“O momento mais alto da expressão democrática é, simultaneamente, o momento da renúncia ao exercício democrático. Falta, então, desenvolver a participação como cultura, por forma a lutar contra o espírito do “Quem vier atrás que feche a porta”. E quando deixar de haver porta para fechar!?” Quem faz essa afirmação contundente é o escritor português, José Saramago – um intelectual que não temia o flerte com a política. E por falar em flerte, é justamente sobre a relação de infidelidade nos relacionamentos aqui epigrafados que construiremos a narrativa dessa semana.
Usando uma definição conhecida, a Democracia “é o regime político em que a soberania é exercida pelo povo. Os cidadãos são os detentores do poder e confiam parte desse poder ao Estado para que possa organizar a sociedade.” Poder esse que é outorgado através do voto, e que tem como condição sine qua non o envolvimento da sociedade. Se, em tese, tudo está correto, porque na prática parece não estar funcionando?
Falando então dessa conturbada relação, temos que a Democracia hoje deixou de ser a expressão máxima da vontade do povo, para tornar-se a representação dos interesses políticos e econômicos de determinados grupos, lamentavelmente.
Ao mesmo tempo, o voto (que era qualificado na Democracia Ateniense, onde os cidadãos deveriam estudar Retórica, Direito e Política para fazer jus a esse direito) vive uma crise de legitimidade – de um lado os que o defendem como manifestação expressa da vontade do povo, por isso não optativo. De outro, os que veem nessa obrigatoriedade um desrespeito à liberdade de escolha, além dela estimular o voto de cabresto, e de eleitores que não sabem votar (???).
Saramago afirma que uma das formas de se construir Cidadania é através de uma “Cultura de Participação Popular” – política, social, cultural, de todos os tipos. Na questão aqui colocada, esse “comprometimento popularesco” é tão grande quanto o das microempreendedoras individuais do sexo, que prestam seu serviço àquele que melhor lhes remunerar, sem nenhum tipo de remorso, ou crise de consciência, por tratar-se de uma troca consentida de interesses.
Como estamos em ano eleitoral eu teria a resposta na ponta da língua, caso fosse perguntado por candidatos à Governadoria ou Presidência da República, sobre qual a solução para os problemas aqui levantados – através da Educação. Com uma ressalva, não falo aqui de ideologização do ensino, nem tampouco de partidarismo. O que proporia seria o ensino de Cidadania – da Educação Básica à Superior – tendo como base os clássicos gregos: Retórica, Direito e Política sob uma ótica contemporânea, obviamente. Penso que, assim, com uma ou duas gerações veríamos a mudança esperada na Democracia e na sociedade.
Encerro, então, essa prosa com uma fala emblemática do Nobel português com a qual concordo, sem pestanejar – “A doença mortal das democracias é a renúncia do cidadão à participação.” Triste (e ainda persistente) realidade.