Excelentíssimo Senhor Presidente da República. Na condição de Chefe de Cerimonial Público (note que essa é uma prerrogativa própria daqueles que têm expertise na área, proficiência comprovada sobre rito, protocolo e legislação, além de um zelo inabalável pela ordem e pela hierarquia – e não apenas a investidura em um cargo comissionado) entendo que posso chamar-lhe a atenção nessa missiva para algumas atitudes e posicionamentos que atentam contra a dignidade e o respeito devidos ao cargo mais representativo da nossa República. Para além disso, falo também como um dos milhares de brasileiros que, em 2018, acreditaram em um projeto de Direita, outorgando-lhe por isso – através do voto – a responsabilidade de conduzir esse processo, que, diga-se de passagem, fracassou peremptoriamente.
O primeiro ponto que destaco nessa epístola, diz respeito à postura esperada de um Chefe de Estado. Que fique bem claro, não se trata aqui de emitir juízo de valor sobre a pessoa protegida pela imunidade do cargo, mas sim sobre a autoridade pública constituída da qual esperam-se posicionamentos respeitosos, republicanos e, até diplomáticos. Note bem Senhor Presidente, diz a sabedoria popular que existem coisas que se falam, mas não devem ser feitas, de igual forma outras que não são ditas, mas as fazemos e ainda aquelas que se falam, são feitas mas não se devem deixar tornar públicas quando acontecem.
Isso porque quando estamos em uma posição de destaque (seja em que nível for) inevitavelmente nos tornamos referência – exemplos de boa ou má conduta – para aqueles que nos seguem, por isso a necessidade da atenção com a imagem pública é tão relevante. Usar palavreado de baixo calão, achincalhar mortos, estimular o preconceito e a balbúrdia, desmerecer a ciência só denotam uma bazófia, uma fanfarrice com o cargo, que não são aceitáveis e que deixam agora, como legado de seu mandato, uma legião de mortos-vivos à espera de um mito Sebastianista, de um “Encoberto” que, após a facada em traição, voltou do mundo dos mortos. De um Messias Salvador que, de fato, nunca existiu e hoje se protege dentro das paredes seguras de um Palácio.
Não menos preocupante, o outro ponto de reflexão dessa carta trata da questão da construção dos “feudos” no cenário político brasileiro. Por definição, a Política é o cuidado com a Polis, com o bem e com os interesses da coletividade, e quando se toma aquilo que seria do povo, em proveito próprio (de um grupo ou família) surge aí uma das mais deletérias excrecências da política (com “p” minúsculo) nacional.
Nesse quesito tenho de reconhecer que a família que ora carrega seu sobrenome foi pródiga, não por ter feito carreira na vida pública, mas por não ter produzido nada de saudável, ou com vistas à coletividade, em tantos anos somados de mandato. Ao contrário, após a vitória de 2018 pensaram-se hegemônicos, lideranças de uma Direita que não representa (nem nunca representou) o projeto a que me referi no caput dessa missiva e que agora, na eminência do cadafalso, começam a correr como ratos que pulam no mar, quando a embarcação começa a fazer água.
Senhor Presidente, existe um dito popular que é inexorável na vida pública – “Rei posto, Rei morto” – e a agonia que Sua Excelência mesma já deixou clara em declaração pública, de que gostaria ter passado a faixa logo após o término das apurações oficiais desse pleito, só denotam o amargor da consciência de um político que tendo a oportunidade de mudar o Brasil, e de consagrar-se como Chefe de Estado de uma das mais importantes nações em desenvolvimento no mundo moderno, no apagar das luzes, deixa como marca de seu mandato, além de um negacionismo institucionalizado, milhares de cadáveres, o isolamento internacional do país e a cizânia de um povo, que pode levar a uma das mais graves crises civis de nossa história recente.
“Rei posto, Rei morto”, Presidente, por isso mesmo aqueles que jornadearam na garupa de sua moto, e com muitos dos quais manteve relações pouco republicanas, começam a abandoná-lo, descolando da própria imagem a marca de uma gestão que mais mal fez, do que bem à nação, buscando, dessa forma, se reposicionar no jogo, mudando de lado no tabuleiro. E posso assegurar-lhe, Excelência, que esse é somente o primeiro compasso do Réquiem que marcará o fim de um período da história brasileira, que certamente, não deixará saudades.
Respeitosamente,
Professor Sérgio Soares
Chefe de Cerimonial Púbico