Sobre fazer a diferença na vida de alguém

Um amigo, ao qual sempre volto quando surge uma inspiração, uma vez disse com muita propriedade: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…”. Salve Mestre Rubem Alves!

Despretensiosamente, costumo dizer que sou apenas um escrevinhador que desenha as palavras, por isso, tão acostumado que estou a falar de personagens que crio em universos paralelos, me vi surpreendido esses dias quando fui o protagonista da vida real, enquanto professor de escola pública, experiência que me fez compreender o real sentido da reflexão que hoje abre essa narrativa.

“Educação é pra quem Conhece” – essa frase de efeito estampa a capa de uma das minhas Redes Sociais há alguns anos e, para além de uma redundância semântica, por muito tempo (e ainda hoje) ela representou uma crítica aos modelos de Gestão e Políticas Públicas Educacionais vigentes. Agora, contudo, ela ganhou para mim um outro contorno, não menos crítico.

Qual é o pré-requisito para ensinar? Qual a habilidade necessária para ser professor? Basta ter um diploma de licenciado ou bacharel, ou ainda, apenas uma autorização para lecionar. Simples assim. Será?

A verdade é que “professorar” deixou de ser um ofício de vocação para tornar-se ocupação profissional, infelizmente. E ao dizer isso não quero parecer saudosista (Salvem as Professorinhas!) ou utopista. Educar vai muito além de conhecer os códigos alfanuméricos da BNCC , ou citar autores famosos. Ensinar então? Isso é para bem poucos, e as nossas Instituições de Ensino (que deveriam formar professores) transformaram-se em linhas de produção para fabricar colecionadores de títulos, e não educadores. E digo isso com muita tranquilidade, pois reconheço que estou em contínuo aprendizado.

Mas o que vejo acontecer nas salas-de-aula, me faz ter a certeza de que muitos sabem, mas poucos conhecem a realidade da Educação em nosso país. E em sua grande maioria, quando são confrontados com ela se assustam e mudam de ocupação, ou se acomodam alimentando um círculo vicioso que tomou conta das nossas escolas, e me refiro aqui especificamente às públicas.

“Educação é pra quem Conhece”, porque ela exige – Vontade, para oferecer sempre o melhor de si; Coragem, para ser incisivo (e austero quando necessário) sem perder a gentileza; Empatia, para reconhecer que atrás de cada aluno existe uma história de vida (muitas vezes traumática) e Respeito, pois ele é uma via de mão dupla: tenho que respeitar, para merecer o respeito do outro.  

Sim! É possível fazer a diferença na vida de alguém, e minha eterna Professorinha, Cora Coralina, sempre me lembra que é “Feliz aquele que transfere o que sabe”, mas também aprende com aqueles a quem ensina. |Por isso “Ensinar é um exercício de imortalidade”, mas também de responsabilidade, humildade e solidariedade.

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