“Maria nascera ‘do Rosário’ em uma cidade do interior desse Brasil, filha de pais simplórios, mas atentos à educação da pequena. Era uma criança como qualquer outra, que não falava palavras difíceis aos 2 anos, nem brilhava nas redes sociais. Porém, tudo começou a mudar quando aos cinco os pais foram chamados pela professora. Ela que era atenta e participativa, começou a demonstrar desinteresse e apatia nas aulas. Recomendados, procuraram auxílio médico na Rede Pública de Saúde que identificou em Maria do Rosário ‘altas habilidades cognitivas’. Por conta disso, deveria receber atendimento especializado na escola. Retornando ao estabelecimento de ensino, apresentaram o documento do médico à Diretora, que prontamente tranquilizou os aflitos pais – Não se preocupem, isso é normal na idade de Maria, é só pegar firme que passa!”
Dia desses, assistindo a um programa na TV que mostrava as habilidades de pequenos gênios – crianças de alto QI – o apresentador terminou o quadro com um dado estatístico que transcrevo aqui “A Organização Mundial da Saúde estima que 5% da população mundial tem altas habilidades. No Brasil, são 2,5 milhões de estudantes, mas só cerca de 24 mil (1%) são identificados e acompanhados”. Tamanha discrepância pode até parecer exagero, mas infelizmente não é.
A questão do atendimento a essas crianças (Altas habilidades: quem apresenta um QI entre 121 e 130; Superdotação: quem apresenta QI acima de 130) apesar de prevista em Lei – com acompanhamento especializado e currículo diferenciado – está muito longe de ser uma realidade, principalmente quando se trata de Educação Pública (a situação na Rede Privada também não é muito diferente, com poucas exceções).
De fato, como demonstraram os números apresentados no programa televisivo, os casos são negligenciados e isso porque o Sistema de Ensino brasileiro ainda não aprendeu a trabalhar com as diferenças, e muito menos consegue avaliar o desempenho de uma criança ou jovem com base em outro critério que não seja o classificatório (0 a 10), ao invés de aferir sua eficiência de aprendizagem.
Dessa forma, os alunos de alto rendimento (ou considerados avançados) são ignorados e desestimulados em suas habilidades pois têm que seguir um currículo e um “livro didático” que foram feitos para uma classe de insuficiência e de baixo aprendizado. Quando não são tratados como problemáticos, e encaminhados ao setor de “Atendimento Educacional Especializado” das escolas, junto com crianças deficientes, ou portadoras de algum tipo de transtorno.
Triste realidade, pois mesmo com os avanços metodológicos trazidos pela BNCC, a dita autonomia do aluno durante sua aprendizagem (em especial dos avançados), ainda é uma questão meramente retórica, que não encontra ressonância na Academia, e muito menos nas salas de aula. E enquanto isso acontece, de cada 100 crianças brasileiras com Altas Habilidades, 99 delas recebem o mesmo tratamento que Maria do Rosário – “Pega firme, que passa”.