Semana passada, em uma de minhas rotineiras visitas à Prosperidade, tive a grata oportunidade de reencontrar um amigo que tenho em grande conta, pela empatia e por seu prestígio como educador – o Professor Pandolfo. Acho que você deve se lembrar dele, pois já comentei por aqui que a sua marca era ensinar contando histórias, mas continuando de onde parei, ao chegar a Prosperidade, logo avistei o sabido amigo, sentado na praça, lendo um livro, como era de costume. Parei logo o carro e fui ao seu encontro.
Saudações feitas, pedi a Pandolfo que me atualizasse sobre como andavam as coisas naquela acolhedora cidade, em especial na Educação, que era sua área (havia visto recentemente que Prosperidade tinha alcançado destaque nos exames oficiais, tornando-se referência em ensino no Estado).
O nobre professor me contou que os ditosos resultados alcançados foram fruto de uma década de trabalho intenso, enxergando o ensino como um processo que deve ter início, meio e fim, portanto, começado com os pequeninos, até entregar os jovens prontos e preparados para os desafios que a vida porventura lhes apresentará.
Interrompendo a fala do querido (e modesto) amigo, não pude deixar de destacar que isso aconteceu durante o período em que ele esteve à frente da Secretaria de Educação de Prosperidade e que, por esse motivo o mérito dessa conquista também se devia a sua sempre competente e lúcida forma de enxergar o processo de ensino-aprendizagem.
Tirando de si o reconhecimento, e compartilhando com os alunos, professores e equipe pedagógica das escolas, lembrou que infelizmente nem sempre foi assim, e por isso mesmo, para que não fosse esquecido o momento negro pelo qual passou Prosperidade, o Legislativo Municipal aprovou a criação de uma data cívica no calendário oficial da cidade – dia 14 de Julho como o dia do “Queima-Livros”.
Intrigado com aquela informação (que eu desconhecia), pedi ao Professor que me contasse o porquê daquele nome, e qual a razão para ter se tornado tão importante, a ponto de virar data cívica? Então, o bom contador de histórias começou a narrar:
“Tudo começou com a chegada à cidade da nova Secretária de Educação, enviada diretamente da capital do Estado, pelo Governo Central. Seu nome era Gina, Professora Gina Catabriga. Tão estranho quanto o nome, era sua aparência: esquálida, com roupas sempre confusamente combinadas, e um olhar vazio, como se estivesse perdido em algum lugar do tempo-espaço. Contudo, era muito eloquente, sua fala convencia o mais duro dos interlocutores, e foi por isso que, em menos de um mês, a Educação de Prosperidade já havia sofrido uma revolução, ou poderia dizer, uma ‘involução’.
Turmas foram fechadas, alunos foram remanejados, conteúdos foram revistos, tudo sobre a ótica de uma ‘Nova Pedagogia’, e como as pessoas têm a incômoda mania de dar muito valor às novidades (a grama do vizinho é sempre mais verde do que a nossa), a estrangeira conseguiu rapidamente o apoio dos pais e das autoridades municipais para implementar seu projeto, dito revolucionário, e que levaria a Educação de Prosperidade a posições de destaque nacional.
Até na nossa escola, onde desenvolvíamos um trabalho diferenciado com as crianças da zona rural, ela tentou mexer, querendo fechar a turma e redirecioná-la para a escola da sede. E foi aí que começou nossa “guerra” com a senhora Catabriga. Como a escola funcionava dentro da propriedade de minha família, e os alunos eram, em grande parte, filhos dos colonos da fazenda, não aceitei, portanto, sua ingerência e os mantive sem alterações, ainda que contra a vontade da gestora.
Mas a grande tragédia foi quando, após seis meses desse novo pedagogismo, Catabriga resolveu baixar uma normativa proibindo a leitura de obras literárias, segundo a tresloucada ‘malditas’, e não bastando, propôs que esses livros fossem recolhidos das prateleiras das bibliotecas escolares e queimados em Praça Pública, representando, dessa forma, a necessária limpeza moral do município, para evitar que as crianças e jovens fossem contaminadas por ideologias estranhas ao ensino.
Importante destacar que, antes do dia marcado para o ‘Queima-Livros’, a Secretária havia participado de duas audiências públicas no Legislativo Municipal e convencido todos os Edis não só da pertinência da proposta, bem como os convidado a participarem do Ato Solene, iniciativa que foi aplaudida de pé pelo plenário, e registrada em ata.
