Posso dizer que tive a sorte de poder acompanhar a liberação do acesso à internet para o público em geral, porque aqui no Brasil, até então, ele era restrito aos núcleos e grupos de pesquisa do ambiente acadêmico. O ano era 1994 e nessa época eu era técnico-administrativo em educação de uma universidade. Foi a partir desses incipientes acessos à rede, que comecei a dar meus primeiros passos rumo a essa trilha tecnológica, que se mostra a cada dia mais deja vú dos filmes de ficção científica que marcaram minha adolescência – Perdidos no Espaço, Jaspion, 2001 uma Odisseia no Espaço, Jornada nas Estrelas, Blade Runner, dentre outros.
Durante esses vinte e cinco anos também vi a forma de acesso mudar: do discado infernal, para a conexão em banda larga por fibra ótica de alta velocidade; os equipamentos mudaram dos PC’s (386, 486 e da inacreditável linha Pentium), para os cada vez mais compactos e potentes Smartphones, Tablets e Ipads. E o conteúdo também mudou, passando das páginas estáticas, para as de conteúdo dinâmico atuais, que apresentam desde animações cada vez mais bem elaboradas, até os filmes, jogos e séries que até então só podia assistir na TV ou no Cinema. Mas, talvez, a mudança mais radical e suscetível às subjetividades do usuário da rede, foi a entrada dessas novas tecnologias em sala-de-aula – mudança paradigmática que atingiu diretamente a vida do professor, e dos alunos.
Não vim aqui hoje com o propósito de discorrer, ou fazer uma defesa enfática, sobre a “Influência das Novas Tecnologias na vida do Educando e do Educador”, não. O propósito desse escrito é falar sobre Ideologia e medo, dois temas tão distintos, mas ao mesmo tempo tão recorrentes, na vida de quem precisa lidar com tecnologias de aprendizagem. E o mote para essa análise veio de uma matéria publicada no Jornal El Pais, onde mostra que a França pretende proibir o uso de telefones celulares nas escolas, para crianças e jovens até 15 anos, sob o argumento de que assim as estará protegendo dos perigos e do assédio na internet, e também porque o Ministério da Educação francês considera que o uso do aparelho atrapalha no processo de ensino-aprendizagem, por tirar a concentração e diminuir a interação das crianças e jovens no espaço público.
Quando afirmo que a postura do governo Francês é demonstração de um conservadorismo exacerbado, e um nacionalismo profundo que busca revitalizar a imagem de uma França que se perdeu no tempo e no espaço (em valores e em prestígio), pode parecer um exagero, ou mesmo uma afirmação falaciosa para quem não acompanha as publicações do jornal latino como eu faço, mas basta voltar a ler algumas edições anteriores para entender que há muito mais de ideológico, do que de metodológico nessa narrativa.
Além da proibição do uso de celulares, o Ministério da Educação Francês preconiza em seu modelo de ensino, um reducionismo no processo de ensino-aprendizagem da Educação Infantil, dando ênfase ao reforço de habilidades básicas como ler, escrever e contar, como se essas três habilidades pudessem dar conta sozinhas de todo o quadro de competências cognitivas, sensoriais e relacionais necessárias a esse período formativo.
Eu poderia até acreditar que esse é um bom projeto de escola (caso fosse um leitor desavisado e ingênuo), isso porque essas iniciativas – e aí se inclui o retorno das aulas de Latim e Grego à grade das escolas – surgem como resposta ao debate sobre a inserção de novas tecnologias no ensino (dentre as quais a internet é um exemplo), e que é recorrente em vários os Sistemas de Educação da Europa, e de outras partes do mundo.
Segundo, o Ministro da Educação da França, Jean-Michel Blanquer, “Devemos estar atentos para que este novo mundo, caracterizado pela Internet e as novas tecnologias, não nos dê soluções enganosas. Quanto mais entramos neste mundo em que temos que saber programar, mais interessante é conhecer a história grega e latina” em uma construção retórica que associa tecnologia ao algoz, e o classicismo ao herói capaz de contrapor essas vilanias do “novo mundo”.
A verdade é que, nem dentro da França, o projeto educacional proposto por Blanquer é visto como inovador ou coerente, ao contrário, entendem que ele não discute com profundidade as questões pedagógicas que propõem alterar, permanecendo no raso de um discurso que, por ser mais ideológico do que metodológico, não se consubstancia em um modelo de ensino que vá promover melhorias na educação dos jovens franceses.
Antes disso, se atém a questões periféricas como a revitalização do ensino das línguas clássicas (sem torna-las obrigatórias), à restrição ao uso de aparelhos celulares nas escolas sob uma falsa alegação de vigilância e proteção. Mas ao mesmo tempo em que proíbe, permite que eles sejam usados em atividades pedagógicas (algo contraditório). A própria questão do respeito, posta como se fosse uma das habilidades básicas esperadas dos infantes (ler, escrever e contar), segundo os críticos franceses, nada mais é do que uma forma de aumentar o controle sobre a comunidade muçulmana, com forte presença dentro do país (na França, país laico, o estado não promove ou estimula nenhuma crença religiosa).
