferente, mas dessa vez decido ir à casa da minha mãe.
Toco a campainha e ela me atende com uma cara de surpresa, mas ainda sim feliz.
– Filho, como é bom ver você aqui! Entre!
Disse ela com um lindo sorriso em seu rosto. Não falo nada, apenas sorrio e entro.
– Fico tão feliz em te ver.
Fala minha mãe emocionada. Mas antes de qualquer coisa digo:
– Liz deixou uma carta para mim…
Ela me olha assustada e pergunta:
– O que ela disse?
Segurando pra não chorar, apenas abaixo a cabeça.
– Não sei, não tive coragem de ler…
Ela apenas me abraça.
Depois de um tempo, vou pra casa e, sem nem pensar duas vezes, entro na suite e vou direto para a carta.
– Eu vou conseguir fazer isso… por você.
Abro a carta e lá está escrito:
– “Amor, quando você ler essa carta empoeirada, eu já terei me transformado em fantasma, mas não chore. Sempre serei sua noiva, mas agora sua noiva cadáver. Sei que você deve estar com mil perguntas na cabeça, mas infelizmente só vou poder responder uma: o porquê eu fiz isso. Eu não estava aguentando mais essa dor no meu coração… Por favor, me perdoe.
Com amor, da sua noiva cadáver.”
Não aguento mais conter as lágrimas, e comeco a chorar. Por que ela tinha feito isso? Meu amor não era suficiente? Será que tinha feito algo de errado? Me pergunto enquanto choro em cima da carta.
Depois de muito tempo coloco aquele pedaço de papel, tão simples mas com um significado tão grande, no criado mudo novamente e saio daquele lugar.
No dia seguinte, escuto um barulho na caixa de correio e vou lá ver o que era. Para minha surpresa não tinha ninguém na rua, estava vazia como de costume. Mas sem pensar muito, olho para a caixa de correio, e lá dentro estava um pequeno bilhete com um endereço. Eu conheço aquele lugar, era a casa de um velho senhor, muito estranho e levemente assustador, e embaixo tinha um pequeno recado:
– Vá pra esse local. Lá encontrará as respostas para as suas perguntas.
Sem nem pensar duas vezes, entro em casa pego a carta que Liz deixou pra mim, e vou em direção a essa casa. Estaciono o carro na esquina, e vou em direção a ela.
Não era uma casa muito grande, e estava bem suja, com a grama alta.
Toco a campainha e um senhor me atende. Ele estava com uma cara fechada, o que me assusta um pouco.
– Olha senhor, meu nome é Thiago e recebi esse bilhete, com o endereço da sua casa.
Mostro o bilhete para o velhinho e, como num passe de mágica, a cara fechada dele se transforma em um belo sorriso.
– Olá rapaz. Como vai? Você é famoso na região como o “cara da noiva cadáver”. Têm muitas lendas envolvendo a sua amada.
Fico sem palavras, apenas abaixo a cabeça e pego o bilhete que Liz deixou para mim.
– Meu nome é José, mas me chamam de senhor Zé.
Disse ele com um grande sorriso no rosto. Dou um pequeno sorriso, e explico o que me fez ir até a casa dele.
– Que falta de educação a minha, entre rapaz por favor.
– Vai ser um prazer. Digo enquanto entro na casa dele.
– Bom rapaz, não sei se vou poder te ajudar muito, pois não conhecia essa moça, mas eu tenho algo que pode ajudar.
Ele abre uma pequena gaveta de um móvel da sala, e tira um jornal e me estrega. Pego e olho a data – 01/11/2019 – e na capa estava escrito:
“Noiva se mata no dia do seu casamento, sua família e amigos ficam sem entender o motivo. De acordo com pessoas próximas, Liz era uma pessoa simpática que sempre estava com um sorriso em seu rosto.
Polícia afirma que a forma que ela fez isso é incomum.”
– Vocês iam se casar no Halloween? Pergunta o Senhor Zé.
– Sim, ela amava essa data.
– Eu não vou falar o que eu tô pensando, em respeito a você.
Dou uma risada, olho para o jornal e pergunto:
– Quem lê jornal hoje em dia?
– Eu gosto de sentir o cheiro de papel, e não tenho ninguém pra me ensinar a mexer no meu celular.
Responde o antiquadro velho, que logo depois solta uma tosse bem seca, e recosta em uma poltrona.
– O senhor está bem? Pergunto preocupado.
– Estou rapaz. É apenas uma tosse de nada, não precisa se preocupar.
