A subversão dos papeis sociais nos Festejos de Momo e na Política Brasileira
E o Brasil, hein? Já está em ritmo de Pré-Carnaval. Blocos e foliões se espalham aos milhões pelas principais cidades do país. A semana foi uma contagem regressiva para os Festejos de Momo que começam oficialmente hoje, não só para os cidadãos comuns, mas principalmente para a classe política que está a postos, aguardando seu bloco passar. Nada contra a festa, nem tampouco contra os foliões, mas me preocupa ver o estado de torpor que o país assume nessa data festiva (como se não existissem mais crises), como se o Brasil fosse o lugar idílico com que todos sonham, e onde gostariam de viver.
A origem do Carnaval (enquanto festa pagã), remonta à Antiguidade, mas foi na Grécia e em Roma que as Bacanais e as Saturnais (festejos que antecediam o período de jejum), se consagraram pela perda de pudores, e maximização de excessos (tanto no que diz respeito às bebidas e comidas, quanto aos prazeres da carne). Contudo, um traço comum a todos esses períodos históricos (e que eu desconhecia) é que desde a Mesopotâmia já se praticava a inversão dos papeis sociais durante os festejos – reis se vestiam de escravos, escravos eram alçados ao papel de realeza, para depois serem sacrificados – e isso prosseguiu nas celebrações greco-romanas, continuou na Idade Média, até chegar aos dias de hoje, onde homens e mulheres trocam de lugar durante os dias de folia.
Me permito aqui fazer uma extrapolação metafórica do sentido dessa festa em relação ao trabalho do Legislativo no Brasil, ressalvando desde já que estou me referindo àqueles Edis, Deputados e Senadores que, em sua maioria, legislam em causa própria, afastando-se do sentido real da palavra “Política” que remete à “Polis” grega (cuidar dos interesses da Cidade-Estado e de sua coletividade). Não quero dizer com isso que não existam problemas no Executivo, mas devido aos recentes acontecimentos no cenário nacional (e também no Estado de Minas), a classe legislativa é a que melhor representa nesse momento a “Farra Momesca”.
Pois bem, como dito no primeiro parágrafo dessa análise, um dos aspectos que mais me chamam a atenção no período do Carnaval é justamente o quanto absorto o povo brasileiro se torna durante esses quatro dias – os erros de português do Ministro da Educação, a crise do Funcionalismo Público, as PEC’s e as Reformas no Congresso, os problemas da família Bolsonaro, o caso do Capitão “insepulto” do BOPE e até o Covid 19, se apequenam diante do objetivo final da festa – extravasar as emoções e desejos (às vezes os mais recônditos) durante os dias de folia, para tudo se acabar na Quarta-feira de Cinzas, onde os católicos começam o período de penitências que antecede a Páscoa, enquanto o povo brasileiro tem que encarar a ressaca moral de viver em um país cheio de problemas, que por alguns dias tentou fazer parecer que não existiam.
E isso não era justamente o que os gregos e romanos buscavam nas Bacanais e Saturnais? Aproveitar ao máximo tudo que a carne poderia oferecer, sabendo que daí a três dias teriam que se entregar à privação? Mas o ponto mais importante desse enredo carnavalesco, com certeza, não é o samba e nem a passista, mas sim o quesito “fantasias” – uma das marcas da festa pagã que contaminou o país, e que não acontece somente durante os quatro dias de Momo.
No Brasil, quando se fala em Política o senso comum traz à mente a imagem do dinheiro guardado na cueca, do Mensalão e do Petrolão, do nepotismo, das mordomias e vantagens que são atribuídas a quem está detentor de um mandato público. Por isso, estar político hoje (em especial nas Casas Legislativas) virou sinônimo de profissão (por sinal uma das mais bem remuneradas, e com melhores benefícios), onde se trabalha pouco (e por pouco tempo), para em seguida se locupletar de uma gorda aposentadoria, ao contrário do restante do povo brasileiro, que trabalha muito e por muito tempo, para sobreviver com tão pouco ao final da vida.
Como se não bastassem tantas vantagens dessa função pública, ela ainda apresenta um outro aspecto, tão perverso quanto imoral, que traz sérios danos à sociedade que os elegeu – o corporativismo escrachado, na forma de desfaçatez que não tem o menor pudor em aprovar Leis em benefício próprio, ao mesmo tempo em que postergam (ao prazo máximo) medidas que seriam de interesse social, ao ponto delas caducarem, tornando-se sem efeito. Um exemplo recente disso? A Carteira de Estudante Digital.
Senão pior, mais sujo é o sentido de autoproteção dado aos seus mandatos por essa classe de “eleitos” (que se considera acima do bem e do mal), onde Centro, Direita ou Esquerda se fecham em blocos quando lhes é conveniente para garantir vantagens, ou salvar do cadafalso aqueles espúrios que, notoriamente, tramaram contra o interesse nacional, ou desviaram para seus próprios bolsos o dinheiro que era do povo.
