Lado A e Lado B

“Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.”

Fazendo-me valer desses lindos versos do alter ego de Fernando Pessoa sobre a construção da identidade humana, lembro que os da minha geração (e os que vieram antes dela) ainda se reconheciam dentro de uma linhagem familiar – este é filho de fulano, aquele é neto de beltrano, e isso por si só já denotava uma historicidade (ainda que positiva ou negativa).

O que não ocorre hoje, pois o que se percebe é um apagamento das origens e dos vínculos familiares, em um reducionismo digital que tende a nos transformar em simulacros de nós mesmos, ou como se costuma dizer nas Redes Sociais – nossos avatares. Mas afinal? Quem está com a razão? Caeiro que buscava o autoconhecimento através do esquecimento para se reconhecer, ou as novas gerações que buscam através do apagamento de suas origens, reconstruírem-se em um ambiente novo e idealizado?

A verdade é que, tal como na “Casa Velha” de que fala Rubem Alves, que de tantas demãos de tinta, esqueceu-se da origem nobre do seu Pinho de Riga, nós também somos o somatório de todas as palavras, ensinamentos, traumas e problemas com os quais fomos marcados durante nossa existência. E o grande problema é que, muitas das vezes, o lado bom de nosso espírito fica soterrado em camadas espessas de histórias que não são nossas, nem tampouco representam nossa essência.

Como consequência convivemos hoje com uma geração das Síndromes. Já repararam isso? E se antes eram próprias dos adultos, hoje chegam cada vez mais cedo aos infantes – fobia disso, fobia daquilo, transtornos e déficits. Não quero parecer simplista e dizer que nos tempos da vovó isso não ocorresse, até pode ser que sim, mas certamente não com essa intensidade. E como resultado desse novo modo de vida, o que antes só se via em países “desenvolvidos” como os Estados Unidos da América, hoje já se encontra por aqui como ameaças de extermínio em escolas, e jovens e adultos cada vez mais paranoides e problemáticos.

Álvaro de Campos já dizia que “Sou o intervalo entre o que desejo ser, e os outros me fizeram [ ..]” Sábia e doída verdade! Ninguém é de todo mal, nem tampouco nenhuma pessoa é isenta de maldades. Todos nós temos um Lado A e um Lado B em nossa história, que para entendê-la temos que fazer como antigamente, colocando o LP na vitrola e ouvindo com paciência (e às vezes coragem) os dois lados da bolacha. Só assim poderemos reconhecer em nós a mania de grandeza daquela tia distante, ou o amor fraterno do avô que nem chegamos a conhecer. Juntando esses pedaços é que construiremos nossa Identidade e, talvez assim, iremos economizar um bom tempo e dinheiro em terapia e remédios. Esquecer para lembrar é um caminho necessário, mas atenção: esteja preparado para encarar anjos e demônios e, talvez descobrir que na origem você seja menos angelical do que acreditava ser.

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