Clarice Lispector já dizia que ”todas as noites no travesseiro vivemos de uma realidade quase intraduzível por palavras, mas que ninguém pode negar, realidade livre, sem freios e que nos pertence quase mais do que o dia a dia que vivemos. O dia a dia que se torna às vezes mais pobre que o sonho”.
Mês passado, quando a roda do tempo me aproximou do jubileu de ouro, me peguei pensando sobre os últimos 49 anos de uma vida singular – cheia de erros, mas também de acertos – por isso não pude tirar da cabeça essa incômoda pergunta, que acabou virando tema da semana. O que te inspira a continuar vivendo? O que te faz desejar seguir adiante?
Quando somos crianças o sonho e realidade ainda se misturam, por isso, se questionados sobre o futuro os pequenos têm sempre uma resposta na ponta da língua – ser bombeiro, médico, Homem-Aranha, astronauta, caminhoneiro e tudo que possa caber na imaginação de um infante. Nesse tempo-espaço mágico não há lugar para frustrações, tudo é possível.
No momento seguinte – a adolescência – o caos passa a reinar quando fazemos a mesma pergunta, isso porque a ebulição dos hormônios sufoca todo o empreendedorismo da primeira infância, e o – NÃO SEI PROFESSOR – é o lema dessa efervescente fase.
Então, chega a juventude onde as escolhas são compulsórias, e não mais relativas, e nessa hora tudo vira uma loteria, com inúmeras variantes – grupamento social, nível cultural da família e o mais importante (e difícil de acontecer) a tal da vocação, que quase nunca funciona como o esperado.
Depois disso a vida entra em um modo automático, e é como se DESEJOS e INSPIRAÇÃO fossem valores abolidos da vida adulta. Tudo vira rotina, necessidade ou ambição e, quando você menos espera, metade de um século se passou. Aí você se pergunta – então, o que vem depois? a aposentadoria? a velhice e a sepultura?
Clarice, lindamente, me lembrou que o sonho é sempre melhor que a vida real, e penso que esteja aí o pulo do gato, para não viver uma vida autômata e sem sentido – descobrir a cada despertar um novo motivo pelo qual valha a pena esforçar-se para tornar realidade. Sucesso ou fracasso? Não há o que garanta, mas o belo de olhar a vida com os olhos de uma criança, é que se um sonho não se realizou hoje, você pode dormir e encontrar um novo na manhã seguinte.
Quanto a mim, com o jubileu batendo à porta, posso garantir que já passei por todas as fases aqui descritas – com vitórias e desastres – em sua maioria desastres, mas já há algum tempo descobri uma inspiração para hoje, e para os próximos 50 anos – ESCREVINHAR TEXTÍCULOS. Se eu acredito em sucesso de crítica e público com isso? Claro que não. Mas como no mundo dos devaneios tudo é possível, prefiro passar os próximos anos sonhando e escrevendo uma nova história a cada dia.
Lindo texto! Bela reflexão! Saber o que nos inspira a acordar todos os dias? Realmente são os sonhos, o constante aprendizado, a vontade de fazer algo para deixar alguém feliz e por aí vai.
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Deixar um mundo melhor…
Para meus filhos/netos/bisnetos.
Creio num futuro de maior paz e harmonia entre todas as raças e povos da Terra como prescrito por Bahá’u’lláh, e assim será!
Desenvolvo também, como Bahá’í, trabalho neste sentido…
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