Ele olha para o jornal, vê a foto de Liz e pergunta com uma cara de confuso. – Essa era sua noiva?
– Sim. Lembro do dia em que ela tirou essa foto.
– Vem comigo rapaz.
Não falo nada, apenas sigo ele e quando me dou conta, estava em um porão. – Você quer me matar? Pergunto preocupado.
– Aí, pelo amor de Deus né. Não sou tão burro assim. Você provavelmente avisou alguém que viria até minha casa. Se eu quisesse te matar, já o teria feito.
– Eu não avisei ninguém que estava vindo. Falo em voz baixa.
Senhor Zé apenas olha para mim e fala:
– Você é burro ou o quê? Você vai à casa de uma pessoa que não conhece, e não avisa ninguém?
Nós dois começamos a rir, e depois um tempo de risada ele pega um pequeno quadro e me mostra.
– Essa era a sua noiva?
Olho com uma cara de assustado, e lá estava Liz com um lindo vestido de noiva. Mas algo parecia diferente nela. Ela parecia uma noiva, mas uma noiva cadáver.
As lágrimas voltam ao meu rosto novamente, e o Senhor Zé apenas me abraça.
– Vai ficar tudo bem rapaz, não chore.
– Por que você tem esse quadro? Pergunto intrigado.
– Meu filho que o pintou, há algum tempo.
– Cadê seu filho?
Pergunto enquanto saía do abraço.
Ele se matou, há três anos.
– Sei o que o senhor está sentindo.
– Bom rapaz, se quiser pode ficar com quadro.
– Sério? Muito obrigado!
– De nada rapaz.
Volto pra casa, e coloco o quadro em cima da mesa. Já era tarde, então vou dormir e logo pego no sono.
– Alguém aí??
Escuto uma voz feminina me chamando.
– Oiii estou aqui.
Respondo mas não escuto nada de volta, até que vou andando para fora de casa, e lá está ela.
– Liz! Você voltou? Mas como?
Grito mas ela parece não me escutar, e eu não consigo chegar até ela.
– Liz, me responda por favor!
De novo, sem resposta.
– Por que você tá fazendo isso comigo?
Ela dá um grito, mas antes que eu pudesse responder, uma outra voz masculina fala:
– Como assim querida? Eu te amo!
– Você sabe quem eu amo, vamos nos casar dia três agora, então, por favor, não me faça escolher.
– Vamos ficar juntos meu amor.
– Me chame pelo meu nome!
Acordo assustado e suando frio, isso tudo foi só um sonho,mas quem era aquele homem que dizia amar ela?
Depois do trabalho fui ao túmulo de Liz, e lá tinha uma foto dela, com um lindo sorriso em seu rosto.
– O que te levou a fazer isso meu bem?
Me pergunto enquanto olho para o túmulo dela. Nunca tinha reparado, mas ao lado tinha um outro, com exatamente a mesma data de falecimento.
E na lápide estava escrito:
“Eu me matei da maneira mais dolorida, me apaixonei por alguém que nunca poderia ter me apaixonado. Aqui descansa, Thomas.”
Leio aquela frase, e sinto um grande aperto no coração. Vou para casa pensando na frase, e assim que entro avisto o quadro de Liz, mas ele parece diferente, estava deformado como se tivesse derretido.
Lembrei do que o senhor Zé me falou, que seu filho tinha se matado há três anos também. Resolvo voltar à casa dele. Chego lá, toco a campainha e então o velho abre a porta com um sorriso:
– Olá rapaz, como você está?
– Bem, eu acho.
– Acha por que? Aconteceu alguma coisa?
– Tive um sonho estranho.
– Você quer falar sobre isso?
Conto pra ele todo o sonho, e como o quadro ficou. Depois também conto que fui ao túmulo de Liz, e sobre a frase que vi escrita no túmulo ao lado.
– Pera aí. Você falou Thomas?
Ele me perguntou com uma cara assustada.
– Sim, por que?
– Thomas era meu filho!
Falou com uma cara triste.
– Antes de morrer, me deixou uma carta.
Ele procurou em um móvel, e depois de um tempinho conseguiu achar.
– Nunca tive coragem de ler. Poderia ler pra mim?
– Claro!
Pego a carta da mão dele, e começo a ler.
“Olá papai, como você está? Peço desculpas de uma vez, o senhor não deve estar entendendo o porquê disso, mas eu me matei da maneira mais dolorida, me apaixonei por alguém que não posso ter. Com amor, Thomas.”
