24 de Dezembro já está se aproximando de novo, e no último Natal que passei (em 2018) me pareceu que o “Bom Velhinho” se despiu da tradicional roupa vermelha, cortou a barba branca e jogou fora os tradicionais presentes, para assumir um visual mais apocalíptico – bem no estilo Grynch – vestido de verde, com um mau humor infernal e um saco cheio de maldades e travessuras, posto que:
Nesse ano, logo no primeiro mês, 2019 já foi arrasado por um mar de lama e sangue em uma das maiores tragédias não naturais da história recente do Brasil e, se não bastasse essa, foram outras duas, logo nos meses seguintes – o incêndio no “Ninho do Urubu” que tirou a vida de 10 adolescentes no Rio de Janeiro, enquanto que, em São Paulo, uma dupla mais-que-imperfeita, resolveu brincar de Pulp Fiction, e arrasou a Raul Freire, deixando um rastro de luto e dor.
Nesse ano, a política que viveu um processo de transformação histórico após as Eleições para Presidência da República (onde a Esquerda perdeu sua hegemonia, e foi derrotada por um projeto de Direita), passou por tantos revezes durante os últimos 11 meses, que o Presidente hoje não tem mais partido, o Ministro da Justiça e Segurança Pública virou réu e o Congresso Nacional protagonizou cenas de amor – na mais bela representação do toma lá dá cá – e ódio – com a troca de farpas e tiros entre “colegas” da mesma bancada – assim quem era amigo virou inimigo, e quem era “pró” virou “contra”.
Nesse ano, a Justiça nos fez ter a certeza de que nem sempre a balança é justa (e pende para o lado correto), e que ainda vale no Brasil a Lei do “compadrio” e do “rabo preso”, onde cavaleiros e damas togados, decidem não mais baseados em critérios técnicos e constitucionais, mas sim em conveniências político-ideológicas (decisões essas tomadas para salvar a pele de apenas um), que podem colocar em risco toda a sociedade, devolvendo para as ruas a pior estirpe do mundo do crime. Enquanto isso, milhares aguardam reclusos em uma cela, a boa-vontade da “Dama de olhos vendados”, que é tão célere para poucos, e tão morosa e injusta para a maioria.
Nesse ano, o mundo ardeu em chamas, primeiro na Amazônia, depois no Cerrado, depois na Califórnia e hoje na Austrália, mas somente contra o Brasil os arautos do Meio Ambiente, como Gretas e Macrons, destilaram sua ira contundente, e seu discurso reprobatório, como se aqui fosse o pior lugar do mundo para se viver. Enquanto isso, no mundo real, o fogo consumiu vidas na África, e a queima do carvão, que alimenta as usinas de energia na Europa, continuou em brasa viva.
Nesse ano, a Educação Brasileira mostrou (mais uma vez) que está no ritmo e no caminho errados, com um início tumultuado e troca de Ministros no MEC, mas mantendo uma política educacional para o país que tem mais de ideológica, do que de técnica. Enquanto isso, as universidades patinam no que diz respeito à qualidade de ensino e produtividade acadêmicas, e o Ensino Básico sofre com o total descaso por parte dos entes federados que, mais preocupados com suas agendas orçamentárias e políticas, se esquecem de que a Educação é um Direito Universal, força transformadora de uma Nação, e que só através dela é possível transformar as pessoas, e mudar as suas vidas. Portanto, deve ser construída com base em políticas de estado, e não de governo, que estarão sempre sujeitas aos modismos e humores dos mandatários, como hoje ainda vemos acontecer.
Nesse ano, em Minas Gerais, os servidores terão que se contentar com galinha, ao invés de Peru, nas festividades natalinas, isso porque o estado só garantiu o pagamento do 13º salário para uma categoria, a da Segurança Pública, e para as outras duas – Educação e Saúde – tomou uma postura bastante Salomônica, atendendo apenas a parcela de menor remuneração (definição baseada no caráter social, segundo o governo), mas, curiosamente, essa parcela corresponde a mais de 60% dos servidores, números alcançados a partir de uma aritmética que eu realmente ainda não entendi. Na verdade, apesar da situação orçamentária ser muito limitadora, o que se viu em Minas no ano de 2019 foram uma série de políticas nada isonômicas, onde de acordo com o desgaste político previsto, certa categoria foi claramente beneficiada, em detrimento das outras que, com menos prestígio (ou menor poder de barganha) foram esquecidas no fundo da gaveta. E ao que tudo indica, em 2020, essa política deve ser mantida.
