Ainda no calor do Artigo da última semana, onde falei sobre Diversidade, decidi encarar de frente a polêmica que pode advir de dois temas que se cruzam, e “colocam fogo no parquinho” – a tão falada “Ideologia de Gênero”, que não por menos, é um dos fermentos do Movimento “Escola sem Partido”. Por método, tudo aquilo que teorizo e defendo (ou sobre o qual escrevo) é baseado em um estudo prévio. Mas e você? Sabe o que é essa tal Ideologia?
Ao contrário do que se pensa, a primeira referência oficial ao termo “Ideologia de Gênero” se deu em um documento da Igreja Católica, durante a Conferência Episcopal do Peru, em 1998. Para além de um discurso antimarxista, a questão posta referia-se à proteção da família – de modelo patriarcal, androcêntrico, heteronormativo, cisgênero e configurado por pai, mãe e filho(s) (um dos dogmas da Santa Sé), ameaçada por uma nova revolução feminista em curso, e pelo fortalecimento de grupos até então minoritários (como os LGBT à época).
Apropriando-se dessa terminologia, os movimentos de esquerda (fortalecidos pela reabertura democrática) o tomaram como bandeira do movimento feminista e de defesa dos direitos LGBT (legítimos e necessários por sinal, fazendo apenas uma ressalva – identidade é aquilo com o que você se identifica ou realiza, gênero é aquilo que você é: masculino ou feminino, ainda que forma e essência possam viver uma incompletude original).
Por conta disso, surge em 2004 o Movimento “Escola sem Partido” como uma resposta conservadora ao discurso esquerdista que “contaminava” o ambiente escolar. Em 2014, quando uma mudança no Plano Nacional de Educação propôs a inclusão da Educação Sexual, o combate às discriminações e a promoção da diversidade de gênero no documento, o movimento ganhou força, novamente, e a tal “Diversidade”, sobre a qual falamos semana passada, virou sinônimo dos movimentos LGBTQIA+ e Feminista.
Como se a Escola já não fosse a “casa mater” das diferenças, assim como a Democracia é o terreno fértil para a construção do diálogo, e do debate entre opostos. E que bom que assim o é, senão estaríamos vivendo em um regime Totalitário, onde todos “pensam” e “agem” da mesma forma, por força da Lei.
Então, penso que discursos extremados – à esquerda ou à direita – seriam esperados no modelo escolar no qual fui educado, ainda no século passado. Posto que hoje, o que se diz a respeito da localização geográfica daquele que ensina, é o centro da classe, já que ele não é mais o dono da verdade, e o lugar de fala agora é do aluno.
Nessa nova configuração, o professor é como se fosse o levantador em um time de vôlei, que coloca a bola na mão do atacante para que ele crave o ponto, em uma cortada fulminante. Brincando com as analogias, gosto de imaginar esse novo cenário de ensino como uma fogueira, onde cabe ao docente levar o lenho, o combustível e o fósforo para acendê-la – porém, toda fogueira pode virar braseiro, e se apagar, se não for cuidada e alimentada com lenho novo. E aos alunos cabe a função de manter as chamas, sob a orientação do professor, que hoje é também mediador. Por isso, não podem existir perguntas sem resposta em uma Escola, nem tampouco temas proibidos, desde que surjam de uma vontade (ou necessidade) do lenho fresco que queima no braseiro do saber.
O ambiente escolar, portanto, deve ser um espelho para a sociedade, e não o seu reflexo. Por isso é necessário (para que a Educação seja de fato transformadora) ater-se menos às Ideologias, e mais aos Princípios e Valores, tão esquecidos nesses tempos sombrios. E que fique claro, essa não é uma fala conservadora, outrossim, renovadora, assim espero.
Digo isso porque o Respeito (de todos o mais importante), a Liberdade, a Ética, a Justiça, a Verdade e a Integridade são princípios basilares de qualquer sociedade que se deseje desenvolvida. Da mesma forma que valores como empatia, solidariedade, honra, tolerância e responsabilidade a tornam menos rude e violenta. Mas isso é ensinado nas Redes de Ensino?
Certamente que não, por isso o que proponho é construir uma escola mais humana, e menos fabril, a qual se preocupa apenas com a produção em série de “fazedores de provas e de exames”, e que só servem aos interesses de gestores descompromissados, para rechear seus rankings desprovidos de realidade.
Rubem Alves já dizia que existem “Escolas que são Gaiolas, e Escolas que são Asas”. Eu, com certeza, fui educado na primeira, mas dela fugi na primeira oportunidade em que vi a portinhola aberta. Quanto à segunda, é nessa que acredito, sobre a qual escrevo e pela qual vou continuar lutando, ainda que seja uma luta solitária e vã, como Dom Quixote gladiando contra moinhos de vento, pois, acredito que a Escola deva ser não “Sem Partido”, mas “Sempre para Todos”!
Belo texto, Sérgio. Fruto de uma pesquisa prévia sobre a tal “escola sem partido”, a partir do artigo anterior acerca da “ideologia de gênero”, você traz à tona aspectos polêmicos dois dois temas. Exatamente pela polaridade extrema em que vivemos, temas como esses são considerados tabu, mas estão circulando pelas mentes e corações de pesquisadores, de professores, de gestores, de alunos, mas também de quem nunca estudou ou exerceu a profissão. Curioso como todos acham que podem opinar sobre educação. Elegeram a sala de aula como uma grande arena, tal como o futebol, e de repente todos são “entendidos” no assunto. Desconhecem Paulo Freire, por exemplo, quando escreveu que “educar é um ato político”. O homem é um ser político. Na escola, exercemos, como educadores, o direito político e democrático que nos respalda a lei. Ademais, ideologia, seja X, Y ou Z, todos nós trazemos/temos a nossa, dentro ou fora da escola. Em outras palavras, falando ou calando, estamos dialogando com as nossas e com as ideologias dos nossos interlocutores; ou seja, seja lá qual for a ideologia, ela está no discurso do ditador, do democrata, do esquerdista, do direitista, do centrão, do vereador, e, portanto, também do professor. Talvez nossa maior preocupação fosse a de nos atentar para as bocas que pedem a “Lei da Mordaça”. Será que querem calar uma boca pra abrir outra(s), mais conveniente à ideologia deles? Enfim, amigo Sérgio, se nossos discursos ideólogicos se somam ou se chocam, também é um direito que nos compete a democracia… Pelo menos enquanto ela existir.
Siga escrevendo e nos provocando a refletir sobre as ideologias e as utopias da educação.
Grande abraço!
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Meu amigo obrigado por suas considerações. Por uma Escola sempre para Todos!
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