Sobre Fé e Racionalidade: o vácuo de percepção que separa o crer e o seguir

Sou um homem de pouca Fé, reconheço isso. E por muito tempo pensei o contrário, abastecido por um “notório saber” sobre o etéreo e o divino, que por várias vezes exortei, em outras tantas ensinei. O que não quer dizer que não houvesse religiosidade (ou mesmo sinceridade) naquilo que fazia. Porém, chega uma hora em que a vida lhe dá um soco no estômago tão bem dado, que você cai no chão de joelhos. E é nessa hora que você busca algo em que se agarrar… e não encontra.

Fé em grego é “pistis” com o sentido de acreditar – crer, já em latim o vocábulo correspondente é “fides” significando ser fiel – seguir. No entanto, o simples fato de vincular-se a uma denominação religiosa não lhe oferecerá a garantia de que sua edificação não sucumbirá, quando o tremor de terra teimar em jogar ao chão todo o prédio.

E isso ocorre porque há uma lacuna entre um e outro, que a razão não é capaz de mensurar. Talvez por isso doutos, clérigos e religiosos já tenham dado o testemunho de que não suportaram o tranco, sucumbindo à depressão, se entregando ao medo ou se revoltando com a doença. Então, você olha para o lado e vê aquela senhorinha humilde, vivendo na mais completa carestia de tudo que para você é importante (ou necessário), com um largo sorriso no rosto, bendizendo e agradecendo cada precioso minuto da “provação” que está passando.

Mas como isso é possível? Se eu que conheço as Leis, que sigo os Mandamentos, que cumpro com as minhas obrigações espirituais caio diante da primeira rasteira que a vida me dá? 

A justificativa para tal “despautério” é que separando o CRER e o SEGUIR existe um CONFIAR – uma experiência metafísica que vai muito além do conhecimento acumulado sobre o Sagrado e suas práticas, pois tem a ver com uma inocência d’alma própria dos puros de coração que, como uma criança, vivem o inesperado ou a tribulação sem questionar, sem racionalizar, apenas confiam – isso é a FÉ.

Portanto, no final das contas, ela é diferente de tudo aquilo que aprendemos a reconhecer como sinal de religiosidade – o rito, o letramento evangelista, a prática dos preceitos – essas são manifestações exteriores do credo professado, as quais podem realmente elevá-lo à condição de “Homem de Fé” diante do olhar mundano, isso até que a provação bata à sua porta, e o chão se abra sob seus pés.

Definitivamente, não sou esse Homem, pois a minha ainda é rasa como o fio d’água que se forma quando a chuva cai – que aumenta ou desaparece de acordo com o fluxo da intempérie, e hoje sou capaz de reconhecer isso. Contudo, para além dessa autocrítica necessária, a vida tem me levado a descobrir um sopro dessa confiança que sequer fazia ideia pudesse haver dentro de mim, até bem pouco tempo atrás. Oxalá, esse fio d’água possa tornar-se uma corredeira forte, caudalosa e constante.

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