Ao refletir sobre o Artigo dessa Semana, foi inevitável trazer no retrovisor da memória as aulas de Filologia Românica do saudoso Professor Mário Roberto Zágari, onde ele nos ensinava que a dominação romana nos territórios bárbaros teve a influência de três fatores: a Língua (no caso o Latim) o Direito Romano e as “cuecas” dos soldados, em uma inferência à higiene e bons modos da tropa que acabou seduzindo as aldeãs bárbaras, e criando assim as variantes do Latim, hoje faladas em boa parte do mundo ocidental.
Os tempos são outros, mas falando agora do conflito recente entre Ucranianos e Russos, uma disputa entre irmãos de sangue – já que a história de um se confunde com a do outro – não posso deixar de lembrar um trecho do célebre discurso do “Grande Ditador” de Charles Chaplin: “O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.”
E se à época dos romanos a Língua, as Leis e o asseio foram bastantes para ajudar a definir o novo contorno geopolítico de Roma, nos dias atuais a Globalização, a Economia de Mercado e a sedução de uma vida baseada no Capitalismo já estão sendo decisivas nesses três meses de conflito armado para mostrar que, mesmo que saia vitoriosa nas batalhas na Ucrânia, a Rússia pode perder a Guerra dentro do próprio território, e isso fica claro com as recorrentes demonstrações de insatisfação dos oligarcas russos, bem como de altas patentes contrariadas com a condução do conflito por Vladimir Putin.
Do outro lado do tabuleiro o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, parece-me às vezes esquecer que é um Chefe de Estado e não mais um ator de TV, pois em muitos momentos (guardada a diferença nas motivações) me parece estar seguindo o roteiro do filme “Mera Coincidência” de 1997, para usar (e muito bem) a mídia a seu favor, inclusive mudando a tônica do discurso, que se antes era a busca do consenso e da paz, agora é beligerante.
O engraçado disso tudo é que um candidato à Presidência da República (aqui do Brasil) foi duramente criticado ao dividir a culpa pelo conflito entre os dois dirigentes – ucraniano e russo – no que sou obrigado a concordar vendo o desenrolar da guerra, onde o interesse econômico e político, tanto de um lado quanto de outro, falam mais alto do que a preocupação com as vidas perdidas, e exiladas de sua terra natal.
Quanto vale, então, uma Guerra? Deixo essa resposta para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que travou uma conversa definitiva com o “senhor Futuro”: “Aí está o problema, senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam como se fosse uma pelota. Brincam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes o espremem, como se fosse um limão. A continuar assim, temo eu, mais cedo do que tarde o mundo poderá ser tão só uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar e sem alma.”