Sobre a animalização do Humano: a besta-fera está à solta

Qual sentido há em provocar dor e sofrimento no outro? Compulsão? Sadismo? Segundo Mark Twain “De todos os animais, o homem é o único que é cruel. É o único que inflige dor pelo prazer de fazê-lo.” Seria essa a explicação para atos violentos – a busca pelo prazer? Nelson Rodrigues disse em sua última entrevista, antes de falecer, que” O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.”

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados mês passado, o Brasil teve 41,1 mil mortes violentas em 2021, o menor número desde 2007, e que representa uma queda global de 7% no número de ocorrências. Mas se o número de crimes violentos diminuiu, o que justifica os casos de fratricídio, feminicídio e violência sexual contra crianças e jovens recentemente noticiados pela imprensa?

Para os religiosos, a resposta para esse movimento de banalização da vida, configurado em crimes tão impactantes, seria a falta da crença no Divino, a perda do sentido daquilo que é Sagrado, em uma clara demonstração da arrogância humana que, não crendo, pensa ser o próprio Deus, portanto, com o direito de por ou de dispor da vida de alguém.

Já segundo os conservadores mais ortodoxos, a culpa por essas tragédias em série é da liberalidade escancarada nos meios de comunicação – TV’s e mídias digitais – que incentivam comportamentos libertinos em jovens e adultos, ao tornarem público aquilo que deveria ser mantido apenas na vida privada.

Ao que me parece, tanto um quanto outro podem ter argumentos válidos, pois se a religiosidade é um fator que pode favorecer a empatia e o respeito entre os indivíduos, a perda da noção daquilo que é íntimo e privado é um dado preocupante, pois faz com que se crie uma falsa impressão de naturalidade para todo tipo de excesso e exposição.

Ainda assim, isso me parece pouco para justificar crimes como o cometido contra a menina Bárbara Vitória, ou o da Policial Militar que matou a irmã, ou da avó que incentivou o filho deficiente a tirar a vida da própria neta em uma discussão doméstica, ou ainda, do abandono de uma recém-nascida no meio do mato para morrer, com a mesma naturalidade com que se descarta no rio, dentro de um saco, filhotes de gato ou cachorro indesejados.

Em uma conversa sobre vocação e carreira com meus alunos, dia desses, fui surpreendido quando um me disse que seu sonho era ser “matador”, e o de um outro “cafetão”. Espantado com as respostas, fiz questão de confirmar se eles tinham mesmo noção do que estavam falando. Um outro ainda falou que seu herói era o “dono do morro”, e que no futuro queria ser tal como ele.

Aí as coisas começam a fazer sentido, e percebo que, para além da falta de religiosidade e de uma moral conservadora, o que sobra hoje é uma total inversão de valores e a Escola tem uma grande parcela de responsabilidade sobre esse paradoxo social. Dessa forma, o lado cruel e mais instintivo do bicho Homem encontra porteira aberta para libertar sua besta-fera, de bote armado e pronta para atacar. Por isso, cuidado! O perigo pode estar mais próximo de você do que imagina.

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