Hoje acordei com um gosto amargo na boca – daqueles que só sente quem abusa na véspera da quantidade (e qualidade) do Whisky, de procedência duvidosa. E o pior é que essa sensação vem se repetindo a cada manhã, a cada semana, já há alguns meses.
Logo cedo o fígado e a cabeça me cobram pelas escolhas (des) acertadas que fiz, pois, cumprindo meu ritual de atualização sobre os fatos do dia nos “Brasis”, levo um soco na boca do estômago ao ver que o Ministério da Educação está em franco processo de desmonte – aliás MEC para quê, não é mesmo? Se já até falaram em extinguir essa pasta por sua inoperância e ineficiência?! Então, realmente o processo em curso está dentro do previsto.
Em outra página, descubro que mais uma escola interrompeu suas atividades presenciais após um surto de Covid-19. Mas isso também não é um problema, já que nunca se morreu tão pouco dessa doença no país (isso li em outra notícia). E, além do mais, o importante é que as crianças voltaram à sua rotina pré-Pandemia: escola, recreio, quadro negro e livro didático, sem esquecer, logicamente, das tarefas de fixação para fazer em casa, já que a “Escola ensina, mas é a família que educa”. Assim já dizia o senso comum.
Hoje acordei com um gosto amargo na boca, ao reconhecer que fui um tolo por acreditar que a Educação no Brasil seria levada a sério, e por não aceitar que ela é nada mais do que despesa pública para o Estado, e nada menos do que lucro para as instituições privadas.
Por ter sido tão ingênuo ao defender, por tantas vezes, que o MEC seria realmente um Ministério essencial à nação, devido às suas funções de Coordenação, Distribuição e Avaliação muito importantes dentro do Sistema Educacional, além de cuidar, é claro do Ensino Superior. Fazendo uma analogia futebolística, o MEC não deveria ser o dono da bola, mas sim o árbitro que garantiria a legitimidade e a legalidade do jogo.
Me iludi sim (e como) ao acreditar que os atores envolvidos no processo decisório da Educação Brasileira – Gestores, Governantes e Pesquisadores – que durante os dois últimos anos não se furtaram à tarefa de falar sobre os “prejuízos” que o Ensino Remoto trouxe para as crianças e jovens em todo o mundo (mas em especial no Brasil) iriam agora, no processo de retomada, apresentar um diagnóstico e um prognóstico para essa situação.
Lembrando que essa deveria ter sido uma análise acadêmica (e não empírica) baseada em dados previamente tabulados onde, a partir de um referencial teórico, seria possível comparar um cenário de Pandemia com o outro sem a Pandemia e, a partir daí, extrair-se uma avaliação do impacto que esse período causou na vida dos estudantes – tanto nas questões de aprendizagem, quanto nas outras questões, como as sóciocognitivas, por exemplo.
Mas, a realidade dos fatos é que isso não aconteceu, nem tampouco a retomada está vindo acompanhada de alguma mudança pragmática nos processos de ensino, ao contrário, o que tenho visto é uma “Operação-Padrão” para que se volte, o quanto antes, ao mais do mesmo nas salas-de-aula – “voltemos todos para nossas caixinhas”. E o mais inacreditável disso tudo é que poderiam existir duas variáveis a serem discutidas – as ditas “Perdas” e os possíveis “Ganhos” durante o período, mas, ao que parece, a herança que a Covid-19 deixou para a Educação é somente maldita, portando deve ser defenestrada o quanto antes.
Hoje acordei com um gosto amargo na boca, por ter que assumir que sou um “Estrangeiro na minha própria Terra”, um idealista desesperançado, um louco dentre os sãos, um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, isso por que a Educação, que tantas vezes defendi, hoje não passa de “Ensinagem”, de uma “Educação Bancária”, como bem sinalizou Paulo Freire. Que, realmente, a aula não ensina, nem tampouco prova avalia, como vaticinou José Pacheco e por isso o estado de coisas que aí está posto, teima em não mudar.
Se, porventura, fosse eu um Doutor Bacamarte, já teria soltado das celas os loucos, e prendido os sãos que hoje governam os caminhos da educação brasileira. Digo até que tentei fazer isso, alimentado pelo meu Ego inflado, achando que Retórica e Sagacidade seriam bastantes para cooptar outros e formar um bando, e assim colocar em prática meu plano santo. Mais um soco na boca do estômago, pois, em “Verdade vos digo”, as pessoas ainda não cultivaram o bom hábito de ler o que os outros escrevem (em sua maioria, obviamente, acenam apenas com um Like) e, assim, meu estratagema midiático naufragou. Bem me lembrou, um dia, um sábio amigo – Educação não é uma pauta viável, nem tampouco que desperte interesse dentre aqueles que podem fazer por ela, nosso (des) ilustrado meio político.
Hoje vou dormir com um gosto amargo na boca, com uma interminável ressaca moral, por finalmente entender que sou um louco letrado e idealista, que não tem superpoderes para mudar o mundo e, amanhã, quem sabe, quando eu acordar, esteja em Pasárgada, pois, lá sou Amigo do Rei, e aí descubra que tudo não passou de um sonho ruim, de um pesadelo, e as coisas na Educação não são tão ruins quanto achei que poderiam ser/parecer.