O jeito Salomônico de resolver querelas
Contam os relatos bíblicos que existiu em Israel um Rei que ficou conhecido por sua sabedoria, prosperidade e longevidade, seu nome era Salomão. Uma das passagens mais famosas sobre sua vida, conta a história de duas mulheres que moravam na mesma casa. Ocorre que uma delas deu à luz uma criança, e passados três dias a outra também teve um filho. Certa noite, uma se deitou sobre a criança, matando-a sufocada. Vendo a situação, tomou o filho da outra enquanto dormia, e colocou a seu lado a criança morta. Ao acordar, a mãe enganada percebera que aquele bebê morto não era o seu filho, e diante da insistência da outra mulher em teimar a troca, foram ter com o Rei Salomão.
Explicado ao monarca o imbróglio, este tomou em suas mãos uma espada e profetizou que, em razão do interesse demonstrado de ambas, a criança seria dividida ao meio, e entregue a cada uma das mães a sua metade. Não suportando ver a iminente morte de seu bebê, a mãe biológica disse ao Rei que preferia ver seu filho nos braços de outra, do que morto. Ao contrário, a farsante aceitou as condições do Rei, entregando o pequeno ao sacrifício. Ouvindo essas palavras, o sábio homem ordenou que a criança fosse entregue à primeira, pois esta demonstrara ser, de fato, a mãe biológica da criança.
Não raramente na vida passamos por momentos de difícil escolha, como esse relatado na história bíblica, em que precisamos colocar à prova nossa perspicácia e sabedoria, tal qual o grande Rei. Por exemplo, quando na condição de chefe, somos obrigados a escolher dentro de uma equipe quem será demitido, na posição de professor quando é necessária uma reprimenda coletiva a toda a classe ou, quando o pai precisa ensinar aos filhos que nem sempre é possível ter tudo que se deseja.
Na primeira situação, a do chefe, a escolha pende entre proteger aquele funcionário amigo (ou que “mais” precisa do emprego, apesar de ser o “mais” ineficiente), ou privilegiar o caráter técnico, mantendo na empresa aquele mais capaz. No segundo caso, o do professor, a escolha se divide entre ser reconhecido pelos alunos como o Mestre severo e rigoroso quanto ao cumprimento das regras, ou como o professor “gente boa”, que não quer se comprometer, nem tampouco ver abalada sua imagem de “professor”. No último caso, o pai que criou os filhos sem limites (e sem noção do valor que cada coisa tem), divide-se entre a oportunidade de ensinar-lhes que a vida nem sempre é feita de abundância, ou de render-se à vontade dos rebentos, colocando em risco a manutenção e a segurança econômica de toda a família.
Nas três situações encontram-se apresentadas situações polêmicas sim, mas que só se tornaram reais por que outras escolhas foram feitas anteriormente (notadamente equivocadas), e que levaram, portanto, a esses desfechos inconvenientes. Via de regra, na vida em sociedade, quando deparados com situações de impasse como essas, as pessoas teimam em se esquecer daquela decisão tomada lá atrás, e que acabou levando direta (ou indiretamente) à construção do momento de crise vivido naquele instante, e acabam colocando a culpa em Deus, na crise econômica do país, no Presidente ou no vizinho ao lado.
E esse tipo de comportamento desculpista é percebido (de maneira recorrente) também na vida pública quando, diante de uma crise instalada, os políticos envolvidos na pendenga procuram buscar a justificativa para o problema nos posicionamentos do outro, e nunca naqueles que ele próprio tomou, esquecendo-se que, da mesma forma que na Lei da Física, para toda ação existirá uma reação de mesmo valor e direção (mas com sentido oposto), na Política existe uma regra de ouro (inspirada na filosofia de Salomão) que diz que “O interesse coletivo vem sempre antes de interesses unilaterais. Se não puder fazer assim, não o faça de nenhum outro modo. Melhor brigar com um, do que apanhar de todos”, regra essa que quando quebrada pode gerar muita dor de cabeça.
Trazendo essa situação para a vida real, analiso com você a situação da imigração nos Estados Unidos da América, país esse que abriga a maior quantidade de imigrantes do mundo. Segundo dados de 2019, seriam 44,4 milhões de pessoas, o que representaria quase 14% de toda a população americana. Deixando de lado a controvérsia entre o discurso Republicano e o Democrata sobre o assunto, o certo é que a sociedade estadunidense não se sente muito confortável com esses números, pois enxergam nos imigrantes concorrentes diretos aos seus postos de trabalho, além de atribuírem a eles o aumento na criminalidade e com os gastos sociais, argumentos esses carentes de comprovação.
Mas o certo é que esse número tenderia a continuar aumentando (em razão da entrada pela fronteira com o México) senão fosse a chegada ao poder do candidato Democrata, Donald Trump, que já tinha em sua plataforma de campanha um discurso contra a entrada de imigrantes, baseando-se justamente nos argumentos acima expostos – perda de postos de trabalho e gastos sociais – e assim acabou sendo eleito o 45º Presidente da República Americana.
