A fome nossa de cada dia!

Em seu Livro dos Abraços, Eduardo Galeano profeticamente diz: “Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.”

Não há dúvida de que vivemos hoje no mundo, mas especialmente no Brasil, uma crise alimentar – 35 milhões de brasileiros passam fome. Outros tantos milhões (que a régua de medir não alcançou) quase passam fome, outros tantos ainda viram sua rotina alimentar – antes farta e saudável – hoje se tornar escassa e essencial. E digo isso apenas para lembrar que a crise não é exclusividade dos miseráveis. Mas como bem lembrou Galeano, existem outras fomes que consomem nossas vísceras diariamente.

Amar “não” é um verbo intransitivo (como disse Mário de Andrade) justamente porque necessita de um complemento, ele não se completa sozinho.  Ninguém ama só, essa é uma ação para ser realizada coletivamente, e é a falta dela que vêm nos matando, dia após dia, deixando-nos o espírito esquálido e débil de vontade, de empatia, de sororidade, de compaixão e de respeito, tal como a fome de alimento vem consumindo a carne e os ossos de tantos brasileiros.

Caetano Veloso já cantava em seus versos que “Enquanto os homens exercem seus podres poderes/Morrer e matar de fome, de raiva e de sede/São tantas vezes gestos naturais” e é nesse ponto que o ícone da música popular brasileira se encontra com o escritor e jornalista uruguaio – o Sistema tem nos levado a viver uma fome e uma sede de Justiça Social, com tanta insegurança e medo, que a cada dia mais nos parecemos com o Boi, sozinhos vamos nos lambendo melhor, nos desvinculando uns dos outros.

E isso não é um bom sinal, pelo contrário. Essa desassociação com o humano tem nos tornado individualistas, céticos e sórdidos ao ponto de ferir com armas (e palavras) pessoas ou animais com a mesma dose de crueldade – “O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada.” […]. Não importam mais os meios, desde que se alcance o fim desejado – e assim a sociedade vai vivendo tempos sombrios, de barbárie física, moral e emocional.

Woody Allen disse certa vez que “Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.” Sim! Que saibamos fazer as escolhas corretas para que o Sistema ofereça o pão para aqueles que sofrem, bem como para enxergar que a “fome nossa de cada dia” é também de benevolência, e isso não conseguiremos resolver nas urnas. Precisamos de comida e água, tanto quanto precisamos uns dos outros – essa é a condição para nos mantermos saudáveis, e vivos. No final das contas, amar é isso: um verbo para ser conjugado no plural.

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