A Praça de Nossa Senhora do Rosário no “31 de Março”

20.07.2004

Dia desses estava eu sentado na porta de casa quando meu vizinho, o Sô Lazin, uma figura folclórica aqui em Morro Grande, famoso pela prosa solta e pelas mentiras mais soltas ainda, veio me contar a versão nativa do episódio histórico de 31 de março de 1964, quando o “General Popeye” dirigiu-se com suas tropas para o Rio de Janeiro, passando pela região.

Segundo o velho Lazin, naquela manhã de março, a cidade acordou mais cedo com uma movimentação diferente na Praça de Nossa Senhora do Rosário – barracas de campanha, soldados, obuses e caminhões invadiram o prazível espaço transformando-o num cenário de guerra. Logo, logo as ruas se encheram de curiosos que começaram a construir as mais diferentes conclusões sobre o ocorrido, mas, de acordo com o velho, até hoje se acredita que aquela era uma manobra dos alemães que vieram tentar estabelecer na alvissareira Morro Grande um novo posto do Reich Alemão, e que o próprio general era descendente direto do Herr commandant . Esse episódio não durou mais do que um dia, mas foi o bastante para que a cidade sofresse uma revolução, maior que a de 64.

Ao desembarcar de seu veículo, o Comandante logo se dirigiu à Casa Paroquial onde imediatamente destituiu a autoridade maior da cidade, o clero, de sua morada e estabeleceu naquele domicílio o centro de comando das operações abancando-se da cama do pobre pároco.

Contam que ele era uma figura esquisita, meio caricata, com um cachimbo sempre colado à boca, e um ar de constante prisão de ventre, ou nas palavras do velho Lazin, cara de peido. Ao falar, suas palavras sempre soavam como em um discurso de tribuna, alteando os finais de frase, o que realçava a impressão de que era uma pessoa com constantes problemas intestinais que, para segurar os ímpetos viscerais, espremia a voz e depois à soltava em alto som. A própria tropa comentava à boca pequena que durante as noites de campanha era comum vê-lo num vai-e-vem às casinhas.

Nunca Morro Grande ficou tão movimentada; as crianças, como pequenos silvícolas que recebem a visita do homem branco, encantaram-se com o poderio bélico daquele grupo. E não era pra menos, estava ali colocado o contingente de uma região militar inteira, que estava preparada para defender o solo pátrio da ameaça comunista, até o último homem.

Além dos pimpolhos, as jovens moças da cidade adoraram a movimentação dos rostos camuflados, elas que até então estavam acostumadas com o cheiro de bosta de boi dos peões da cidade, encantaram-se com o odor do diesel dos veículos e do chumbo da munição. A cena lembrava um pouco os tempos da Roma antiga, quando os soldados romanos conquistavam a terra, mas também o coração das aldeãs com o seu charme aquilino, barba feita, banho tomado e cuecas (coisa de romano), mas que era uma invenção altamente sensual para aquelas jovens bárbaras acostumadas com o cheiro de estrume de seus machos. Por isso, na bela Morro Grande aconteceu um fato que ficou famoso na memória do povoado, e até hoje é falado pelas tricotadeiras de plantão.

Na cidade existia uma linda moça, morena cabocla, de cabelos longos e ondeados como as corredeiras do Paraibanha, pele da cor da jabuticaba e olhos negros como a noite. Esse belo espécime de fêmea era famosa, não só pela beleza, mas também pelo pudor com que fora criada pelos pais. Porém, por trás daqueles belos olhos, escondia-se um braseiro adormecido aguardando ser ateado. Essa jovem chamava-se Maria e era filha dos donos da pensão, que fora “confiscada” pelo “General Popeye” que os incumbira de fornecer água e alimentação para a tropa.

