Ouvir essa expressão pode causar grande desconforto (quase uma sensação de fracasso) naqueles que não são “meros ensinadores”, ainda que o bom resultado do processo educacional não dependa apenas deles. E olha que ela foi repetida várias vezes (no período pós-Pandemia) para “justificar” a alta evasão escolar e a baixa proficiência em Língua Portuguesa e Matemática, dentro de uma limitada análise classificatória da qualidade do sistema de ensino brasileiro. E está aí o cerne do Artigo dessa semana – qual é o alcance dessa “perda” de que tantos falam? Apenas no letramento e na assiduidade de nossas crianças e adolescentes ?
O filósofo prussiano, Immanuel Kant, lá no século XVIII já afirmava que “O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”, por isso mesmo, enquanto a Academia se ocupava com a construção de indicadores que explicassem a crise educacional instalada, uma outra (muito mais séria) já vinha sendo gestada na sociedade, causando um impacto imediato nas relações e nos valores dessa juventude dita “perdida”.
Trato aqui de questões que não começaram a acontecer mês passado, nem tampouco no ano passado, nem há quatro anos atrás – na verdade elas vêm surgindo em um crescente, que hoje tomou uma proporção muito perigosa. Falo da perda de referências positivas, bem como de valores humanos e éticos, que assolam o mundo moderno sim, mas em se tratando de Brasil pode ser mais sentida da virada do século para cá, e que tem como origem o divórcio litigioso ocorrido entre Família e Escola – à primeira caberia a tarefa de educar, enquanto à outra a de ensinar, não era o que se dizia por aí?
Pois é, ao que me parece, a sobrecarga de compromissos laborativos e sociais que a sociedade contemporânea lhes impôs, seja a razão para a perda de comprometimento dos pais com a formação dos filhos, transferindo integralmente para a Escola essa tarefa. Essa, por sua vez, também mudou (o que não quer dizer que tenha sido para melhor). Sendo assim, apesar de perceber os descaminhos dessas crianças e jovens, preferiu manter-se fiel ao compromisso de ensinar (será mesmo?), deixando do lado de fora de seus portões, questões que fugissem ao caráter estritamente pedagógico.
Não é necessário ser um sociólogo, nem tampouco um pesquisador em Educação, para perceber as consequências desse rompimento. Basta folhear as páginas de um jornal, ou dar um “Google” na internet para encontrar – automutilação, depressão e suicídio infanto-juvenil abuso de drogas licitas e ilícitas, sexualização precoce. E agora, de modo mais contundente, preconceito por gênero, raça e religião além de práticas de extermínio com ascendência nazista – o caso de Aracruz é apenas um trágico exemplo recente, ainda que outros tenham ficado apenas nas ameaças em redes sociais, e portas de escola.
Então alguém poderia dizer que a culpa disso é do Bolsonarismo, que disseminou o discurso de ódio no país. Essa seria uma análise sobremaneira simplista (até porque seu surgimento é anterior a Bolsonaro) porque esse movimento só sobrevive “ainda” graças ao apego a um falso mito, a uma liderança estóica que dia após dia vai se desconstruindo, no mesmo ritmo em que o caráter humano do Messias, vai se sobrepondo ao do “Salvador”.
Mas sim, ele tem sua responsabilidade na medida em que, enquanto figura pública, incentivou e deu voz a esse tipo de comportamento, causando um impacto negativo muito grande especialmente nos adolescentes (ao tornar-se um anti-herói), já que a Escola e a Família abriram mão da prerrogativa de construir valores, e formar cidadãos comprometidos com o respeito às diferenças, a paz, a democracia e a união entre os povos.
O comportamento do homem é reflexo da educação que ele recebe, já dizia o filósofo prussiano, portanto, não se trata apenas de analisar o tamanho da defasagem idade-série do estudante brasileiro, ou de quantificar seu déficit de aprendizagem em Português e Matemática – a questão pujante aqui é: quem é esse indivíduo que a nossa sociedade está formando? Será que estamos diante de um caminho sem volta? Estaremos, pois, construindo uma geração comprometida com a barbárie e a ignomínia? Oxalá que não, e que tenhamos a sapiência para corrigir a rota a tempo, e assim salvar esses futuros adultos do abismo que se anuncia, com um olhar sempre esperançoso e poético, como o do Mestre Rubem Alves: “Meu único desejo, meu tema musical, meu diamante é a educação”.