Sobre liberdade de escolhas e responsabilidade

“Tudo me é permitido“, mas nem tudo convém. Com essas palavras o evangelista Paulo exorta os Coríntios sobre a necessidade da responsabilidade sobre os próprios atos, isso há mais de 2.000 anos atrás. Contudo, esse chamamento continua tão pertinente hoje, quanto nos tempos da cristandade, isso porque a sociedade vive tempos de liberalismo, onde tudo se faz e tudo se fala, e quanto a isso não pode haver questionamento sob o risco de incorrer no cerceamento da “liberdade” do indivíduo, ainda que as consequências advindas dessas escolhas possam trazer efeitos deletérios não apenas a quem as produziu, mas como também a toda a coletividade.

Vejamos por exemplo, mal começado o ano de 2020, a crise criada entre Irã e Estados Unidos que tem deixado o mundo em alerta, sob o risco de um conflito armado que pode trazer riscos severos à segurança das nações. E por que isso aconteceu? Porque o Presidente Donald Trump fez uma escolha (ainda que teoricamente justificável) apressada, sem ouvir a comunidade internacional, portanto assumiu o risco e a responsabilidade sobre os eventuais danos que sua tomada de decisão pode vir a causar.

No cenário nacional vivemos algo parecido, mas sem o aspecto belicoso do colega estadunidense. O Presidente Jair Bolsonaro, decorridos mais de 12 meses do início de seu mandato, demonstrou coragem e assertividade no modo de fazer suas escolhas, como, por exemplo, na formação de seu Ministério, tomando para si a responsabilidade, e o peso da caneta, quebrando assim uma tradição de indicações partilhadas (ou negociadas?) com o Parlamento.

Acertou em muitas dessas decisões, como Infraestrutura, Justiça e Segurança Pública e Economia, em outras pastas, nem tanto, como no caso do Ministério da Educação, haja vista o sem número de polêmicas criadas desde a mudança de governo. Mas ainda assim (ponto a seu favor), por pressão ou consciência do equívoco ocorrido, ainda sabe voltar atrás e corrigir, antes que o estrago se torne maior, basta ver o exemplo recente do Secretário de Cultura, exonerado após uma infeliz “coincidência”, segundo o próprio.

Em nosso estado, o Governador Romeu Zema, ao contrário do Presidente Jair Bolsonaro, preferiu franquear a responsabilidade pela escolha dos nomes da sua equipe, a uma personalidade virtual chamada “Processo Seletivo”. Acho que ele não atentou para o fato de que sua decisão poderia vir a ter um peso muito maior, do que se ele tivesse, de fato, assumido o ônus das indicações. Dentro da política, mesmo que acordos sejam feitos durante o período de construção da equipe (pensando na governabilidade do mandatário), eles têm vida útil previamente definida, que pode ser maior ou menor, de acordo com o Projeto de Governo, e o acerto ou não das indicações e de suas ações.

Ocorre que, quando um mandatário faz a opção de não se expor (ou se arriscar) em suas escolhas, ele está automaticamente assumindo a responsabilidade de eventuais erros advindos dessa decisão, que se tornam muito mais difíceis de corrigir (tal como fez o Presidente Bolsonaro) justamente pelo fato dessas indicações (no caso mineiro) terem sido feitas com base (teoricamente mais uma vez) em critérios técnicos, portanto, substituir um membro da equipe com base em ineficiência (ou erros na gestão, por exemplo), pode colocar em risco a credibilidade de todo o processo de escolha anteriormente realizado, e que foi alardeado como inovador no processo de montagem de um staff de governo.