No exercício do “serviço militar” Maria teve que ajudar os pais e, nesse contato, conheceu um jovem soldado, famoso entre a tropa pela boa lábia com as donzelas. Não demorou nada para que a boca de Maria estivesse colada à boca do Dom Juan belicoso. O curioso do acontecido não foi o beijo, mas na verdade a série de beijos que aconteceram em seguida – Maria, que era até então contida e recatada, viu seu fogo se acender e tomar conta de seu corpo juvenil; segundo o velho Lazin a moça ficou famosa na cidade por ter beijado, numa tarde, um pelotão inteiro, com cinquenta homens, tendo ganhado a alcunha de Maria Batalhão. Ainda, segundo meu vizinho, esse recorde não foi quebrado até os dias de hoje e conclui sabiamente: água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer, ninguém segura.

Dentro do plano de conquista do “General da Banda” era necessária a tomada de todos os pontos estratégicos que circundavam a cidade, garantindo, assim, total domínio sobre as entradas e saídas e consequente controle sobre o acesso à cidade do Rio de Janeiro, objetivo principal da empreitada. A Rua do Rosário, a Rua do Aristides, a Peneira, a Rua do Rocio e todos os outros pontos estratégicos foram devidamente entrincheirados, mas restava um problema, Morro Grande é uma cidade encaixada dentro de um vale, cercada de um lado pela altivez da Pedra do Paraibanha vislumbrando o horizonte, e de outro por uma série de matas e serras menores, sendo uma das mais estratégicas a Grota dos Macacos. Como era uma região inóspita, e o tempo era pouco para fazer um reconhecimento, Herr Commandant ordenou que fosse convocado à prestar serviço pátrio o melhor mateiro da região.

Sô Lazin, conta esse ocorrido com um sorriso largo nos lábios. Na cidade existia um rapaz famoso pela coragem e bravura, daqueles que pegavam o touro pelo chifre, mas também por conhecer cada trilha, cada mato, cada canto da região. O rapaz, de pele avermelhada, tinha, por isso, o apelido de índio e quando foi apresentado ao General demonstrou-se soberanamente insubordinado e só aceitou a empreitada quando foi convencido pela ponta da baioneta.

Assim sendo, diante de argumentos tão fortes, saiu com dois grupos de batedores e um sorriso “resignado” no rosto. Lazin conta que o índio era moço de caráter exemplar, mas que não aceitava cabresto fosse de padre, polícia ou prefeito – o único cabresto que havia permitido receber fora da sua preta, que havia domado aquele cavalo chucro.

Chegando ao pé da Pedra do Paraibanha indicou a trilha aos batedores, e logo já se viam no alto do monumento as bocas dos canhões mirando ao longe. Seguiu caminho e adentrou a Grota dos Macacos com o grupo de combatentes. À beira da trilha indicou para os jovens soldados o “melhor caminho”, deu de costas e saiu rindo matreiro. Conta o velho Lazin que até hoje, quando se entra na Grota, é possível ouvir os tiros de fuzil dos soldados perdidos que nunca mais foram vistos.

Na manhã seguinte, a Praça de Nossa Senhora do Rosário já havia reconquistado sua independência, as barracas, as tropas, os soldados o General e toda sua Banda já haviam se retirado. O pároco já voltara a ocupar a posição de Senhor do seu feudo, e a vida simples daquela gente havia tomado seu curso. Na memória ficaram as estórias que compõem uma parte da história do Brasil. Verdadeiramente verossímil ou verossimilmente verdadeira ninguém sabe, o que é certo é que causos como esse que o velho Lazin me contou é que constroem a cultura de um povo.

Quando perguntam ao velho se ele não exagerou, um pouco além da conta, ele se enfurece dizendo que tudo é verdade, das verdadeira, mas talvez meu velho amigo pudesse apenas repetir uma frase célebre de um outro contador de causos, famoso na literatura brasileira, de nome Chicó, que quando perguntado sobre a veracidade de suas histórias, sabiamente respondia: —— Num sei, só sei que foi assim!    

JRO 

****Em pleno exercício do gozo de minhas férias até 19.01.2020****

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