Como explicar a morte? Como falar desse tema tão lúgubre? Se fosse há tempos atrás eu teria não apenas a resposta, mas faria uma palestra explicando cada pormenor dessa “passagem”, em minúcias. Hoje, não mais. Não quer dizer com isso que minhas crenças mudaram, mas sim que mudei a forma de enxergar a vida, e as coisas para além dela. Afinal, como consolar alguém que sofre com uma dor de dente se você nunca teve uma cárie? Como falar sobre os desafios do Magistério no Brasil, se você nunca saiu de seu confortável gabinete na universidade, para dar aulas em uma Escola Pública?
Thiago Brado, um jovem cantor que conheci de pouco, canta nos versos de uma música uma necessária verdade: “Ame mais, abrace mais, pois não sabemos quanto tempo temos para respirar. Fale mais, ouça mais, vale a pena lembrar que a vida é curta demais”. Pois é, quando você menos esperar, pode ser surpreendido, e a vela se apagar.
E para esse momento o imaginário religioso construiu várias possibilidades de desfecho (ou recomeço): do mais sombrio que traz a figura do barqueiro dantesco, de capa e foice, que vem buscar as almas para o purgatório, até a imagem de céus e mundos excelsos onde a alma livre continuará vivendo, junto de anjos, arcanjos e serafins, enquanto aguarda o reencontro eterno. Mas tanto em um caso, quanto em outro, essas são respostas para aqueles que se vão, e não para os que ficam, e têm que lidar com o enlutamento e o vazio que a perda traz.
Engraçado tratar essa ausência como uma perda, pois para os especialistas da psiquê humana isso pode denotar apego, o que realmente não é saudável. Contudo, sem fugir do problema recorrendo a eufemismos, a morte é um lapso, um hiato que se cria (definitivo ou não, de acordo com a crença de cada um) e que vai gerar um desconforto, um vazio, uma saudade que não se explica, nem se resolve com palavras.
Quando em minha casa perdemos (de maneira trágica) um pet, tratei logo de conseguir outro para preencher aquela lacuna que havia se formado, e curar o trauma e o entristecimento gerados (contrariando inclusive a recomendação da veterinária que sugerira a necessidade de vivermos o luto). E ainda que fosse um placebo de patas e pelos, para aquela situação funcionou.
Mas como fazer isso quando se trata da perda de um filho? Os pais vão até o orfanato mais próximo e adotam outro para substituir o que se foi? Como viver com esse sentimento que pode ser muito nocivo para algumas pessoas? Note-se que nem mesmo a religiosidade basta nesses casos – Padre Fábio de Mello sofreu duramente a perda de sua mãe, e até hoje ainda se mostra ressentido com essa ausência.
Portanto, não adianta dar conselhos, ou tentar explicar algo que você não sentiu na pele (e no peito). Como bem lembrou o iluminado cantor em seus versos – viva cada dia da sua vida como se fosse o último, porque realmente ela é curta demais — e frágil como a chama de uma vela que uma leve brisa pode apagar. E quando isso acontecer, só o que irá restar serão as histórias, e as pessoas que o seu brilho iluminou. Carpe diem – trate de colher as rosas do seu jardim, enquanto elas ainda são botões.