Na vida pessoal isso não é diferente, quantos de nós já não escolheu o caminho errado em uma rodovia, escutou a opinião errada em uma situação de escolha, ou mesmo imaginou que aquela pessoa, aquela profissão eram as opções corretas, e a vida sabiamente nos mostrou o contrário. E o pior disso tudo, além da sensação de incapacidade e incompetência é quando, ao invés de aceitar o fato como lição para não errar novamente, o sujeito se revolta contra tudo e contra todos, e transfere o ônus da responsabilidade para o outro – na verdade é muito mais fácil assim, dá menos trabalho, e não precisa encarar o problema (que é ele mesmo) de frente, portanto, não precisa mudar, até cometer o mesmo erro novamente, em um ciclo vicioso que só será quebrado às custas de muitas perdas e sofrimento.

Esse ano a capacidade de escolha de cada um de nós, será posta a prova novamente, pois é ano de eleição para os cargos municipais, e é justamente nesses momentos que, invariavelmente, cometem-se os mesmos erros e são feitas as escolhas erradas, motivadas por razões nem sempre republicanas, muitas vezes pouco louváveis. E o que acontece depois? Frustração, decepção, reclamações e protestos que transformam a “pobre” figura pública, que você ajudou a eleger, em algoz do povo, em larápio contumaz, em governante tirano, só que tudo isso estava escrito no contrato, (em letras miúdas) assinado no momento em que você registrou o seu voto. Mas passado o instante fatal do “CONFIRMA”, parece que essas pessoas passam a sofrer de uma amnésia seletiva (ou de uma absolvição celestial) que as tornam inimputáveis de culpa, e assim resistentes a qualquer tipo de crítica – a bruxa má – que insiste em assombrar o livre arbítrio do homem.

Via de regra, o ser humano não gosta de ser contrariado, talvez isso seja explicado por uma altivez conquistada no dia em que os primatas decidiram ficar eretos, e assim passaram a considerarem-se mais importantes do que seus pares quadrúpedes (só que existem ainda hoje animais de quatro patas com mais “humanidade” do que muitos Homo Sapiens). Ocorre, contudo, que imperfeito que é o homem falha, incorre em erros e se equivoca, e como é bom (e difícil) encontrar nesse mar de arrogância, um espécime da raça que saiba, humildemente, reconhecer seu erro – sinal de grandeza de espírito e consciência da falibilidade de suas decisões. Mas afinal, o que é a crítica?

A palavra crítica tem sua origem no Grego, com o verbo KRINEIN, “separar, decidir, julgar”, que originou o vocábulo KRITIKOS, “capacitado para fazer julgamentos”, relacionado a KRISIS, “julgamento, seleção”. Em Latim, CRITICA, “apreciação”, “julgamento”. Ambos os termos tem relação com a partícula do indo-europeu KREI-  “separar”, “peneirar”, portanto, crítica é a arte de julgar, de promover transformações em situações de crise, mas também é aquilo de serve de filtro, de peneira, para nossas atitudes e escolhas, ou seja, é o necessário (e saudável) olhar externo, de estranhamento ao fato, que pode trazer contribuições significativas ao processo de autoconhecimento e mudança do indivíduo Homem.

Dessa forma não se deveria falar em crítica positiva ou negativa, essa valoração do comentário (ou observação feita) sobre dado fato, tem mais a ver com o ego de quem a recebeu – laureado ou ferido – do que com a análise em si, visto que, conforme demonstrado pela etimologia da palavra, toda e qualquer crítica, antes de ser vista como julgamento de valor, deveria ser encarada como um filtro, filtro esse necessário à exortação de um acerto, ou a correção dos seus desvios de sentido, com vistas à adequação ao seu objetivo inicialmente proposto.

Portanto, quando você for criticado por um texto que escreveu, por uma atitude que tomou, por uma fala que proferiu, ou ainda, quando alguém criticar essa ou aquela proposição de seu político de estimação, não se revolte nem se irrite. Mesmo vindo dos lábios daquela pessoa sabidamente ferina, esse “novo olhar” sobre o fato pode, e irá certamente, contribuir para que você seja mais cuidadoso em suas futuras escolhas. E lembre-se, “Tudo me é lícito”, mas será mesmo que tudo me convém?

Professor Sérgio Soares

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