Doutor Jota Brasilino: a história do homem que copiava

Entrei na venda do Geraldo para pegar uns mantimentos e, enquanto esperava o vendeiro separar as encomendas, assisti na TV a notícia sobre uma denúncia de plágio em material entregue aos alunos de uma Rede de Ensino que, por conta da pandemia, foram obrigados a acompanhar as aulas através de apostilas e aulas dadas pela TV.

Fiquei chocado e revoltado com a matéria e, não me contendo, soltei um sonoro palavrão que causou risada no Geraldo e nos frequentadores que estavam na venda, chamando até a atenção do Professor Pandolfo que, sentado numa mesa ao fundo, me convidou para sentar com ele.

Vendo minha indignação com o ocorrido, o bom e velho Professor decidiu me contar que mesmo Prosperidade, sendo uma pequena cidade do interior, já tinha sofrido com uma situação parecida com a relatada na notícia.

Tudo começou quando chegou à cidade, vindo da capital, um tal Doutor Jota Brasilino, “Especialista” encaminhado pelo Governo Central para remodelar o material pedagógico utilizado pela Rede Municipal de Ensino. O forasteiro chegou ostentando um currículo que, além de extenso, era recheado de títulos e honrarias que bastaram para convencer do Prefeito às Diretoras das Escolas a aceitar, como verdade absoluta, tudo que o “especialista” dizia, por isso não tardou para que todos os cadernos pedagógicos da cidade estivessem atualizados, com as obras assinadas pelo ilustre Doutor.

Tudo ia bem até que uma sabida professora da cidade, Dona Fatinha, percebeu algo de errado no material oferecido aos alunos. Em um dos cadernos havia uma citação, que chamou a atenção da professorinha. Na abertura de um dos conteúdos estava assim grafado “Feliz aquele que transfere o que sabe, e aprende o que ensina”, Jota Brasilino. Dona Fatinha sabia que já tinha visto aquela frase em algum lugar e, pesquisando nos livros, descobriu que era uma citação famosa de uma outra professorinha, chamada Cora Coralina.

Em seguida àquela descoberta vieram outras, e mais outras e mais outras, e foi assim que a cidade inteira descobriu que o tal Doutor era, na verdade, um copiador contumaz que tinha por mau hábito se apropriar das ideias e escritos de outros, divulgando-os como se dele os fossem. Pesquisando a biografia do larápio, descobriram também que aquele imenso e recheado currículo, da graduação ao doutoramento, era fruto de roubo de direitos autorais alheios. O espertalhão saiu corrido de Prosperidade, para nunca mais voltar.

 Enquanto Geraldo terminava de ensacar minhas compras, Professor Pandolfo encerrou nossa conversa lembrando que apropriar-se de ideias alheias é uma das mais abjetas formas de roubo, pois, significa tomar do outro um bem tão valioso, quanto subjetivo, que é a inspiração e a transpiração, resultado do esforço para produzir algo original.

Ainda surpreso e desconcertado com a aula de ética e respeito que recebi do sábio Professor, peguei minhas encomendas, me despedi e segui o meu caminho.

Tempos estranhos esses que estamos vivendo, de relativização de princípios. Se outrora o Brasil foi conhecido como a “terra do jeitinho” onde se acochambrar era a regra, e dessa prática infame nasceu a corrupção que contamina todo o país, ouso dizer que hoje vivemos na terra do “Meio certo e Meio errado”, em uma demonstração tácita da relativização da Verdade, infelizmente. Por isso, situação como a relatada na ficção acima não é exceção à regra, mas a própria regra, que se confunde com o cotidiano do cidadão comum, mas também com a vida pública e a política em nosso país.

Em Brasília são 8 horas da manhã. Em meio a uma Pandemia de escala mundial, o Brasil é sacudido, mais uma vez, pelas declarações do Presidente que, para assegurar sua “Governabilidade”, decidiu fazer acordos e lotear cargos em Ministérios; ocorre que, há pouco mais de um ano atrás, a narrativa era outra, a meta era acabar com essa prática de escambo em troca de apoio, que tanto mal fez a democracia e ao país.

Ao mesmo tempo, o Senhor Presidente declara guerra à imprensa que, segundo ele, se serve do direito à liberdade de expressão, para deferir ataques mentirosos ao seu governo e familiares; por outro lado, se irrita quando seu grupo de apoiadores é acusado de produzir Fake News e atacar as instituições, justificando o delito por eles cometido, com o mesmo direito à liberdade de expressão que ele tanto critica.

Temos então duas demonstrações claras de “Meio certo e Meio errado”, onde a relativização da política brasileira acaba por produzir efeitos nefastos para toda a sociedade, que passa a entender como válido esse discurso de conveniência “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, ou seja, desde que não se mate, ou fira gravemente a integridade do outro, tá valendo!

Isso se torna mais sério quando esse desvio de comportamento atinge a Educação, por exemplo, quando um professor deixa de olhar objetivamente seus alunos, e passa a adotar critérios subjetivos de avaliação dos mesmos; da mesma forma quando um aluno tenta fraudar uma prova ou trabalho, copiando da internet, e assinando como se dele o fosse, tudo fica balizado pelo critério do “menor dano”, ou seja, ninguém sabe, ninguém viu, que mal tem?

Recentemente ocorreu um caso aqui em Minas (parecido com o do Doutor Brasilino), onde dentro do Regime de Aprendizagem Remota implantado no estado (durante o isolamento social), as apostilas entregues aos alunos para o acompanhamento das atividades foram fruto de plágio, ou seja, um material chancelado com a marca do Governo Estadual foi construído a partir do uso de fontes bibliográficas (e de conteúdo), sem o devido respeito ao crédito autoral.

Como se isso já não fosse pouca coisa, me chamou mais a atenção a fala de um apoiador desse modelo adotado pela Secretaria de Educação (durante uma troca de mensagens em uma Rede Social), que confirma aquilo que comentava a pouco sobre o Presidente, sobre professores e sobre alunos – a flexibilização do certo e do errado. Preservando a identidade do meu interlocutor, destaco abaixo um dos trechos dessa conversa: “Falhas acontecem, falta de referências não podem ser considerado plágio”/ “Acho que não existe má fé e nenhum delito foi cometido”/” Precisávamos de uma solução para os alunos e considero que o que foi feita em Minas foi uma das melhores”. Como já havia dito anteriormente, “não matou, não feriu gravemente”, tá valendo não é mesmo?

Só que nesse caso a história é bem outra, pois existe um agravante legal – um crime foi cometido – e cabe ao Estado apurar as responsabilidades e propor as Sanções Administrativas (Processo Administrativo Disciplinar para os servidores efetivos e exoneração dos comissionados envolvidos nesse delito) e Cíveis, se for o caso. Qualquer coisa diferente disso é agir contra a Lei e pior, é passar uma mensagem de que a Educação em Minas não é construída em cima de valores éticos e legais, mas sim com base na fraude e na omissão da Verdade.

Tenho a certeza (ou a esperança) de que a Justiça será feita, e que a lenha colocada no braseiro desse forno servirá apenas para assar uma gostosa broa de queijo, a ser saboreada com um bom café preto. Há que se mostrar, para que todos vejam e saibam, que na Educação Mineira não existe espaço para “Meio certo e Meio errado”, por isso os erros e desvios cometidos não podem acabar em uma pizza grande, e de borda grossa o bastante para encobrir os envolvidos! É o que eu espero!

Professor Sérgio Soares

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