A prova de fogo da Democracia

No último dia 30 de outubro encerrou-se o pleito para a escolha dos novos mandatários do Brasil durante os próximos quatro anos, ou pelo menos assim era esperado que tivesse acontecido, após a promulgação do Tribunal Superior Eleitoral dos eleitos em segundo turno. Contudo, no que tange à disputa presidencial, o que se viu no decorrer da semana foi a tentativa de instalação de um terceiro turno das eleições, a partir do questionamento do resultado das urnas em um claro processo de ruptura com o rito democrático brasileiro. Então fica a pergunta: a Democracia deve se curvar à conveniência e aos caprichos do derrotado?

Demo” significava povo e “krátos” poder soberano. Da junção desses dois vocábulos gregos surgiu a Democracia Ateniense, sistema político que dava ao povo daquela Cidade-Estado o direito de tomar suas próprias decisões, de maneira igualitária e através do voto direto em Assembleias. Como forma de assegurar que ela não fosse usada de maneira indevida, criaram o “ostracismo” que previa a expulsão de Atenas, por um período de dez anos, daquela pessoa que atentasse contra o sistema democrático, usando-o em benefício próprio, ou concentrando grande poder político que colocasse em risco seu funcionamento.

Já nos dias atuais, desde o início do processo de Redemocratização no país, nunca se viu um período eleitoral tão conturbado quanto o que presenciamos nesse ano. Na verdade, a afronta ao sistema democrático já vinha se impondo desde 2019 – início do atual governo – com manifestações pontuais, mas frequentes, dando o sinal de que (como previsto) essa seria uma eleição para não ser esquecida.

A consequência dessa ruptura sem paralelo com o rito democrático foi a cizânia de toda uma nação, dividida entre “Cruzados” – defensores da pátria, da verdade e da família e “Bárbaros” – comunistas, ‘invertidos’ e corruptos que se degladiaram até o último voto levando a um resultado inédito nas eleições presidenciais de “quase” empate, mas também muito simbólico por atestar quão grave foi o dano desse quadriênio de práticas nada republicanas.

Contudo, o que se esperava dentro de um regime baseado na igualdade de direitos de escolha, através do voto direto é que, promulgado o resultado final do pleito, vencedores e vencidos tornassem aos seus papeis de cidadãos brasileiros, filhos de uma mesma pátria, e para a qual deve convergir todos os esforços e atenção. Mas não foi isso que vimos (e ainda estamos vendo) acontecer, passada já uma semana do término do processo eleitoral.

A tão deletéria e falada polarização levou às ruas uma multidão de pessoas, inconformadas e altamente desinformadas, manipuladas por aqueles que não sabem “jogar” dentro das quatro linhas, a contestar o resultados das urnas e (carecendo de lógica e bom senso) pedindo “Intervenção Federal” – uso da Lei de Segurança Nacional – o que traria de imediato, caso fosse acatado, uma ação direta contra os próprios requerentes – já que a erroneamente clamada “Intervenção Militar” nem enquanto instrumento legal existe.

Ruas tomadas, estradas fechadas, desabastecimento, prejuízo à economia, danos à vida e à saúde de quem teve o acesso impedido nas estradas, tudo sob a ótica do livre direito de manifestação, seguidas de uma chuva de informações mentirosas e descabidas que serviram (e ainda servem) de combustível para a sanha de uma população entorpecida pelo apego a um Mito, fanatizados por um ideal messiânico que a inexorável lógica das eleições dará conta de resolver – “Rei posto, Rei morto”.

Ainda assim, apesar de todos os revezes ela, a co-irmã da Política, se impôs e nada há que os descontentes possam fazer, a não ser aceitar a derrota e se (re)organizarem para em 2026 (quem sabe) alcançarem o resultado que tanto desejavam. Enquanto isso não acontece o bloco passa, e como na política partidária brasileira tudo é muito “fluído” os opostos começam a se atrair, em um jogo dialógico próprio e necessário do regime democrático. Quanto aos insufladores, financiadores e mentores intelectuais de toda essa balbúrdia, que sejam condenados ao “ostracismo”, senão o de Atenas, o do esquecimento e do opróbrio público devido àqueles que atentam contra a Democracia, ou tentam servir-se dela em proveito próprio.

Um comentário sobre “A prova de fogo da Democracia

  1. Nesse grande retrocesso político, no sentido de “polis”, o que se anseia é que os inconformados com o resultado da urnas voltem a ser cidadãos reflexivos. Que não fiquem na expectativa de uma simples revanche, pois a democracia não pode ser costurada em uma sociedade subjugada a uma alucinada torcida organizada de futebol.

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