Sobre aquilo que é íntimo e privado

Você divulga nas redes sociais a senha da sua conta bancária? Certamente que não, porque essa é uma informação da esfera privada. Os da minha geração, que conheceram as famosas “amarelinhas” (ou listas telefônicas), devem se lembrar que o assinante tinha a opção de divulgar (ou não) seu número telefônico, que seria tratado, então, como uma informação pública. De igual maneira, existem particularidades do seu corpo – uma cicatriz, uma celulite – que você trata de esconder, isso porque é algo que tem a ver com sua intimidade e, portanto, não é para ser socializado com a coletividade. Mas ao que parece, hoje se tomou uma coisa pela outra e não sabe-se mais reconhecer a diferença entre aquilo que é público, do que é privado.

Como “Homem de Letras” gosto de conhecer a história das palavras e, pesquisando, descobri que o vocábulo íntimo (que é de origem latina – Intimus) significainterior, o que é de dentro”, de igual origem o outro vocábulo privado (Privatus – em Latim) tem o significado de “colocado à parte, pertencente a si mesmo”. Portanto, estamos falando de coisas interiores, intrínsecas, que pertencem somente a nós e, dessa forma, devem ser apartadas das outras pessoas.

Vivemos no tempo da “livre expressão”, e ainda bem que é assim. Os dias de obscurantismo, censura e de opróbrio ficaram para trás, e não cabem mais em uma sociedade múltipla e diversa como a que estamos experimentando. Por isso é direito (previsto em Lei) de quem quer que seja tornarem públicas suas ideias, opiniões e até intimidades, se assim o desejar.  Essas são atitudes personalíssimas que devem ser respeitadas, no entanto deve-se tomar o cuidado para não as tratar como um novo regramento para a convivência social.

O fato de compartilharmos quase tudo, tanto nas redes sociais, quanto em aparelhos eletrônicos, pode estar contribuindo para essa desconstrução do sentido de intimidade e privacidade. Hoje não se procura mais um amigo para desabafar ou contar infortúnios – publica-se um post. O WhatsApp há muito que perdeu seu sentido original, que era o de ser um meio de comunicação instantânea – virou sessão de terapia em grupo (ou bate-boca). Ninguém mais revela fotografias – as publica nos Stories, tornando-se assim refém da aprovação de likers, ou do escárnio de haters. E os vídeos então? Há todo momento deve-se ficar atento para não ser flagrado em situação indiscreta, ou desconfortável – e virar “meme” nas redes de relacionamento.

Sinal dos novos tempos? Sim! Para os que conviveram na minha geração era diferente? Com certeza! O que não quer dizer que era melhor, até porque não se trata aqui de emitir juízo de valor sobre o modo de vida das pessoas, sob o risco disso parecer um discurso conservador, ou retrógrado.

Ao contrário, a reflexão que proponho com essa narrativa vai muito além de uma pauta de costumes. Na verdade o que me causa preocupação é aonde esse excesso de exposição está nos levando? Até que ponto o meu direito de expressão, não está invadindo a privacidade do outro, ou violando o direito dele de não querer compartilhar as suas intimidades? E o que é ainda mais grave (na minha opinião enquanto professor) é analisar de que forma essa ressignificação da impessoalidade (já que tudo se tornou público) está influenciando na formação da personalidade de nossas crianças e adolescentes?

O mesmo sal que tempera e dá sabor à comida, quando em excesso afeta o paladar, quando em pouca quantidade torna o prato insosso. Penso que essa deva ser a medida no caso das particularidades aqui discutidas, a do bom senso – não devemos educar com base em tabus e preconceitos (como muitos de nós fomos criados), mas também não podemos incentivar uma publicização desmedida – de corpos e posicionamentos – sob o risco de entrarmos em um estado de convulsão social, ao formar indivíduos jovens e adultos que não reconhecendo um limite ético para as próprias vontades e opiniões, perdem a noção de respeito pelo outro. E isso, infelizmente, já está ocorrendo: basta entrar em uma sala de aula, ou zapear as manchetes diárias dos veículos de comunicação para constatar esse (triste) sinal dos tempos!

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