Por um Novo Tempo

Faltando apenas algumas horas para a definição do pleito presidencial, Ivan Lins canta nos versos de sua música que “No novo tempo / Apesar dos perigos / Da força mais bruta / Da noite que assusta / Estamos na luta”. E por quê lutamos? Pela sobrevivência da Democracia? Sim, mas não somente; nossa luta vai muito além disso, como bem lembra Mia Couto – “é a defesa da própria ideia de humanidade” – que nos últimos anos vêm sendo ameaçada, ao se instilar na sociedade brasileira comportamentos preconceituosos, de ódio e de violência. Por isso, é chegada a hora de dar um basta nesse estado de coisas.

Brasil, terra de Vera Cruz, berço esplêndido onde tudo em se plantando dá, de povo miscigenado e acolhedor, pátria de chuteiras, mas também de povo aguerrido e trabalhador, que sempre recebeu de braços abertos todos que aqui chegaram buscando abrigo, não merece ser tratado como um pária diante da comunidade internacional, por conta dos equívocos e sandices desse ou daquele grupo, pois o povo brasileiro, em sua grande maioria, não é assim, nem compactua com essas barbáries.

Claro que existe (e sempre existirá) o lado negro da força em cada um de nós, mais latente ou mais adormecido nesse ou naquele indivíduo. Por isso não se pode imputar a uma única pessoa a responsabilidade por todo tipo de desatino cometido ou falado, sob a égide da “defesa da família”, ou dos “interesses pátrios”. Mas, obviamente, quando uma figura pública, investida do maior cargo nacional, os estimula através de falas e comportamentos, cria-se um movimento muito perigoso de tirar do armário aquele lado mais sombrio, que se mantinha guardado e escondido de todos há muito tempo.

De igual modo, quando se subverte o sentido da Religião (Religare em Latim – ligar, voltar a ligar) para um discurso sectarista, de proporções bíblicas, de luta do bem contra o mal, estimula-se a cizânia entre irmãos de fé, e o que era para ser uma ligação entre o humano e o sagrado, torna-se uma relação de exploração e controle social profanando Templos e Igrejas, com discursos inflamados e politicamente ideologizados.

Antes que pensem o contrário, não. Não acredito em (falsos) Mitos e Profetas Messiânicos, nem tampouco em Salvadores da Pátria. Creio sim que a Política, enquanto ferramenta para promoção do bem comum, que pensa e trabalha pelos interesses coletivos, pode mudar esse estado de coisas. Junte-se a ela sua co-irmã – a Democracia – sem a qual a primeira não consegue ser em sua plenitude, para entender que dentro do processo que está posto, e do momento que se aproxima, só existe um lado possível para escolher, o qual irá permitir que uma e outra tragam o trem de volta aos trilhos. Isso é fato, e contra fatos não há argumentos.

Ainda falando de Mia Couto, o escritor Moçambicano que ajudou a abrir essa narrativa, ele diz em entrevista recente a um canal de notícias brasileiro que “O que está em causa no Brasil não é apenas a escolha de dois candidatos. É a última possibilidade de evitar algo que o Brasil já viveu e muitos querem esquecer: um regime de medo e violência, um governo que agrida as instituições democráticas.”

Infelizmente, o que o biólogo de Moçambique (que virou escritor) não sabe é que esse tempo de medo e violência, que agride e denigre as instituições democráticas já chegou por aqui, e é por isso que acredito e espero pela chegada de um Tempo Novo, onde os ânimos possam se acalmar, onde fome, miséria e desemprego voltem a ser combatidas. Onde Educação, Saúde e Segurança voltem a ser prioridades. Onde vacina volte a ser sinônimo de cuidado, e não de deboche. Onde meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sejam parceiros da vida novamente.

O Brasil em que acredito, e espero, é de todos e para todos, onde Deus é brasileiro sim, e por isso mesmo não se deixa usar em jargões falaciosos. Oxalá, nesse país que tanto amo, como disse o menestrel, estejamos crescidos, estejamos atentos e mais vivos, para quê? “Pra que nossa esperança / Seja mais que vingança / Seja sempre um caminho” que deixaremos de herança aos nossos filhos, aos filhos do nosso Brasil.

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