A cidade “Pantasma” na epidemia de “Cãojuntivita”

Aproveitando a parada forçada na repartição pública onde trabalho (regime de Home Office) por conta do Covid-19, aproveitei para descansar e me prevenir de qualquer contágio na minha pacata Prosperidade (cidade longe de tudo e de qualquer coisa, e cheia de causos fantásticos) na casa de familiares.

Lá chegando, como de costume, fui até a venda do Geraldo, onde encontrei meu velho e bom amigo Lazin sentado tomando um café e pitando uma palha. Curioso como ele só, foi logo se apressando em perguntar o que eu fazia por aquelas bandas no meio da semana. Expliquei ao interessado contador de causos, que estava ali por conta do Covid-19.

Assustado, ele perguntou:

– “Covix” o quê? Isso é nome de remédio?

Respondendo ao intrigado amigo, expliquei que o Covid-19 era uma doença que estava afetando o mundo inteiro, que começou na China e agora havia chegado ao Brasil. Os sintomas são parecidos com os de uma gripe, mas em pessoas mais velhas e frágeis pode até ser fatal. Pela cara do velho, ele ainda não estava entendendo nada, então peguei meu Tablet e mostrei para ele fotos e vídeos explicando um pouco mais sobre a doença.

Depois de assistir ao material, o sabichão tratou logo de ir respondendo:

– Ará, esse tal de “Covix” aí num é nada não. Por aqui já teve coisa muito pior, e ficou todo mundo com essa cara de chinês aí.

Agora quem não estava entendo nada era eu. “Covix”? Rindo pra dentro. Então pedi ao Lazin que me contasse esse causo direito. Foi então que ele relatou o acontecido.

– Já faz prá mais de 3 ano, era uma sexta-feira 13. Quando o sol raiô e a cidade começô a acordá, logo que o Geraldo abriu a venda, seu Xico Onório apareceu prá pegar pão e pó de café. Foi então que o amigo do balcão aí se assustô com o que viu. Seu Xico tava com os zóio, pequenininho, parecia os desse tal de chinês que você mostrô aí.

– Assombrado, o vendeiro perguntô o que havia acontecido com o homem, mas seu Xico não soube explicá, só sabia que tinha acordado com os zóio daquele jeito. Geraldo ainda recomendô que ele procurasse o Posto de Saúde pra vê o que era aquilo. Ele concordô, pegô o pão e o pó de café e saiu.

– Até o meio dia daquela sexta-feira, mais da metade da cidade já tava com os zóio fechado, foi aí que o Prefeito e o Secretário de Saúde resolverô tomá pé da situação, e descobrirô que aquilo era uma tal de “Cãojuntivita”. Uma doença que pegava igual sarna, e por isso resolverô fechá Escola, Igreja e até a Venda do Geraldo, que já tava ruim das vista também.

– Aquele dia foi um fuzuê só. A cidade ficô toda em polvorosa. Ninguém nunca tinha ôvido falá daquela tal doença, mas começô a corrê na boca pequena que como era sexta-feira 13, e o nome tinha a vê com cachorro, que isso devia de sê obra do “coisa ruim”, e que o melhó era dá sumiço nos pulguento que andava solto pelas ruas de Prosperidade.

Coitado dos quatro pata, se não fosse Dona Elza Salgueiro, uma sitiante famosa na cidade por cuidá dos bichinhos de Deus, e devota de São Francisco de Assis, não tinha sobrado um vivo.

– No sábado a cidade parecia uma cidade “pantasma”, nem de dia nem de noite você via viva alma nas rua, nem a Igreja (que tava de porta aberta) teve fiel na hora das Missa, Venda fechada, Posto de Saúde fechado (porque até us médico e enfermeiro pegaru a danada) e foi aí que veio o nó do borogodó. Sem médico e sem enfermeiro quem ia tratá dos zóio dos morador de Prosperidade?