As lágrimas dele começam a descer em seu rosto, eu apenas o abraço sem dizer nada, pois sabia exatamente o que ele estava sentindo. Mas lembrei que tinha visto essa frase em algum lugar.
– Ele tinha um diário, no qual escrevia todos os dias. Prometi pra mim mesmo que nunca leria, mas acho que ele não se importaria se você lesse.
Senhor Zé foi até um cômodo de sua casa, e saiu de lá com um pequeno caderno preto, com pequenos detalhes em branco.
-Toma. Leia e talvez encontre algo sobre sua noiva.
Converso mais um pouco com ele, e logo depois vou para casa.
Assim que chego, dou de cara com o quadro, e ele estava do mesmo jeito que de manhã, derretido. Abro o diário de Thomas, e na primeira página estava escrito:
“Querido diário, hoje meu amor foi pedida em casamento por outro homem, eles vão se casar dia 31 de outubro de 2019. O amor da minha vida encontrou o amor da vida dela.”
A cada palavra que ia lendo, o aperto em meu coração ia aumentando, mas passei para próxima página:
“Querido diário, não queria tomar essa decisão, mas é a única coisa que vem em minha cabeça. Nós vamos ficar juntos! Se não for nessa, que seja na outra vida.”
Não tenho mais nenhuma reação. Mil coisas passam pela minha cabeça nesse momento. Lembro do sonho que tive na noite anterior, e a cada minuto perguntas borbulham na minha cabeça.
Deixo o diário de Thomas pra lá, e vou pra suite onde dormia com Liz procurar o diário dela. Encontro um pequeno caderno, com uma capa de margarida – sua flor favorita. Abro e na última página estava escrito:
“Querido diário. Amanhã é meu casamento, vou me casar com o amor da minha vida. Estou tão feliz, mas também preocupada com o Thomas. Ele era um bom amigo, mas acabou confundindo as coisas. Amo o Thiago mais do que tudo, e não posso deixar o Thomas estragar meu dia, o nosso dia.”
Uma ideia veio em minha mente, mas não acredito que ele seria capaz de fazer uma coisa tão cruel. Ele disse que a amava. Vou para o computador e pesquiso se tem alguma notícia do dia em que Liz, supostamente, se matou. E lá estava, a mesma reportagem do jornal do senhor Zé.
Paro pra pensar um pouco, e realmente a forma com que Liz se matou era estranha. Quem se mata com um tiro na barriga, me pergunto?
Depois de um sábado estranho como esse, decido ir tomar meu banho e dormir. Amanhã volto a me preocupar com isso.
Pego no sono rapidamente e acordo, já no dia seguinte, com o barulho da chuva. Está um dia triste, com nuvens escuras.
Tomo meu café, e continuo lendo o diário de Thomas. Mas o que eu não tinha percebido é que, como o diário não era aberto há três anos, algumas páginas estavam coladas, e na última página estava escrito:
“Querido diário. Provavelmente essa é a última vez que vou escrever em você. Não queria estar fazendo isso, mas é o único jeito de nós ficamos juntos. Isso é por você, meu amor!”
Meu coração gelou, não acredito no que estava lendo. Thomas dizia que a amava, como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas com ela?
Saio correndo de casa, e vou para frente da casa do senhor Zé, mas não aguento entrar. Apenas sento na varanda, e começo a chorar descontroladamente.
Ouvindo meu choro, o velho sai de sua casa com uma cara de preocupado. – O que aconteceu, meu jovem?
Tento me recompor, ele me convida pra entrar e me oferece um copo de água. Depois de um tempo explico tudo.
Ele não fala nada. Parece que estava em estado de choque. Ele não podia acreditar que seu filho teria coragem de fazer uma coisa tão cruel.
Ainda sem entender, ele me diz transtornado:
– Como ele pode fazer isso com sua família? Eu não sei o que dizer, Thomas nunca me falou nada sobre ela. O que será que fiz de errado?
Tento acalmá-lo, e respondo:
– Nao se culpe por isso. A culpa não foi do senhor, ele estava louco de paixão. Qualquer um pode perder a cabeça por amor.
– Mas e a carta que Liz deixou pra você? E o bilhete que mandava você vir até a minha casa. Qual a explicação?
– Bom eu não sei como o bilhete foi parar lá, mas eu comparei as letras e o bilhete tinha mesma letra, do diário e da carta.
Ele não fala nada, e abaixa a cabeça com uma expressão triste em sua face.
– O que parecia ser a noiva cadáver, era na verdade um cadáver apaixonado. Mas ao que tudo indica, essa história não acabou aqui