Aproveitando-me ainda da metáfora do Carnaval, esses políticos vestem suas “máscaras e fantasias”, e colocam o bloco na rua com o samba-enredo “Me engana que eu gosto – viva o Povo Brasileiro”. Ao fazerem isso, jogam pelo ralo abaixo o compromisso assumido com seus eleitores, compromisso esse que é a real missão de seus mandatos – fazer Leis, e fiscalizar seu cumprimento, e não “infringir”, “burlar” essas mesmas Leis que ajudaram a criar.
Se na Antiguidade essa mudança de papeis tinha uma finalidade “divina”, o que se percebe (ao contrário) no comportamento desses maus políticos são o deboche e o escárnio públicos, em uma demonstração de arrogância de quem não aceita ser contradito, ou contrariado. Apresento a seguir dois fatos recentes da semana, que demonstram como se dá esse jogo de cena, nos bastidores das Casas Legislativas.
O primeiro caso ocorreu no Senado Federal, onde foi aprovada a ampliação de 24 para 33 anos de idade a cobertura do plano de saúde corporativo da Casa, para os dependentes dos parlamentares (vantagem essa que foi estendida, também, aos filhos dos Servidores). Em um país onde a maioria da população depende do Sistema Único de Saúde (que é deficitário e ineficiente), uma Casa Legislativa dessa envergadura aprovar medida tão improba, é vestir (sem o menor pudor) uma “fantasia de menor infrator”, batendo a carteira do contribuinte (com a certeza da impunidade própria desse tipo de delito), que é quem irá pagar mais essa conta, salvaguardados pela imunidade que o mandato lhes confere.
Por outro lado, aqui em Minas, na Assembleia Legislativa, os ânimos ficaram exaltados, tudo isso por que uma das categorias do funcionalismo estadual (a da Segurança Pública) conseguiu, através de negociação com o Governo, a reposição de suas perdas salariais. Enquanto isso, outras duas, a da Saúde e a da Educação (essa última reivindicando o cumprimento do Piso do Magistério) foram preteridas ficando sem qualquer tipo de correção.
Na última terça-feira, durante Sessão da Comissão de Fiscalização, Financeira e Orçamentária para aprovação do Projeto de Lei que asseguraria esse acordo, o grupo de oposição ao Governo fez uma manobra política que estendeu à maioria das categorias do funcionalismo os reajustes, em um claro discurso de manipulação das bases. A Emenda apresentada é, senão inexequível do ponto de vista orçamentário em razão da situação financeira do Estado, improvável de ser sancionada pelo Governador sob o risco de que não se cumpram as exigências do RRF. Mas, assim mesmo o Projeto de Lei foi aprovado, deixando a cargo do Executivo o ônus da negação.
Assistindo aos debates durante a votação da PL pude identificar vários foliões fazendo uso do microfone, mas os que mais me chamaram a atenção nesse bloco carnavalesco imoral, que desfilou nos corredores da ALMG, foram o dos “Irmãos Metralha” (aqueles mesmos dos quadrinhos, que bolavam mil e uma maneiras para assaltar os cofres do Tio Patinhas), e o bloco dos Romanos, representados na figura de “Pôncio Pilatos” que, vestidos com suas togas, sentaram-se confortavelmente em cima de seus muros e lavaram as mãos, entregando ao Governador a Salomônica decisão sobre quem ele deixará de atender – a Segurança Pública, ou os “demais”?
Felizmente, ainda existem nessas Casas Legislativas figuras que “brincam o Carnaval de cara limpa”, demonstrando coerência e fidelidade às suas convicções ideológico-partidárias, e à confiança neles depositada pelo povo, representada pelo mandato que receberam. Para esses, os festejos de Momo duram apenas quatro dias (contados no calendário), e nos outros 361 continuam desempenhando seu trabalho de legisladores sérios, que lutam pela garantia da Justiça Social para todos, da responsabilidade com o dinheiro público e da condição de governabilidade em suas respectivas esferas.
Para os tantos outros, que ainda se escondem por detrás de máscaras e fantasias para usurpar, debochar e vilipendiar o Povo brasileiro, só posso deixar registrado aqui meu descontentamento com a atuação de Vossas Excelências, e minha reprovação pública pela falta de dignidade no tratamento do mandato para o qual foram eleitos, alentado pela certeza-esperança de que, mesmo sabendo que o povo ainda não sabe votar (prova disso são os casos que aqui relatei), pode demorar, mas ainda vai chegar o dia em que não serão mais eleitos em nosso país esses enganadores (travestidos de políticos), graças a um tão desejado (e necessário) expurgo na Política.
Professor Sérgio Soares