Assessor ou Acessório? A história de Ascânio, o funcionário “necessório”.

Reza uma daquelas lendas urbanas, que existiu um sujeito chamado Ascânio, cuja história ficou marcada pelo seu discurso de despedida, em sessão solene de homenagem quando da sua aposentadoria. Se ele realmente existiu, ninguém sabe, mas o fato é que seu discurso é emblemático quando o assunto é o assessoramento político ou administrativo de autoridades.

Ascânio era um daqueles sujeitos boa praça, bem quisto por todos, que esbanjava simpatia e educação, sempre tratando com a mesma cordialidade e respeito, do gari ao Juiz. Sua história de vida confunde-se com sua trajetória profissional, funcionário de carreira em uma repartição pública, passou boa parte dos seus 30 anos de trabalho, dedicando-se à função de Assessor de Gabinete da Presidência da casa.

Sua marca sempre foram os costumes (de alfaiataria, e sob medida), claros para os eventos vespertinos (inclusive no dia-a-dia da repartição), e escuros, como manda a etiqueta, para eventos após as 18h. Fora a vestimenta, sua eloquência e preciosismo com o uso da Língua Portuguesa também lhe renderam vários elogios, pois sempre que perguntado sobre o significado de alguma palavra, à reposta se seguia uma explicação etimológica, elucidando assim a ancestralidade daquele vocábulo, como ele bem gostava de dizer.

No desempenho de suas funções era discreto e eficiente, ficando a seu cargo as tratativas com outros órgãos de governo, e repartições, bem como o acolhimento das demandas vindas da sociedade civil, às quais respondia com presteza e exatidão. Sempre que o Presidente da casa necessitava despachar sobre determinado assunto, era com ele que se reunia previamente, o qual lhe entregava de maneira pormenorizada o tema do despacho e suas implicações políticas externas e internas, tudo devidamente detalhado em corretíssimos briefings.

Passados trinta anos de efetivo exercício de suas obrigações, quando de sua despedida da repartição, Ascânio fora surpreendido por uma homenagem solene, organizada pelo Gabinete (com a anuência do Chefe maior), no Salão Nobre da instituição. Para ela foram convidados todos os Presidentes que com ele trabalharam, bem como autoridades representativas de outras esferas, e colegas de trabalho em atividade, e os aposentados também.

A cerimônia teria sido perfeita, senão fosse uma gafe cometida pelos organizadores do evento (que não teve como passar em branco), pois no momento em que o dirigente daquela Sessão Solene procedia à entrega da homenagem (um Diploma e um relógio banhado a ouro), a plateia ficou estupefata ao ver projetada em uma grande tela a imagem do documento, que apresentava a palavra Assessor grafada erroneamente: onde deveriam haver os dois “esses”, algum desavisado grafou um “cê”, ficando assim escrito “Acessor”.

Passado o mal-estar geral, com um imediato pedido de desculpas apresentado pela mesa diretora, assegurando a troca imediata do diploma por outro corretamente escrito, foi franqueada a palavra ao homenageado, para que este fizesse seu discurso de agradecimento. E foi assim que Ascânio deixou gravada para a posteridade, sua última fala enquanto servidor daquela casa:

“Excelentíssimo Senhor João de Deus, Presidente desta casa que me recebeu há exatos 30 anos, ao saudá-lo deixo aqui registrada minha saudação às demais autoridades presentes, colegas e familiares. Neste momento em que a emoção e a razão estão em batalha lancinante dentro do meu peito, peço vênia à Vossa Excelência para fugir do protocolo, evitando assim que minha fala seja abafada pelas lágrimas de emoção, que insistem em tentar rolar. Portanto, seguindo o rito ao qual fui afeito durante o tempo em que ao seu lado estive, gostaria de sugerir uma correção, que espero não a entenda como desagravo, nem tampouco, crítica.

“Senhor Presidente, a palavra Assessor, tem origem no latim “assessor” ou “assessoris”, e é um substantivo simples que tem como significado aquele que dá assessoria, auxilia, exercendo atividades e/ou cargos com o intuito de ajudar alguém em suas tarefas ou funções, tendo como sinônimos os vocábulos adjunto ou assistente, dentre outros.

Portanto, Senhor Presidente, ao grafar no honroso diploma que ora recebi, o referido vocábulo com a letra “C”, criando assim um neologismo na Língua Portuguesa, creio que esta mesa estivesse pretendendo me comparar aos “ACESSÓRIOS” de um automóvel, daqueles bem sofisticados – e de última geração – que valorizam sobremaneira o veículo, elogio que agradeço penhoradamente, mas creio não ser digno de recebê-lo. Sendo assim, ao invés de ter-me em tão alta conta, prefiro que guarde desse auxiliar a lembrança daquele que tentou ser, antes de mais nada, “NECESSÓRIO” a Vossa Excelência durante a prática de suas atividades profissionais. Muito obrigado, e uma boa noite a todos!”

Professor Sérgio Soares

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