Dias de Covid-19: assistindo a vida pela fresta da minha janela

Há mais de três semanas que não publico uma linha sequer nesse Blog, e o motivo não foi a quarentena, mas não dizem por aí que “’a vida imita a arte”? Pois é, por uma brincadeira do Senhor das Artes, a “Cãojuntivita” que aterrorizou a pequena Prosperidade resolveu me pegar na esquina, começou no sapatinho, ‘’envermelhando” a vista esquerda e, em menos de uma semana, eu já estava com os dois olhos tomados, e com uma fotossensibilidade tão grande que mal conseguia nem abrir os olhos, e assim se foram mais quatro dias sem assistir TV (apenas ouvindo) e celular, chance nenhuma – dias de escuridão onde pude experimentar as sensações que a baixa visão produzem nos deficientes visuais. Depois que a fase mais aguda passou, um embaçamento ainda se fez persistente, e não me deixava fazer aquilo que mais gosto – escrever. Só agora consegui retomar a rotina, com minha acuidade visual retornando aos poucos. Com certeza, esse foi o maior experimento social que já vivi.

Coincidentemente, dentro desse meu isolamento visual, já estava em vigor o isolamento social, necessário para a contenção das internações, então eu vivi esse período de quarentena duplamente – pelo Covid e pela “Cãojuntivita” – e por esse motivo quero relatar hoje aqui minhas impressões sobre tudo que ouvi, e pude ver acontecer no mundo pela fresta da minha janela.

Como disse, quando minha visão “adoeceu”, já estávamos com pouco mais de uma semana de isolamento social decretado no país, eu já afastado do trabalho (cumprindo Home Office), e nesse momento já acompanhando a repercussão da doença no Brasil e no mundo, por isso primeiro vou falar da questão da Saúde Pública.

O tal “vírus chinês” a que ninguém deu importância (afinal, ele havia matado só comunistas, não é mesmo?) demonstrou a que veio de maneira avassaladora – mostrando primeiro ao Velho Mundo que era chegada a hora de abandonar suas velhas tradições e sua ultrapassada arrogância, mas os “Velhos Senhores da Guerra” demoraram a entender a mensagem que esse ser microscópico estava trazendo, e com isso milhares de vidas foram, e ainda estão sendo ceifadas, tudo por que era apenas um “vírus chinês”, um resfriado, que não teria (nem poderia ter) a capacidade de parar o mundo, mas parou.

Não demorou muito para que esse exército de um vírus só viajasse a bordo dos aviões, trens e navios e se espalhasse pelo Novo Mundo e pelo Oriente. Ao Brasil, que não demonstrou a menor preocupação (nem sequer nos Festejos de Momo) ele demorou, mas chegou, e ao que parece, veio para ficar.

Apesar da Campanha do Ministério da Saúde, iniciada em Janeiro, a ficha demorou a cair para a população e para os governadores, que relutaram tanto (afinal era apenas um resfriado que só matava velhos, não é mesmo?) e quando viram que a coisa era séria, por um descompasso entre o Governo Federal e os Estados, produziram uma quarentena caótica que parou o país da pior maneira possível, fechando aquilo que era essencial manter (logística, por exemplo, afetando a vida dos caminhoneiros) e causando pânico geral na população.

Realmente, a Covid-19 não é só um resfriado, nem tampouco só mata velhos, e os números cada dia mais comprovam o contrário. No mundo isso hoje virou um verdadeiro genocídio, ao que parece totalmente sem controle, pois o tal “vírus chinês” subjuga seus pacientes com a força de seu ciclo de vida, tendo início no contágio, passando ao ápice de devastação nos infectados e depois vai se esvaindo, conforme os sistemas imunológicos conseguem combater seus efeitos, e isso só vai mudar quando a Ciência conseguir produzir medicamentos que combatam a infecção, e assim evitem os óbitos, ou até que se descubra uma vacina eficaz que nos previna do Corona, mas isso não é esperado para hoje, nem tampouco para amanhã.

No Brasil, se por uma conjunção astral favorável, se pela manipulação de testados positivos, ou realmente pelo trabalho eficiente das autoridades competentes, os números de mortos pela Epidemia ainda não apresentaram um efeito tão devastador (que está ocorrendo nos Estados Unidos, por exemplo), mas o fato é que não estamos nem na metade do primeiro tempo dessa partida de futebol –  Brasil X Covid, por isso ainda tem muita bola para rolar nesse jogo, e se o placar final vai ser favorável para o nosso time, vai depender do outro ponto que quero analisar agora, que é Política e a Economia em tempos de Corona Vírus.

Ouvi muito nesses dias a comparação da Pandemia com um cataclismo marítimo – um Tsunami cuja primeira onda sentida foi a da crise na Saúde Pública mundial, e a segunda, tão devastadora quanto a primeira, seria a da Economia, paralisada mundo afora pela necessidade do isolamento social, colocando em xeque não só sustentabilidade das nações, como também a sobrevivência das pessoas que, de uma hora para outra, se viram sem condições de gerar a própria renda, necessária à sua subsistência.