Polêmico por natureza, Trump demonstrou toda a sua visão xenófoba sobre a imigração, quando propôs ao Congresso Nacional a construção de um muro na fronteira com o México, que impedisse definitivamente a entrada de ilegais em solo americano, isso acontecido depois de outra polêmica, quando a imprensa mostrou fotos de celas superlotadas com imigrantes presos que tentaram atravessar a fronteira, um número recorde de mais de 200.000 ilegais apreendidos entre outubro de 2018 e maio de 2019, mais do que o dobro em relação ao mesmo período do ano anterior.
Donaldo Trump, então, tomou para si a espada de Salomão (ao contrário do que poderiam recomendar os organismos de Defesa dos Direitos Humanos), quando propôs a construção desse muro, mas arbitrariedades e preconceitos à parte, seguiu a regra de Ouro, “Melhor brigar com um, do que apanhar de todos”, não criando exceções à regra, portanto, não entra criança, jovem, adulto ou idoso em solo americano de forma ilegal e, por essa razão, ainda sofre com o peso político de sua decisão, pois não existe (como nunca existiu, nem na decisão Salomônica) uma escolha sem perdas, ou sem desgastes. A decisão a ser tomada é o quanto perder, ou de que forma se desgastar.
Estamos presenciando hoje, no cenário regional, uma situação se não parecida com a da imigração ilegal americana, de mesmo impacto quando o assunto é a tomada de decisão frente a uma situação polêmica. Estou falando aqui da crise que se formou no estado de Minas Gerais em razão do Projeto de Lei enviado pelo governo para a Assembleia Legislativa, que trata da reposição das perdas salariais da categoria da Segurança Pública estadual.
Para além de ser contra (ou não achar justa tal reposição), o acordo que deu origem ao PL, fechado em 2019 com a categoria, no início do mandato de Romeu Zema, se transformou em uma grave crise política, primeiro quando os Deputados de oposição fecharam-se em bloco para incluir no Projeto emendas que previam a extensão dessa medida às outras categorias, que não somente a da Segurança. Depois dessa, outra crise se formou pelo risco da decisão de Zema (de ceder à pressão política da categoria da Segurança) gerar um efeito cascata nos outros estados, em meio a uma crise no Ceará, o que desagradou (e muito) governadores que até dias atrás elogiavam o trabalho do mandatário mineiro.
Contrapondo-se à crise, o Governador rebateu as críticas afirmando que a reposição é justa e necessária, visto que essa categoria (ao contrário de outras, como Educação e Saúde), não recebeu nenhum tipo de reajuste nos governos anteriores, além de ter apresentado desempenho satisfatório no controle da criminalidade do estado, mesmo com o efetivo reduzido, demonstrando (segundo o governo), eficácia e eficiência em suas ações.
Além disso, mesmo Minas aguardando anuência Federal para ingressar no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), segundo Zema, o estudo de impacto financeiro realizado para a aprovação do reajuste, garantiria a implementação do benefício, sem comprometer as negociações em andamento para o RRF do estado.
Em meio a essa polêmica instalada, o Governador definiu que a análise sobre a possibilidade da extensão dos reajustes às demais categorias, só seria tomada depois de estudo de viabilidade (a ser realizado pela equipe de governo depois do Carnaval), e que refletiria sobre o assunto em momento sabático, junto de sua família.
Da mesma forma que Trump, Zema tem em suas mãos uma decisão Salomônica a ser tomada: agradar a uma categoria, desagradando a todas as outras, com o risco iminente de ser o causador de uma crise nacional, ou não atender a nenhuma delas, revogando assim a tratativa feita com os servidores da Segurança, eximindo-se da responsabilidade com os outros estados.
Conforme dito, as pessoas têm a tendência de transferir a culpa da crise em que se colocam sempre a terceiros, não reconhecendo a própria responsabilidade sobre atitudes ou posicionamentos tomados, que levaram à configuração da contenda. Nesse caso, em especial, Romeu Zema ainda não conseguiu enxergar que o verdadeiro estopim para a deflagração do problema não está nas emendas à PL, nem tampouco no queixume de categorias como Educação e Saúde que reclamam isonomia de tratamento, mas sim na sua própria decisão de fechar acordo com uma categoria, em separado, por mais justo que isso pudesse parecer à época.
O governador se esqueceu da Regra de Ouro da Política, “O interesse coletivo vem sempre antes de interesses unilaterais. Se não puder fazer assim, não o faça de nenhum outro modo.”, e assim colocou em suas mãos a espada de Salomão. Basta agora saber se ele será astuto o bastante para tomar a decisão mais acertada, lembrando que, de uma forma ou de outra, perdas sempre existirão, afinal o estrago já está feito. A sapiência está em saber escolher entre a ruim, e a menos pior, enxergando nesse cenário qual fará menos estrago à sua imagem enquanto político, e a imagem (e ao caixa) do estado como um todo.
Professor Sérgio Soares