A difícil, e imprescindível, arte de ensinar a voar

“Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim “affetare”, quer dizer “ir atrás”. É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.” Assim já dizia meu Mestre Rubem Alves, falando mais uma vez sobre a Educação e suas singularidades. Mas a questão hoje aqui posta é:  por que se dedicar a esse tão “penoso”, e poucas vezes reconhecido, ofício de ensinar a voar?

Não posso falar por outrem, por isso o artigo dessa semana será totalmente intimista e espero que, assim, desperte em tantos colegas com quem dividi salas, senão uma inspiração, uma reflexão necessária sobre o exercício do magistério.

Se eu dissesse que fiz a opção do meu curso de graduação baseado em um ímpeto vocacional estaria sendo grandemente mentiroso – como muitos da minha geração (e classe social) naquela época a Licenciatura (no turno noturno) era a opção viável para quem não era filho de Doutos e abastados. Por isso, prestei vestibular para Letras achando que seria professor de Língua Inglesa. Vã ingenuidade da juventude rsrs … nossas escolhas nos levam a caminhos, que nem o maior dos exploradores seria capaz de precisar com exatidão.

Como dizia meu saudoso amigo João Carlos Gonzaga – o Jornalista João Vermelho – “a vida é uma roda gigante”, por isso comecei minha história docente no Magistério Superior em salas de faculdades realizado com o exercício da função, e com uma boa remuneração. É fato que das aulas nunca me afastei, mas, em dado momento, me vi lecionando na Educação Básica, em escolas do interior, com todas as adversidades possíveis (e imagináveis) para quem já vivenciou essa situação – e foi justamente nesse chão de escola que entendi o significado da palavra “Professorar”, e que ele vai muito além de cumprir conteúdo programático e ementas.

Depois disso, por um acaso do destino (Será?), não me afastei mais dessa experiência sensorial, desse teste de resignação e fé, que é trabalhar em escolas públicas, e foi justamente por conta dessa oportunidade que a vida me ofereceu, que eu entendi qual o meu papel em uma sala-de-aula, e qual a minha função na construção da tão desejada “Justiça Social para Todos” – ensinar aos meus alunos que é possível, e necessário, sonhar – antes disso, fazê-los acreditar que seus sonhos podem se tornar realidade.

Respondendo à questão posta no início desse textículo, em forma de artigo: por que se dedicar a esse tão “penoso” ofício? De maneira assertiva, e com base em fatos concretos, posso afirmar que dia desses, como já aconteceu inúmeras outras vezes (sou humano e falível) encarei uma turma tomado de torpor, cansaço, ansiedade e angústia por conta das vicissitudes que a vida nos impõe, mas, bastou começar a aula para que todo o mal estar e desconforto ficasse para trás. Por isso, ouso afirmar sem medo de cometer mal juízo, que esse é o verdadeiro sentido da profissão que escolhi. Como diria minha eterna professora Cora Coralina, o professor é “feliz por que transfere o que sabe aos seus alunos, mas, ao mesmo tempo, aprende com aquilo que ele ensina” – ensinar a voar, e a acreditar nos próprios sonhos. É por isso, e a favor disso, que devemos trabalhar sempre.

Deixe um comentário