A tal ‘lista maldita’ era composta por mais de uma centena de obras, da literatura brasileira à universal, começando com Monteiro Lobato, que segundo Gina fazia apologia ao racismo e à escravidão, passando pelo conjunto das obras de Machado de Assis, e chegando a Franz Kafka, com sua Metamorfose, cujo sentido da obra, segundo a gestora, remetia a ideia de transformação, análoga a transmutação, que por consequência incitava o transexualismo, portanto, imprópria aos escolares por remeter àquelas coisas de ‘Ideologia de Gênero’.
Logo que soube da história, corri à cidade para ter com o Prefeito e indagá-lo sobre o aceite de tal sandice. O mandatário não quis nem comentar o assunto, bem como o Presidente da Câmara. Sendo assim, fui direto à raiz do problema e travei acalorada palestra com a entontecida Catabriga que, ainda assim, ao término reconheceu minhas qualidades como educador, mas reafirmou que sua posição estava tomada, e nada iria demovê-la dessa ideia.
No dia marcado, quando todos os livros já estavam empilhados na Praça de Nossa Senhora do Rosário, com a população chegando para acompanhar a “limpeza moral” de Prosperidade, em um rompante de desespero saí trupicando em cima de um “Quincas Berro D’Água”, amassando um “Lusíadas”, até alcançar o topo da pira, me sentando sobre um “Livro do Desasossego”, enquanto folheava as páginas de um “Alienista”. Estava disposto, se necessário fosse, a me deixar queimar junto com as obras.
Quando Gina Catabriga soube da novidade, chegou à Praça esbravejante, com as veias de seu magro pescoço quase pulando para fora do corpo, desferindo xingamentos e maldições contra minha pessoa. Não tendo demonstrado afetação, a enlouquecida ‘pedagoga’ tomou das mãos do funcionário da prefeitura o galão de gasolina e os fósforos e desatou a despejar o combustível sobre os livros. Na hora certeira, em que ia acender o queimador, eis que entra Praça adentro o Juiz da Comarca, acompanhado de um médico, um pelotão da Polícia e enfermeiros, interrompendo assim a sanha da professora.
O notório Juiz fez saber a toda a audiência que, seguindo determinação do Governo Central, a Senhora Gina Catabriga estava sendo encaminhada de volta a capital, para dar início ao seu tratamento de saúde. Nesse momento os enfermeiros tentaram imobilizar a paciente, que esperniante se recusava a ceder, tendo sido levada para a ambulância aos berros, gritando em alto e bom som, ‘Viva a Raça Ariana’, ‘Salve a Raça Ariana’.
Todos estavam estupefatos, inclusive eu que desci do ‘Monte do Saber’ onde me encontrava, para tentar entender o que havia se passado. Foi então que o magistrado logo explicou o ocorrido.
Gina Catabriga foi realmente gestora da Educação na capital, contudo, diagnosticada com um quadro grave de esquizofrenia paranoide, que colocava em risco a sua saúde, e a daqueles com quem ela convivia, fora encaminhada para tratamento psiquiátrico em uma clínica próxima da região metropolitana. Contudo, algum descuidado burocrata, ao invés de direcioná-la para a Clínica Psiquiátrica Prosperidade, escreveu no despacho ‘Encaminho a Professora Gina Catabriga para Prosperidade, tendo a certeza de que isso é o melhor a ser feito pela servidora. ’ E foi assim que a história toda se deu.”
Ainda surpreso com aquela narrativa, perguntei ao dileto amigo o que havia acontecido depois da inusitada situação.
“Bem!” – disse Pandolfo com ares conclusivos, “com o afastamento da professora, e a vacância do cargo, havia a necessidade de que alguém assumisse a função, até para colocar de volta à normalidade, todo o caos criado pela tresloucada Gina no sistema de ensino municipal. Foi então que o Prefeito, com a cara mais deslavada do mundo, me desafiou a aceitar a incumbência, e transformar a educação de Prosperidade, já que, segundo ele, ‘eu me achava tão bom assim como Professor’.
Missão dada, missão cumprida e assim conseguimos, dez anos depois, colocar nossa cidade em condição de destaque, contudo, mais importante do que os números, conseguimos mudar a mentalidade das pessoas, e dos políticos, convencendo-os de que a Educação não dá saltos, ela é fruto de um trabalho organizado e contínuo, que quando bem realizado dá frutos.
Como forma de marcar simbolicamente aquela data nefasta, onde Prosperidade quase entrou para a história como uma cidade de orientação ‘Ariana’, a Câmara aprovou o 14 de Julho, como o dia do ‘Queima-Livros’, data que representa o dia em que o ‘Saber’ quase foi consumido pelo fogo da ‘Ignomínia’”.