No mundo globalizado, em especial na Europa, aqueles que acharam que a Economia era mais importante do que a Saúde (como a Itália) estão pagando um preço muito alto por esse erro pois, pela força do vírus foram forçados (ainda que contra a vontade) a parar a Economia e hoje vivem o caos na Saúde Pública pela demora em agir contra a doença, e por isso não conseguem atender ao aumento exponencial de pacientes graves, que acabam evoluindo para óbito.

A astúcia desse ser microscópico é inegável, pois as grandes nações, que formavam os grupos dominantes em poderio econômico, político e bélico foram todas rebaixadas ao mesmo status – dominadas pelo Corona – e como golpe de misericórdia, ainda levou alguns de seus principais líderes à internação, ou a engolir o  orgulho e reconhecerem o seu erro de leitura sobre a gravidade do problema, cito aqui Boris Johnson e o próprio todo-poderoso Donald Trump, que após tanto desmerecer o impacto da doença, teve que voltar atrás, depois que o coração do mundo dos negócios – a Big Apple – sucumbiu à Pandemia.

Mas um dos casos mais emblemáticos e que representa que essa doença não é só de pobres, nem de negros, nem de LGBT’s, mas de todos os países e povos, aconteceu em Israel onde o Ministro da Saúde (e líder do partido ultra-ortodoxo ‘Judaísmo Unido da Torá’) defendeu publicamente que a doença era uma punição divina aos gays – o Covid é implacável e não tolera soberba, essa pessoa foi mais uma vítima da doença.

Aqui no Brasil vi e ainda ouço muito debate extremista, tanto por parte daqueles que defendem a Saúde para salvar vidas, quanto daqueles que tratam a Economia como centro das atenções por salvar empregos e negócios. O que essas pessoas ainda não entenderam é que esse é um jogo que só vai ser ganho se o time jogar fechado: defesa, meio-de-campo e ataque, um trabalhando pelo outro, buscando um objetivo comum que é a vitória sobre o Covid ao final do tempo regulamentar.

Infelizmente, o grande responsável pela construção desse discurso desagregador é o nosso próprio Presidente que, no início da crise no país, perdeu a oportunidade de se apresentar como um líder, congregando e articulando para que todos trabalhassem juntos – Governo Federal, Estados e Municípios – ele próprio tratando a crise como um sub-produto da mídia esquerdista, minimizando os impactos da doença e colocando a questão econômica em primeiro plano, reforçando, dessa forma, a ideia daqueles que acreditam que é possível ganhar o jogo sem a defesa, jogando só com o meio-de-campo e o ataque.

Sinceramente desejo a ele que o Corona não venha a lhe cobrar o preço por sua atitude imprudente, cheia de amor próprio e orgulho ferido, pois, a seguir o Rito, a Covid-19 já deixou pelo caminho, tombados em um leito, ou sufocados por sua própria arrogância, outros que pensavam como ele pensa.

Apesar das pessoas só replicarem em suas redes sociais os boletins com números de mortos e infectado, os embates entre os que são favoráveis ao discurso do Presidente, ou contrários, ou entre a discussão se é mais importante “salvar vidas ou salvar empregos”, sempre se pode achar algo de bom, mesmo em meio a tanta dor e tristeza, e nesse caso não é diferente.

Nesses dias entremeados entre baixa visão e algum “enxergamento” pude ouvir (e algumas vezes ver) que o Corona está produzindo mundo afora um efeito colateral não esperado na humanidade – a (re)descoberta do outro, seja daquele mais próximo dentro de casa, com o qual as relações tinham se tornado quase virtuais (de tão frias), ou daquela vizinha idosa e solitária do terceiro andar (que sempre chamaram de ranzinza e aborrecida), mas que nesse momento virou o centro das atenções do prédio, porque precisa de alguém que lhe ajude com as coisas mais básicas, como comprar o pão e o leite.

E não fica só nisso, exemplos de voluntariado e solidariedade não faltam pelo Brasil e pelo mundo afora, desde o apoio àqueles que vivem em situação de rua (alvos fáceis do vírus), até o encantamento nesses dias de quarentena, produzidos por famosos e anônimos que dividem seu talento e sua arte nas redes sociais, nos prédios e nas ruas. Há três meses atrás isso seria impensável, pois ninguém se esforçaria tanto para alegrar o outro tendo como cachê apenas o sorriso, ou o agradecimento de alguém que não conhece.

Dizem por aí (mas não tenho dados científicos que comprovem), que até o Planeta Terra está sendo beneficiado pela Covid-19 – que os efeitos do aquecimento global diminuíram nesse período, que os rios e mares estão mais limpos e que o ar está mais puro. Se é verdade, não sei, mas espero que isso realmente esteja acontecendo e que, além dessas boas novas, a mudança no comportamento das pessoas, a redescoberta dos seus melhores sentimentos e do quanto é bom ser e fazer um pelo outro, permaneça como uma sequela permanente causada pela passagem do Corona Vírus por nossas vidas!  

Professor Sérgio Soares

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