(Narrativa baseada em um encontro ficcional, que poderia ter sido real ou, quem sabe, será?)
Boa tarde Senhor Governador, que bom que o Senhor aceitou meu convite para um café, abrindo um espaço em sua agenda, que sei está tomada de compromissos, em especial nesse momento que o estado vive, de enfrentamento dessa Pandemia. Aliás, apesar do convite ter sido para falar de Educação, não posso deixar de parabenizá-lo pelo trabalho da Saúde e por sua postura diante da crise, abrindo mão do debate político de 2022, para pensar no seu povo e no seu estado.
Bom mas o convite foi para um café, por isso. – Moça, por favor, dois cafés pretos e quatro pães de queijo. Obrigado!
Então Governador – enquanto o café não chega – o Senhor não deve saber mas tentei falar-lhe em Novembro do ano passado, até enviei uma carta, mas imagino que o mensageiro encarregado de levá-la até o Senhor deve tê-la perdido no caminho, ou mesmo o Senhor não a leu, porque certamente devem ser milhares de correspondências, mas isso não vem mais ao caso. Ah, o café chegou.
Bom prometo ser objetivo e o Senhor pode ficar bem a vontade, saboreando seu café e seus pães de queijo, enquanto me ouve, pois o assunto da nossa prosa é Educação e o Senhor já externou, por mais de uma vez, que preza demais esse tema, até por questões familiares, não é mesmo? Suas Tias eram professoras, estou correto?
Sou um escrevedor e tenho um Blog, chamado Articulância, onde deposito as minhas ideias sobre Política e Educação, quando quiser me dar a honra de visitá-lo ficarei muito feliz, mas, voltando ao assunto, além de escrevedor sou professor, e um lutador pela Educação desse nosso estado Diamante, meu Governador. Por isso insisti, teimei, briguei até conseguir marcar esse encontro.
Assim, sendo um mineiro teimoso, mas também muito observador, que desde o início de sua Gestão vem anotando, e matutando sobre as coisas da Educação daqui de Minas, que tenho que dizer para o Senhor – ainda que não tenha dúvida de que foram bem intencionadas – que as ações apresentadas até agora para a solução dos problemas de Ensino aqui em Minas, são rasas de assertividade, e poucas de conexão com a realidade. Desculpe-me a sinceridade, mas não poderia faltar com a clareza dos fatos, diante do Senhor.
O café está bom? Quer mais um pão de queijo?
Por que eu digo que são rasas de assertividade? Sabe meu Governador para cuidar da Educação de um estado como o nosso não basta apenas uma boa formação acadêmica, ou um bom currículo, é necessária uma boa dose de experiência de gestão, e outra dose de vivência política. Juntando as duas, meu Governador, você passa a ter a dose bem medida para cuidar dessa pasta e construir um Projeto Educacional eficiente e eficaz, que possa dar conta dos problemas educacionais de Minas.
E por que falta conexão com a realidade, o Senhor deve estar se perguntando. Simples. A Educação que lhe foi apresentada, as escolas que o Senhor visitou e foram divulgadas, não representam nem um 3X4 da nossa realidade, quiçá um retrato da Educação em Minas. E sabe o porquê disso Governador? Por que só poderia lhe mostrar com fidedignidade o que são as escolas e seus problemas, quem tivesse vivido e convivido nesse ambiente: nas escolas co-habitadas, nas escolas de interior, nas escolas “improvisadas”em galpões e contêineres. Se por lá o Senhor tivesse andado, certamente sua visão seria outra.
– Moça me traz mais um café, e dois pedaços de broa de queijo?
Sabe Governador, vejo muito o Senhor falar em indicadores, em números, e eu adoro indicadores, principalmente por que sei que detrás de cada um deles existe uma história que precisa ser contada, para que eles façam sentido, e se tornem verdadeiros. O Senhor veja, o tal do IDEB – um indicador que hoje é usado para quase tudo, mas que se não conhecida a história desses alunos, seu aproveitamento em sala-de-aula, se houve distorção idade-série ou não, como foi a evasão escolar e, o mais importante, como foi a taxa de aprovação desses meninos e meninas, esse indicador vale tanto quanto uma cédula de R$15,00.
– O Senhor quer mais um pedaço de broa?
O Senhor está entendendo agora? Educação não é só uma questão de saber, mas principalmente de saber fazer, escolhas inclusive, por que são a partir delas que os resultados projetados lá no início, no nosso caso que não houve, vão se tornar realidade meu Governador (ou não, se a escolha feita foi a errada). Mas o bom da Política é que a qualquer tempo a gente pode mudar tudo, e recomeçar fazendo novas escolhas.
O Senhor veja, está para começar o Programa de Ensino Não-Presencial no estado, para nossos alunos, por conta do distanciamento social. Eu se fosse o Senhor olhava isso com mais cuidado, já existem repercussões negativas no Brasil todo a respeito desse modelo de suplementação de aulas, e a proposta até então apresentada pela Secretaria de Educação vai de encontro a tudo que tem sido questionado por pais, entidades, professores e Sindicatos junto ao Ministério Público.
Aliás, sobre professores, ontem ouvi o Senhor falando para uma entrevistadora que lhe parece que na Educação todos vestem vermelho, e estão contra o seu mandato. Posso lhe afirmar com 100% de certeza que temos vermelhos sim, mas temos laranjas, azuis, amarelos e tantas cores quantas forem as linhas ideológicas. E não meu Governador, não é verdade que todos estejam contra o Senhor ou sua Gestão.
