Aproveitando o feriado do 7 de Setembro, retornei à Prosperidade depois de alguns meses afastado (onde aproveitei o período de Home Office para fazer cursos à distância) e fui surpreendido com a notícia de que meu grande amigo, Professor Pandolfo, se convalescia após ter sido mais uma vítima da Covid-19. Sim, a Câojuntivita, como já dizia o velho Lazin, chegou à Prosperidade e acometeu esse mestre muito querido.
Chegando à sua casa, após as costumeiras saudações, meu letrado amigo tratou de me tranquilizar a respeito de seu estado de saúde, reconfortando-me que o mal havia sido menor, graças às duas doses da vacina que havia tomado, mas que não evitaram o contágio graças às comorbidades preexistentes, agravadas pela idade já avançada. E “Viva o SUS”, bem lembrou o dileto gramático.
Já menos apreensivo, enquanto saboreávamos um bom café preto, passado no coador de pano, nossa prosa descambou para a Política e as atualizações da localidade. Em razão da data, o 7 de Setembro foi prontamente lembrado, enquanto tecia minhas lamúrias por não assistir pelo segundo ano seguido ao desfile cívico-militar (uma das marcas da minha infância, quando acompanhava, junto com o meu pai, o marchar das tropas, embaladas pelos dobrados das bandas marciais). De pronto, o “sabioso” ancião tratou de me consolar relatando mais um daqueles causos, que só em Prosperidade poderiam ter acontecido, começando assim:
– Essa história remonta ao tempo de meus avós, quando Prosperidade era ainda menor do que é hoje, e possuía, além do Prefeito, apenas um destacamento com quatro soldados. Nem Padre por aqui havia, por isso quem cuidava dos assuntos do Vaticano era Irmã Mercedes, uma bondosa Carmelita que batizava e realizava as exéquias no povoado. Quando havia casamento ou festa da Padroeira, a Cúria mandava um Padre da Capital só para esse fim.
Nessa época o Coronelato ainda era o Juiz e Algoz na cidade, que se dividia entre o domínio das famílias Fortunato e Modesto. A primeira de raízes nos tempos sombrios da escravidão, com muitas mortes e desalento em suas costas. A outra, abolicionista de primeira hora, sempre fora mais Liberal e de há muito comandava a política, elegendo os mandatários da pequena cidade, dentre os seus.
Por conta das desavenças seculares, houveram perdas tanto de um lado, quanto de outro, desferidas na ponta da faca, ou no fogo do chumbo, e assim, Ferdinando Fortunato, o patriarca da família àquela época, não aceitava o prestigio que João Modesto, médico muito humano, reconhecido por todos, e Prefeito da cidade, tinha entre os municípes – dos fazendeiros à peãozada todos o respeitavam e admiravam.
Embevecido pela inveja, e entorpecido pela cobiça e desejo de Poder, o tresloucado Fortunato tramou junto aos seus um ardil para tomar a cidade das mãos dos Modesto, transformando-a em um estado independente – da Capital e até da República – sob a égide de sua família, tendo como nome a “República do Queijo Qualho”, em uma referência ao lácteo produzido nas terras da família, de fama nacionalmente reconhecida.
Tramóia feita, faltava definir o dia para que a empreitada fosse levada a cabo, e qual melhor não seria que o 7 de Setembro, simbolizando um novo tempo para Prosperidade? Na véspera das comemorações cívicas, ainda pela madrugada, os Fortunato pegaram a jagunçada, e todos os colonos das fazendas, convencidos na base do salame e do couro, e ocuparam a Praça de Nossa Senhora do Rosário, transformando o adro da Igreja em verdadeiro campo de guerra.
Quando a cidade acordou, todos foram pegos de surpresa pela novidade, e só restou ao Prefeito e seu diminuto pelotão de soldados, acompanharem de longe a movimentação e preparação do Coreto da Praça, transformado em palanque para o discurso de posse do novo mandatário da recém-criada “República do Queijo Qualho”.
Ao som de tiros e estampidos de foguetes, a cidade viu adentrar o largo um Ferdinando Fortunato montado em um alazão, com chapéu e espada em riste, e uma cara Napoleônica, dando a entender à toda cidade que quem ali estava era o novo Regente da Nova República, recém-criada.
Ao assumir a posição de destaque no Coreto, desandou a discursar falando das qualidades e do compromisso dos Fortunato com a Ordem, o Desenvolvimento, a Honestidade e os valores da Família, ao contrário dos traidores da pátria, os Modesto, que tinham ex-padres em sua estirpe, que largaram a batina para contrair matrimônio, mulheres descasadas que passaram a viver sem marido, além de um sem número de denúncias de mau uso do erário público. Só faltou chamar de Santo, da primeira à ultima geração da família rival.
Em meio a estoica fala do Napoleão Tupiniquim, eis que entra esfolegante Praça adentro, Tião Gavião, o faz tudo da família que mal desceu do cavalo e foi atropelando os convivas para se aproximar do Coronel, enquanto lhe confidenciava ao ouvido uma mensagem secreta e reveladora.
De rubro de emoção, o agora assustado Presidente e Regente Real da República do Queijo Qualho, fora ficando lívido e empalidecido e a empáfia, de minutos antes, fora substituída por uma fala mascada que, de maneira cerimoniosa, pedia desculpas ao Prefeito João Modesto e a todos os munícipes ali presentes, destacando que tudo não passara de um mal entendido, e que as palavras desonrosas ali proferidas, foram colocadas no “calor do momento”.
Tão rápido quanto chegou, o entontecido coronel e sua trupe foram-se embora sem deixar nem rastro, nem poeira, e assim a cidade de Prosperidade pode finalmente comemorar, com a pompa e circunstância devidas, o Dia da Pátria com direito a desfile do destacamento militar, das crianças da escola até culminar com o Ato Cívico de hasteamento da Bandeira Nacional.
Intrigado com mais uma narrativa fantástica de Prosperidade, não pude me conter sem perguntar se, por acaso, alguém descobriu o que Tião Gavião havia dito de tão revelador que fez o Coronel Fortunato passar de Leão Feroz, a gatinho assustado em tão pouco tempo.
– Meu caro e jovem amigo, respondeu o esperto Professor. Desde que o mundo é mundo, existe uma força maior até do que a da Política, que decide o destino e as ações de figuras carentes de retidão e probidez, como os Fortunato, que é o poder do Dinheiro.
Na véspera do ato de tomada do Largo intentado pelo desatinado Coronel, os outros Fazendeiros da região, em conluio, decidiram que não seria conveniente para os negócios de suas famílias o rompimento com a Capital e a República, e assim mandaram através de Tião Gavião a seguinte mensagem ao Ex-Regente Real “se você seguir com a sua empreitada, sua Fazenda não terá mais para quem vender seu Queijo Qualho. Então, o que prefere? Manter uma “Coroa” sobre a cabeça, ou ver suas “Coroas” escorrerem entre seus dedos?
Obviamente que para a posteridade a versão que ficou guardada é a de que tudo não passou de uma “estratégia” tecida pelo sagaz Coronel, mas a verdade é que o apego ao vil metal, falou mais alto do que seus ataviados e lisérgicos sonhos de poder e dominação política.
Ainda boquiaberto com toda a narrativa terminei o café, me despedi do Professor Pandolfo e tomei o caminho de volta para minha casa, mais uma vez estarrecido com a prodigalidade das histórias de Prosperidade.
Professor Sérgio Soares