– Foi aí que lembraro da Dona Latércia, benzedeira famosa da região que ensinô prás pessoas que remédio bão pra limpar zóio era banhá com arruda e rosa branca. Mas não pudia sê qualquer ramo de arruda, tinha que sê do broto mais novo, e a rosa tinha que sê colhida no raiá do dia, antes do sol levantá na cabeça do morro, porque ela tinha que tá ainda com o orvaio da noite. Depois era colocá tudo numa vasilha de lôça branca, com água, deixá descansá, e banhá 4 veiz ao dia, sempre fazendu o sinal da cruiz com o raminho da arruda em cima de cada vista.

Dito e feito. Num demorô muito e os zóio das pessoa começô a abri, quando foi lá pra quarta-feira já num tinha quase ninguém doente mais, tanto é assim que na quinta-feira, completâno os 7 dias que a “Cãojuntivita” apareceu, a cidade voltou ao normal, Escola abriu, Venda abriu, Prefeitura e Posto de Saúde, tudo isso graças à receita que Dona Latércia ensinô.

Para não perder a oportunidade de soltar uma das suas, encerrando a conversa Lazin soltou essa pérola.

– Pois é, eu achava que ocê devia passá prus seus amigo lá do seu serviço essa receita da Dona Latércia, garanto que ninguém lá ia pegá esse tal de “Covix” mais”!

Não me aguentei, e soltei uma gargalhada. Terminei o café e me despedi do velho contador de causos. Figura folclórica da boa cidade de Prosperidade.

Que bom seria se a vida pudesse imitar a arte, e com a receita da Dona Latércia pudéssemos curar os milhares de infectados mundo afora pelo Covid-19 com um ramo de arruda, em uma infusão de rosas brancas, só que a realidade dos fatos não me permite acreditar nisso, ao contrário, mostra que atitudes simples de higiene e urbanidade (evitar contatos físicos desnecessários, e aglomeração em locais fechados) podem ser decisivas não só no controle da pandemia (pois estamos tratando de uma doença viral, que como tal tem um ciclo de vida definido), mas também colaborarão para que o tratamento daqueles indivíduos, que tendo evoluído para um quadro grave da doença (em torno de 20%, desses 15% que necessitarão de internação, e os outros cinco para respiração mecânica), consigam ser atendidos dentro das Redes Pública e Privada do país.

Hoje recebi um áudio de um familiar que mora na Itália, no centro da zona de infecção, em Lodi, onde ele relata a sensação de quem está sentindo na pele os efeitos devastadores da contaminação, que não são só físicos, digo de antemão, mas principalmente sociais e econômicos. Em sua fala ele destaca que as pessoas aqui no Brasil estão tratando a doença como uma simples gripe, dando a ela pouca atenção o que, na visão dele, é um grande erro.

Sim, realmente o Covid-19 é uma infecção viral, na maioria dos casos assintomática, e que quando manifestados se assemelham aos de uma gripe. Dos poucos que evoluem para grave, apenas 5% se enquadram na condição de muito graves, necessitando de suporte mecânico para a respiração. Daí a “fama” equivocada de que é uma doença que só é letal em velhos, ou em pacientes que já apresentem um caso de comorbidade (portadores de doenças crônicas ou pacientes imunodepressivos).

Mas voltando à Itália, esse meu familiar destaca que o maior estrago que a doença trouxe àquele país não foi a letalidade (apesar de alta), mas o caos social que lá se formou, com uma Rede de Saúde estrangulada, com falta de leitos e respiradores para atendimento dos pacientes muito graves.

Somente na Lombardia (em um único dia) foram registrados mais de 800 casos considerados graves, onde o respirador é necessário. Nenhum país tem esse montante disponível, e mesmo investindo na produção de novos equipamentos, estes ainda seriam insuficientes, por isso a China anunciou que vai ceder à Itália aqueles que utilizou, já que agora a epidemia se encontra sobre controle naquele país.

Em seu relato ele comenta ainda que, saindo com a esposa de casa para ir ao Supermercado (uma das condições autorizadas de circulação nas ruas – já estão há duas semanas reclusos dentro de casa), sofreu um pequeno acidente no caminho, e quando os policiais chegaram para atender a ocorrência, se disseram tranquilizados por ninguém ter sofrido nenhum tipo de lesão, pois, caso contrário, não encontrariam atendimento hospitalar, e ainda correriam o risco de entrar em uma unidade de saúde com um braço quebrado, e sair infectado pelo Corona Vírus. Isso sem falar nos reflexos na economia italiana, agravada por uma crise dentro da União Europeia, em razão do Covid.