Me despedi de Pandolfo, ainda extasiado e surpreso, entrei no carro e segui meu caminho convencido de que, realmente, Prosperidade era um lugar mágico, cheio de mistérios e boas histórias para se contar.
Para além da ficção, a Educação brasileira vive hoje também dias nefastos com o surgimento de falsos profetas (entronizados em seus saberes), que pretendem ao sabor de ideologias próprias, tal qual Gina Catabriga, construir um novo “Pedagogismo” que se pretende contrapor a fieira de saberes construídos, ao longo de quase duas décadas, por uma esquerda vacilante e corrompida, que tinha como propósito preparar terreno fértil para a construção de um regime totalitário, aos moldes de países vizinhos latinos, e da América Central.
Ocorre que essa contraposição (como toda reação extremada) tem se apresentado desprovida de crítica e de bom senso, e isso pode ser visto logo no Governo Federal, representado pelo Ministério da Educação que, mesmo baseado no pragmatismo cartesiano de seu gestor, próprio de alguém oriundo das Ciências Econômicas (que entende de números e estatísticas, e não de pessoas), carrega subliminarmente um discurso messiânico e beligerante, eivado de radicalização quanto aos costumes e às ideologias, desconsiderando assim a necessidade da construção de uma Política Educacional de Estado (e não de Governo), tendo por isso acabado se tornando refém de sobressaltos políticos, com trocas constantes de gestores, o que vem ocasionando uma perigosa descontinuidade em importantes Projetos e Programas da Rede.
Descendo para os Estados da Federação, a situação não é mais animadora, pois existe claramente demarcada a presença de um Ideologismo partidário na Educação, baseado na legenda majoritária de cada ente federado, sendo assim, naqueles onde a Esquerda conseguiu melhor desempenho nas urnas, o sistema de ensino mantém-se preso ao modelo já conhecido, e que teve como resultado toda a sorte de problemas que encontramos hoje nas escolas públicas – baixo índice de aprendizagem, evasão escolar, ideologismo e perda do sentido de respeito e valores (dentro e fora da sala-de-aula).
Por outro lado, onde a Direita saiu vitoriosa, acompanhando a onda Bolsonarista, encontramos um cenário não menos preocupante, e o exemplo mais recente dessa condição aconteceu no Estado de Rondônia, onde o Secretário de Educação “baixou” um memorando orientando que um rol de livros, da literatura brasileira e universal, fossem recolhidos das escolas, após denúncia recebida de que algumas obras apresentavam palavreado chulo, segundo informou a Secretaria de Educação em nota.
Logicamente essa ordem absurda (e desprovida de qualquer sentido pedagógico e literário foi revogada), mas para além desse lamentável equívoco fica clara a marca dos mesmos equívocos que acometem o MEC, tratando a Educação como se fosse uma ferramenta de doutrinação, ainda que o objetivo final seja diverso daquele intentado pela Esquerda durante os anos em que esteve no poder.
Contudo, não é só nos costumes que um desses segmentos da Direita (e não falo aqui de forma generalizada) vem demonstrando inabilidade no trato com a Educação. Existe hoje no cenário político nacional uma teoria encampada por alguns direitistas (partidos e pessoas) que entende a Educação Pública como despesa, e não como investimento. Segundo essa ótica, o Estado deve desobrigar-se das despesas referentes a esse serviço, por sua reconhecida incapacidade de gestão, demonstrada pelos baixos índices alcançados nos indicadores oficiais, bem como pela relação conflituosa e sem solução com o funcionalismo público – cheio de privilégios, com pouca produtividade e alto custo de manutenção.
Como solução apontada para essa questão, o caminho seria entregar à Rede Privada a gestão dessas demandas, baseando-se nos critérios de competitividade na prestação do serviço, formação de quadro técnico-pedagógico baseado nos princípios da eficiência e na qualidade do ensino oferecido, algo que deveria produzir como resultado a melhora da Educação nos índices oficiais de avaliação. Para ter acesso a esse “serviço”, o estudante receberia um “cheque-educacional” (custeado pelo governo), através do qual escolheria em qual escola gostaria de estudar. Para aqueles alunos que, por qualquer motivo, não conseguissem serem admitidos em uma escola privada, o Estado ofereceria o ensino público nos moldes tradicionais. Essa teoria é baseada no modelo de “Voucher”, proposto pelo economista liberal, Milton Friedman.
