Entre o “Olhar” e o “Ver”

Enxergando além da “menina dos olhos”

Ao iniciar mais um textículo, posso afirmar que essa foi uma semana reveladora – primeiro porque penso ter vivido uma experiência transcendental, quase mística, ocasionada por uma troca de olhares – não amorosos, nem tampouco afetivos, mas carregados de subjetividades. Ao mesmo tempo, ouvindo a Live de um amigo, onde ele falava sobre o quão aguçados ficaram os nossos sentidos da visão e da audição por conta da restrição sensorial que as máscaras anti-Covid nos levaram a descobrir tentei, mas não resisti ao comichão de escrever sobre a menina dos olhos, janela de entrada de nossa alma, e entender o que, de fato, se passou comigo. Mas para fazer isso resolvi recorrer a frases feitas, do palavrório populesco, outras de elevada estirpe, para demonstrar (ainda que em parte), o quão profundo e revelador pode ser um simples ato de olhar.

Aquilo que os olhos não veem

o coração não sente”

Não é isso mesmo? Vã filosofia,.pois em tempos de relativização dos sentidos, onde não é mais necessário ver (como Tomé o fez) para se.convencer da realidade que a vida (transformada em um instantâneo de Redes Sociais) grita a altos brados, fica difícil não sentir a dor do amor perdido ou mesmo da amizade traída. Portanto, dói sim, da mesma forma, ou até com mais intensidade, pois passa a ser uma dor sentida em tempo real, e compartilhada por seus infinitos seguidores (ou per-seguidores).

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.”

Em tempos de escolha de novos Gestores Municipais, Machiavel nos brinda com essa afirmação. Mas para alcançar a amplitude de seu significado é preciso enxergar além da narrativa ideológica, já que nem sempre uma bandeira partidária representa o verdadeiro compromisso com a (res)publica, a coisa pública, nem tampouco pressupõe a competência para conduzi-la. Por isso olhar em volta é tão importante, como dizia José Saramago “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

As palavras estão cheias de falsidade ou de arte; o olhar é a linguagem do coração”. (Willian Shakespeare)

Ser ou não ser, eis a questão já bem dizia o pai de Otelo. Em tempos de distanciamento social, e relações cada vez mais superficiais, saber diferenciar a parceria e a camaradagem da dissimulação (olhos de Capitu) e do proveito próprio se tornou um verdadeiro tratado de Semiologia, cada vez mais complexo onde a análise discursiva envereda por um sem número de enunciados, que como diria a rainha dos solilóquios Clarice Lispector “Quantas coisas cabem em um olhar! É tão expressivo, é como falar.”

“Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação.” (Provérbio Árabe)

Aqui está a síntese da diferença entre o olhar e o ver (enxergar). Para quem não consegue entender o óbvio e ululante, posto diante de si em letras garrafais, não adianta escrever um textão, pois esse é um tipo de analfabetismo funcional que nem a práxis pedagógica mais inovadora dará conta de solucionar. O olhar está no raso, o enxergar pressupõe que o interlocutor-narrador-personagem se arrisque nas águas profundas. Já bem define Henry Miller “O destino de alguém não é nunca um lugar, mas uma nova forma de olhar as coisas.”

“Às vezes, o que precisamos está tão próximo… Passamos, olhamos, mas não enxergamos. Não basta apenas olhar. É preciso saber olhar com os olhos, enxergar com a alma e apreciar com o coração. O primeiro passo para existir é imaginar. O segundo é nunca se esquecer de que querer fazer é poder fazer, basta acreditar.” (Pedro Bial)

Com uma quase totalidade de certeza posso dizer que a experiência que vivi com a troca de olhares não teve nada de transcendental, nem tampouco de mística, bem como o que me tocou na Live do amigo que falava sobre máscaras e olhares não foi somente o lado poético da narrativa, ao contrário, tanto em um caso quanto em outro o sentimento foi outro – o de Acreditar – na alma escondida dentro do olhar, no artista por trás do narrador com a certeza, como disse Bial, de que  “querer fazer é poder fazer, basta acreditar”.

Professor Sérgio Soares

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