Nesse ano, mais de mil municípios foram encaminhados para a extinção, como se uma tragédia de efeitos cataclísmicos (como a que tirou do mapa os dinossauros) os pudessem atingir. E na cauda desse cometa, pagam os justos pelos pecadores, todos colocados no mesmo cesto, como se possível fosse “eliminar” o município, sem afetar a vida dos munícipes, esses que continuarão dependendo da máquina estatal para dar conta da sua educação, saúde, segurança e empregabilidade.
Portanto meus caros, é Natal justamente porquê essa é uma data para ser vivida intensamente (em tudo que ela é capaz de simbolizar – seu significado traz o sentido de nascimento), ainda que em 2019 não tenhamos tido muitos motivos para sorrir e comemorar. Mas não me refiro aqui apenas ao caráter religioso da celebração, em respeito às diversas crenças que não tem essa como uma data importante em seu calendário.
Penso que o seu verdadeiro espírito não está na troca de presentes – ou na partilha do alimento em torno de uma mesa – mas sim na oportunidade do reencontro, do recomeço, da alegria e da esperança, certeza de que – ao menos em um dos 365 dias do ano – ainda podemos voltar a ser como crianças que, com sua pureza d’alma, esperam com ansiedade a chegada das boas novas, representadas pelo “Bom Velhinho”.
Minha experiência com essas festividades evoca na memória os Natais da infância onde, apesar de viver em uma casa muito simples (e muito pequena), no dia 24 de dezembro ela se transformava e, como que num passe de mágica, ficava enorme para receber todos os parentes, cada um trazendo seu quitute, sua contribuição para ser partilhada durante a Ceia, que se não era rica em sofisticação no cardápio, era pródiga e farta no carinho e no amor colocado em cada prato, e partilhado entre os parentes.
E sei que essa não é uma experiência exclusiva, nem quero fazer crer que o espírito desta data seja apenas a festa. Muito pelo contrário, conheço histórias de tantas outras casas que, sob o zinco de uma varanda simples, ainda mantém vivos o espírito do reencontro e da reunião da família (que ultrapassa os laços de consanguinidade) e, ainda que falte o peru e o vinho, comemoram e se fartam com o frango e a maionese, com a farofa e com a cerveja, esquecendo-se nesse dia das divergências e das desarmonias, celebrando com a mesma intensidade e brilho, das fartas e sofisticadas ceias das casas abastadas, onde nem sempre o mesmo espírito se faz presente.
Mas apesar de não existirem mais na minha vida os “Natais da casa velha”, até hoje essa é a data que me desperta mais emoções (muito vívidas), sejam nas canções natalinas, sejam nos enfeites das ruas e das casas, ou mesmo nas campanhas de TV, isso porque – tal como nas Madeleines, de Proust, Em busca de seu tempo perdido – os cheiros, os sons, os brilhos e as cores me fazem voltar a ser como criança – e por isso acreditar que ainda há esperança, que a vida ainda possa melhorar e menos tragédias possam nos surpreender; e que a Política possa voltar a ser, tal como na Polis grega, uma missão, cumprida em prol dos interesses da coletividade; e que a Justiça de fato possa ser justa, para todos e de igual forma; e que o respeito à dignidade da pessoa humana, aos seus direitos essenciais, possa ser tão importante quanto o destaque dado às causas ambientais; e que a Educação possa se tornar, de fato, Universal para todos, e com a mesma qualidade; e que à mesa dos pais e mães de família, em especial dos servidores públicos das “minhas Gerais”, não possa mais faltar o básico, tendo todos os mesmos direitos e garantias respeitados e, por fim, que aqueles cidadãos, possíveis vítimas do cataclismo político que será a extinção de suas cidades, possam reconstruir suas vidas com dignidade e com justiça, e o apoio da sociedade e do governo.
Por isso, desejando que o Natal de 2019 seja o melhor da vida de cada um daqueles que leem e compartilham minhas estorietas, esse escrevinhador de textículos deixa aqui seus mais sinceros votos de esperança, paz e alegria, na expectativa da chegada de um Novo Ano, que venha trazendo consigo somente Boas Novas, pois, como bem define Ariano Suassuna,
“Não sou nem otimista, nem pessimista.
Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos.
Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança.
Sei que é para um futuro muito longínquo.
Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.”
Professor Sérgio Soares