O resumo de tudo isso é que, apesar da população estar bem informada pelos órgãos governamentais sobre a doença (seus efeitos e tratamento), a sensação transmitida pelos médicos (e sentida pelos italianos) é a de que estão revivendo os dias tristes da Segunda Guerra Mundial.

Enquanto isso, no Brasil… há duas ou três semanas atrás o país acompanhava a epidemia pelo retrovisor, guardando ainda uma distância segura. Contudo, o vírus já emparelhou e agora o Governo deve tomar as medidas necessárias para sua contenção, evitando assim que ela tome de assalto toda a Rede de Saúde do país.

Claramente a região Sudeste hoje é a mais afetada, com Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais já tendo mudado de patamar no quadro infeccioso, passando de paciente que teve contato (ou se infectou) fora do país em áreas de risco, para um quadro que eles tratam como infecção comunitária, onde a disseminação da doença não é mais rastreável, e se dá de indivíduo para indivíduo, dentro do território nacional.

Vale destacar que o Ministério da Saúde e os demais órgãos de controle sanitário já estão trabalhando intensamente (antes que o quadro venha a se agravar) para tentar manter o que eles chamam de curva de infecção “achatada”, evitando assim o estrangulamento da Rede de Saúde, com um número maior de casos graves do que ela pode atender (o caso da Itália citado a pouco).

Pesquisadoras brasileiras sequenciaram o genoma do vírus, a FIOCRUZ está trabalhando na produção de kits para testagem da doença, por outro lado já está sendo desenvolvida no país uma vacina para prevenir o Covid-19 (com tecnologia e pesquisadores brasileiros), que promete ser mais eficaz do que aquelas que estão em estudo em outros países. Junte-se a isso o fato de que o Ministério da Saúde está desenvolvendo campanhas de orientação e conscientização sobre os riscos de infecção, e sobre as formas de prevenção do contágio por todo o país, em regime de colaboração com as Secretarias de Saúde.

O recado está dado, as orientações são simples, o desconforto do distanciamento social é necessário e o pânico de acessar as Redes de Saúde Pública e Privadas só vai criar um risco maior de contaminação (a orientação é que isso ocorra somente em caso de evolução dos sintomas: febre alta persistente e dispneia – mesma coisa que falta de ar). Lembrando que, na maioria das vezes, o portador do vírus se encontra assintomático, ou com sintomas semelhantes ao de uma gripe comum.

Como bem lembrou o médico Dráuzio Varella (ontem no Fantástico) essa não é a primeira epidemia de caráter mundial que atinge o país, não será a última e nem é a mais letal. A melhor forma de evitar o contágio (já que cura não existe – é um vírus que tem tempo de vida definido como o de uma gripe) é respeitar as orientações dadas pelo MS, cuidando da atenção com a higiene, mantendo o distanciamento social, e evitando se expor desnecessariamente a situações onde possam existir aglomerações de pessoas (ou ambientes fechados).

Além disso, resguardar ao máximo aqueles que são os principais alvos dessa doença – idosos e portadores de outras doenças pré-existentes. Para esses a recomendação é clara, isolamento total, até que o pico de contaminação da epidemia (que deve acontecer em até um mês e meio segundo relatos de especialistas) aconteça e ela comece a perder o poder de infecção, como já aconteceu na China, e em outros países asiáticos.

Até lá, o melhor remédio é aquele velho conhecido de todos (e muito recomendado pelas vovós) – canja de galinha e cama. Quanto aos teimosos, cuidado! Por aqui não temos nenhuma Dona Latércia, nem tampouco fazer beberagens com arruda e rosa branca vai aliviar a barra daqueles que, irresponsavelmente, brincam com a própria saúde, e a dos outros também!

Professor Sérgio Soares

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