O que eu acho que ocorra, nesse caso, é uma contaminação do discurso, tanto de um lado quanto de outro. Por parte dos servidores existirá sim uma corrente, a que perdeu a eleição, que vai sempre inflar a categoria com uma fala belicosa, buscando em cada Ato do Governo um motivo para levantar a polêmica entre os pares, usando para tal um cardápio de reivindicações, muitas vezes justas, outras não, mas que para serem exequíveis precisam de um ambiente fiscal e econômico do estado saudáveis, o que não vai acontecer por agora certamente.
Por outro lado, a voz do Governo nem sempre é apaziguadora, ao contrário. Nas últimas manifestações antes da Covid-19, quando se discutia o reajuste salarial das categorias do funcionalismo, vi por várias vezes a voz do Governo tratar a Educação como os “demais”. E isso, além de deselegante, só faz estimular a dissensão entre os servidores que já se sentem desrespeitados, e aqui abro um parênteses, meu Governador.
– Mais dois cafés por favor!
Não concordo e nem vou fazer aqui o discurso de vitimização dos servidores públicos estaduais, dentro dessa categoria existem servidores de muito valor, dedicados, mas também servidores cansados, desestimulados, que realmente não contribuem em nada para a qualidade do serviço prestado, a sorte é que esses são bem poucos. Mas de toda forma existe um problema de RH, comum aos dois.
O estado, enquanto Gestor, esqueceu-se que capacitação e atualização são tarefas primordiais para a eficiência do serviço público, e isso não é um problema da sua Gestão, já vem de tempos, e para não ser leviano, vou falar apenas da Educação.
Das três esferas – a Federal, onde hoje estou funcionário público, a Estadual, onde já atuei como Professor da Rede e a esfera Municipal, onde já lecionei e fui Diretor Municipal de Educação, a que menos investe na capacitação de seus servidores é a Estadual, e o reflexo disso pode-se perceber agora com o problema das aulas não-presenciais, onde os professores sentiram-se despreparados e desorientados sobre qual a melhor forma de agir, nesse novo ambiente.
E essa questão de capacitação é deficitária não só entre os docentes, mas entre os demais servidores também, o que acabou levando a uma acomodação entre a categoria que por isso é duramente criticada por setores de governo e grupos políticos que, miopemente, acham que os cansados e incompetentes são a maioria, o que não é verdade.
Sei que seu tempo é curto, o Senhor quer mais alguma coisa? Já estou acabando.
Junte- se a isso, meu Governador, por diversas vezes vi o Senhor falando sobre faixas salariais de servidores públicos que não se aplicam à Educação, e acho que nem tampouco à Saúde e Segurança. Ao contrário salários na faixa de R$20.000,00 são próprios de carreiras de estado, muito específicas, e que não representam nem de longe a realidade da maioria do funcionalismo. E esse tipo de discurso só serve para alimentar a tensão existente dentro de uma categoria que sofre com o parcelamento de seus salários há 4 anos, e hoje, com a crise financeira do estado, sem reposição de perdas e implementação do Piso do Magistério, ainda sente-se desprestigiada diante da diferença de tratamento entre categorias do mesmo funcionalismo.
Quanto a esse ponto, me perdoe a impertinência, prometi que íamos falar apenas sobre Educação, mas não posso me conter. Meu Governador, além de escrevedor e de Professor, também fui Assessor Político, e uma de minhas maiores preocupações sempre foi com a imagem da autoridade a quem servia, por isso não me contenho em perguntar – o Senhor de fato tem uma assessoria política, e de imagem? Não falo isso desmerecendo quem quer seja, caso o Senhor os tenha, mas fatos como esse dos valores pagos a servidores, e inúmeras outras situações pelas quais já o vi passar me fazem pensar que o Senhor trabalha sozinho, aliás tenho que destacar que, sozinho ou não, sua postura, seus posicionamentos melhoraram consideravelmente, desde o início da Gestão até hoje.
Há de se levar em conta que no início do mandato, a transição do empresário para o político foi difícil, e por vezes o primeiro falou mais alto do que o segundo. Hoje já arrisco dizer que o político se impôs nesse jogo dialético e isso é muito bom – sua experiência de gestão é importantíssima, mas sem a visão política ela perde em efeito e substância – é aquela história que falei a pouco com o Senhor, a diferença entre o “Saber” e o “Saber Fazer”, hoje o Senhor depois de tantas crises que já viveu no estado, em pouco mais de um ano, está demonstrando que já “Sabe Fazer”.
De toda forma Meu Governador, já encerrando essa prosa, essa questão do Assessoramento é séria, pois o Senhor não é obrigado a ter todas as respostas, ao contrário deve estar sempre bem brifado para que não seja pego em saias justas, mas para além dessa questão comunicacional, existe um outro perigo à sua volta, que como bom mineiro o Senhor deve tomar tento. Olhando com “olhos de estrangeiro”, sem a contaminação da emoção e do convívio, da mesma forma que o vejo mal assessorado, vejo também que, politicamente, o Senhor deva ficar mais atento às informações que lhe são passadas, confiar desconfiando, e checando sempre que possível pois, ao menos na Educação, parece que estão lhe vendendo gato por lebre.
Muito obrigado pela companhia meu Governador, pela deferência de ter aceitado meu convite, e espero que possamos nos encontrar novamente, em breve. Até mais!
Professor Sérgio Soares