Aos leitores apressados, aqueles que se detêm na capa do livro, pode fazer parecer que o Artigo dessa Semana irá tratar de “Escola sem Partido”, Gênero e coisas desse tipo. Mas não ainda, quem sabe, em outra oportunidade. Isso porque o motivo dessa prosa é mais grave, e premente – vamos falar dos esquecidos, dos invisíveis, que buscam o conhecimento nas salas de Educação de Jovens e Adultos – a EJA, espalhadas pelo país.
Para quem não sabe, só a partir da metade do século passado que os brasileiros sem letramento passaram a contar com essa possibilidade – primeiro com o Movimento Brasileiro de Alfabetização, o famoso MOBRAL, depois com o Ensino Supletivo, até chegar à Educação de Jovens e Adultos que hoje conhecemos. Para não ser duro (e dizer que não houve mudança durante esse período) temos hoje o Exame Nacional para Certificação de Jovens e Adultos – o ENCCEJA – que substitui todos os modelos anteriores, bastando ao educando ser aprovado em um “Exame”, para fazer jus à formação básica, ou do Ensino Médio.
Somente os que já viveram a experiência de lecionar para esses pobres brasileiros esquecidos, poderão entender o quão diversa são essas classes – e nada equânimes, isso porque desde a sua criação nos idos de 45 (ainda no século XX), que a Educação Brasileira não “descobriu” uma forma de atender esse público com dignidade e qualidade E aí, talvez, até faça sentido uma prova como o ENCCEJA para conferir uma Certificação, já que nas salas de aula muitos ficam pelo caminho, abandonando o sonho e o direito de estudar e aprender.
Quiçá isso ocorra por serem turmas multisseriadas na maioria das escolas (1º ao 5º, 6º e 7º, 8º e 9º anos), ou pela disparidade entre as expectativas dos alunos – adolescentes que não podem mais seguir no Regular (por conta da repetência), ou adultos trabalhadores exaustos (alguns na terceira idade) que lutam contra todas as adversidades para aprender a escrever um parágrafo, ou fazer uma Regra de Três simples.
A razão do abandono pode ser, ainda, a falta de estrutura escolar, de uma Metodologia de Ensino apropriada à sua realidade, ou mesmo de uma Formação Continuada que qualifique os poucos professores que têm a coragem de encarar esse desafio. Por isso, nada justifica o tratamento dado à EJA no Brasil – o Governo Federal finge que não sabe, Estados e Municípios fingem que ensinam.
O filósofo espanhol Fernando Savater afirma que ““A boa educação é cara, e quem mais necessita dela é sempre quem não pode acessá-la. São pessoas que não têm livros em casa, não têm acesso a oportunidades culturais. A educação é a arma contra a fatalidade social”. E são esses os alunos que buscam uma aula noturna, nas turmas da EJA, fugindo das fatalidades, e buscando as oportunidades que a vida não foi capaz de lhes oferecer. Portanto, quando você ouvir alguém falando sobre “Diversidade”, lembre-se dos herdeiros do MOBRAL, merecedores de respeito, e carentes de “Equidade” de condições.