Esse é um daqueles casos em que uma boa ideia se perde por conta de uma crítica mal feita, ou desprovida de fundamentos, digo isso por que, conforme bem lembrou Pandolfo em sua fala “as pessoas têm a incômoda mania de dar muito valor às novidades (a grama do vizinho é sempre mais verde do que a nossa)”, e nessa situação vale a pena conhecer bem o gramado alheio, antes de mexer no próprio.
A teoria proposta por Friedman, em tese, tinha tudo para ser um sucesso de venda e críticas, contudo, depois que foi implementada mundo afora, após análise das séries históricas de desempenho, os gestores começaram a perceber que a situação não era bem como se imaginava. Vejamos dois casos emblemáticos, o do Chile onde os preceitos da “Escola de Chicago” encontraram maior ressonância, e o da Suécia.
Implantado em 1981 no Chile o modelo de Voucher Educacional representa 90% da demanda de estudantes em todo o país, e é o único programa desse tipo no mundo de amplitude nacional. Os defensores do modelo apontam o melhor desempenho dos alunos, como mérito do programa, enquanto os críticos apontam a questão socioeconômica como o maior problema da proposta – existem no Chile hoje escolas de pobres e escolas de ricos. Quanto a relação custo-aluno, o valor desembolsado pelo governo chileno é comparável ao gasto no Brasil para subsidiar a Rede Pública de ensino.
Em 1992 a Suécia promoveu uma grande reforma no seu Sistema de Ensino, municipalizando a oferta e dando a possibilidade da rede privada também oferecer o serviço, recebendo em contrapartida o valor referente ao custo-aluno. Para incentivar a competitividade dentro da Rede, e o consequente aumento na qualidade de ensino, a verba oferecida estava condicionada ao número de alunos matriculados na escola.
Mais de vinte anos depois de sua implementação, as autoridades suecas classificam o programa como um fracasso político, pois os resultados nos indicadores oficiais de ensino (PISA), não se demonstraram satisfatórios, ou mesmo justificáveis face ao investimento feito. Vale destacar que na Suécia o Sistema Educacional ainda é misto (público – municipalizado) e privado.
Ao contrário do que possa parecer, minha posição aqui não é a de negar a relevância de um projeto como o Voucher (ou Cheque-Educacional, como é tratado por aqui), pois como afirmei acima, essa é uma boa ideia que perdeu sua eficiência devido à falta de crítica. Vejamos os dois exemplos citados: Chile e Suécia são, respectivamente em extensão territorial, pouco maior e pouco menor do que Minas Gerais. Em que isso importe, o Chile é o único país onde esse modelo foi aplicado em todo o território, em outros países esse modelo ainda é usado de maneira pontual. No caso da Suécia, ela municipalizou o sistema de ensino, e abriu a livre concorrência para que o setor privado também oferecesse o serviço, custeado pelo estado. Em comum entre as duas experiências (olhando apenas pelo prisma econômico) o investimento feito com dinheiro público não trouxe igualdade de acesso ao sistema, nem tampouco o tão esperado boom de desempenho acadêmico.
O grande problema que enxergo hoje na sociedade brasileira é que o extremismo ideológico (que tantas vezes já critiquei por aqui) contaminou outros ambientes que não só o da Politica, enveredando pela Economia, Costumes e até na Educação, por isso posturas desprovidas do menor bom-senso, como a do Secretário de Educação de Roraima, e mesmo a defesa de uma “terceirização” do ensino público aos moldes do Chile ou Suécia, não se sustentam à luz de uma crítica técnica, e não contaminada pelo pragmatismo partidário.
Em momentos de alto ideologismo (como o que se vive hoje) é natural que surjam teorias conspiratórias, promessas messiânicas e falsos profetas que irão prometer expurgar da Terra a ameaça vermelha, ou por outro lado, combater o militarismo sem fardas. Nem uma nem outra demonstram resolutividade quando se pensa em um país que, para voltar a desenvolver-se, precisa superar a grave crise que vive, crise essa que não é só econômica, mas também de valores, onde a Educação perdeu seu real sentido, que é o de promover a transformação do homem dentro da sociedade, assegurando-lhe a capacidade de alcançar prosperidade, com o devido senso crítico para analisar a realidade à sua volta.
Encerrando essa narrativa, que já se alongou por demais, faço minhas as palavras do Professor Pandolfo que, a meu ver, define acertadamente aquilo que o cidadão e o Estado devem esperar do ato de educar, portanto, devem cobrar da Escola:
“mais importante do que os números, conseguimos mudar a mentalidade das pessoas, e dos políticos, convencendo-os de que a Educação não dá saltos, ela é fruto de um trabalho organizado e contínuo, que quando bem realizado dá frutos”.
Professor Sérgio Soares