“Vivendo e aprendendo a jogar/ Vivendo e aprendendo a jogar/ Nem sempre ganhando, Nem sempre perdendo/ Mas, aprendendo a jogar “. Embalado pelos versos dessa música da sempre musa da MPB, Elis Regina, abrimos a partida dessa semana, onde trataremos de duas das maiores paixões nacionais: o futebol e a política. Passional como ele só, o brasileiro se empolga e acaba transformando toda disputa (seja ela no campo de futebol ou nas urnas) em um eterno FlaXFlu, e isso mais uma vez ocorreu antes, durante e depois de divulgados os resultados das últimas eleições gerais.
Ainda sobre os efeitos do rescaldo de 30 de outubro, os ânimos teimam em não asserenar, prolongando um embate que encerrou-se no último debate televisionado pela Rede Globo. Ruas ocupadas, manifestantes entrincheirados nas portas dos quartéis, gritos inflamados e histeria coletiva descambando para o xenofobismo, alienação e até a exaltação ao nazismo. Tudo isso por conta de uma partida onde o VAR apontou, em um lance polêmico e muito disputado, a vitória do time desafiante, deixando a torcida da casa inconformada com o resultado. Como diria Arnaldo César Coelho, “a regra é clara”.
Coincidentemente (ou não) dia 15 de Novembro, data em que se comemorou a Proclamação da República, recebi a notícia de que meu último conto fora indicado para publicação na “Revista Literalivre” e, não por menos sorte do destino, essa trama narra uma história ocorrida em Prosperidade (um dos meus universos ficcionais) onde a disputa pelo poder levou um dos grupos políticos locais a tomar de assalto a cidadela, em um 7 de setembro, proclamando daquele momento em diante a criação da República do Queijo Qualho. Para não dar spoiler sobre a história, só posso dizer que, nesse caso, a “Arte imitou a vida”.
Voltando ao entendimento do VAR sobre o resultado da última partida eleitoral, enquanto os inconformados torcedores protestam nas ruas debaixo de chuva, e com água tomando os joelhos, li essa semana que o partido do time derrotado havia contratado uma auditoria externa, que chegou à conclusão de que o jogo deveria ser anulado, por inconsistência nos dados. Logo que essa notícia veio á tona, o Presidente da legenda tratou logo de desmentir o fato, justificando que o caso ainda estava em análise, portanto, não havia como atestar o erro da arbitragem até aquele momento.
Esse é o nosso Brasil, cheio de cores, sabores, cheiros, mas também contrastes e incoerências, onde o jogo político nem sempre é jogado dentro das quatro linhas do gramado, e os cartolas (tal como os do futebol) exercem um poder $$ maior do que o dos próprios grupos políticos (quando não definem seus rumos). Está aí um dos casos em que isso se configura em curso.
O que talvez nossos “incautos” e “mal informados” torcedores (que clamam pela anulação da partida – doídos e inconformados) ainda não tenham se dado conta, apesar da obviedade do fato, é que cancelar esse jogo significa cancelar todo o campeonato, então os times vencedores das outras rodadas teriam seus placares também alterados, não havendo, portanto, nenhum interesse ou vantagem para nenhum destes em mudar o resultado, que fora confirmado pelo VAR.
Servindo-me, então, da célebre frase Barrosiana – “Perdeu mané, não amola!” – concordo que não é fácil (nem tampouco prazeroso) perder, mas isso já está previsto no regulamento – seja em uma partida de futebol, seja em uma eleição – um perde e o outro ganha e assim segue-se a vida, até a próxima disputa onde, de maneira legal e transparente, o resultado pode ser mais favorável aos derrotados.
Ocorre que, de uns tempos pra cá, parece que o “tapetão futebolístico” tem tentado se impor também dentro do jogo político, e isso é uma quebra de paradigma contra a qual todo cidadão brasileiro, que vive e preza a Democracia, deve se contrapor. Liberdade de expressão, diferença de opiniões sempre serão aceitas e bem-vindas, dentro de um sistema onde o respeito é a máxima prevalente, contudo, não podemos nunca nos esquecer (sob o risco de flertarmos mais uma vez com regimes autoritários) do que a “pimentinha” nos deixou como ensinamento nos versos de sua canção, – “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo mais, aprendendo a jogar”.