Mas esse foi apenas o mote para entender, de fato, o porquê do temor quando o assunto são novas tecnologias, tecnologias essas que se apropriaram de espaços que até então eu só conseguia ver dentro das telas de cinema. O telefone, por exemplo, até o século passado ainda era nosso principal meio de comunicação – primeiro falando, depois trocando mensagens de texto via SMS que evoluíram para as mensagens via WhatsApp, e depois para as comunicações por voz e vídeo (tal qual os comunicadores utilizados pelo Capitão Kirk e a tripulação a bordo da Voyager).
Ainda assim era um telefone, que ganhou o apelido de inteligente (Smart), mas que em tese se restringia a falar e ouvir o que alguém queria nos dizer. Com a recente mudança das plataformas de acesso a rede, esse comunicador virou também uma ferramenta de pesquisa (e de acesso à internet), transformando-se, então, em um pequeno computador de bolso. Só que hoje em dia ele ganhou novas funcionalidades tais como ligar o carro à distância, controlar os sistemas de automação inteligentes das novas residências – abrir portas, ligar e desligar alarme, acionar o sistema de ar condicionado, controlar a TV – dentre outras funções. Então, porque motivo essa ferramenta tão útil se tornou a bruxa má, que merece ser queimada na fogueira, quando o assunto é Internet?
Estudo recente publicado no relatório “Digital in 2018: The Americas” mostra que 62% da população brasileira está ativa nas redes sociais. Dentre as mais acessadas estão o YouTube, com 60% de acesso, o Facebook com 59%, o WhatsApp com 56% e o Instagram com 40%. Segundo dados da revista Exame “Com 130 milhões de usuários mensais em atividade, a rede social Facebook é uma das redes com o maior número de brasileiros. Anualmente sua base de usuários cresce na escala de 7%, conforme análise do ano de 2017 – registrada no relatório mencionado. A navegação através do celular também já é a mais comum, sendo que 92% dos usuários acessam o seu feed pelo aplicativo mobile”.
Em parte está explicada a popularidade dos Smartphones quando o assunto é comunicação digital, pois além de estarem presentes nas classes mais empoderadas, estão também nas de menor poder aquisitivo, fato comprovado por pesquisa realizada pela FGV, recentemente publicada, que aponta que no Brasil existem hoje 230 milhões de Smartphones ativos, sendo dois dispositivos digitais por habitante, incluindo aí smartphones, computadores, notebooks e tablets. Ou seja, posso afirmar, sem parecer exagerado, que o telefone celular é hoje a ferramenta de comunicação mais popular do país.
Porém ainda fica a questão principal sem resposta – porque uma ferramenta tão útil, e popular como essa, pode ser alvo de tantas críticas quando tratamos da relação entre processos de ensino-aprendizagem e tecnologias? A França é um exemplo dessa resistência, mas não é o único, pois aqui no Brasil o mesmo acontece, em especial quando se trabalha com a Educação Pública.
A explicação para esse problema é que, senso comum, quando se fala em tecnologia e internet a primeira associação que se faz é com o acesso ao Facebook, WhatsApp e Instagram, como se a parte pudesse representar o todo. Sim, no que diz respeito a isso existem problemas, mas que não estão nas redes, e sim na forma como os usuários se comportam dentro delas. Por isso, a justificativa para esses “comportamentos” vai além desse textículo, por adentrar questões relacionadas ao modo de vida contemporâneo (cada vez mais isolado e centrado no ensimesmamento), e também filosóficas e psicológicas (que remetem, também, a uma mudança nos relacionamentos humanos). Contudo, demonizar um telefone por conta dos problemas causados pelo uso equivocado das redes sociais (ou transtornos causados por esse mau uso), é como culpar o nordestino pela seca do Nordeste.
O mundo evoluiu e por conta disso as tecnologias que eu só conseguia ver nos filmes de ficção também evoluíram, e estão cada dia mais presentes (ou possíveis) no dia-a-dia das grandes cidades, como os sistemas de inteligência artificial (Joice e BIA são exemplos disso), os veículos de transporte público autônomos (que já são quase uma realidade), a internet das coisas e a impressão em 3D, mas também dentro do espaço pedagógico, pois a Escola descobriu hoje que essa união estável – Educação e Tecnologia – pode ser uma relação promissora. Exemplo disso é que existem hoje uma série de recursos que podem complementar, e melhorar, o sistema de ensino, tais como: o armazenamento em nuvem; o Microlearning e o Blended Learning (ensino híbrido – presencial + EAD); a Inteligência Artificial (IA); a Realidade Virtual e Aumentada e o Edutainment (gamificação). Todas essas, são tecnologias educacionais que podem (também) ser utilizadas em sala-de-aula através de um smartphone.
Portanto, a justificativa para o não-uso do aparelho em sala-de-aula, baseada em acesso a sites proibidos, desconcentração do aluno e comunicação não autorizada em redes sociais, perde o sentido porque existem filtros na própria rede wireless da escola, que definem o tipo de site e conteúdo a que os alunos poderão ter acesso. Mas o problema não está aí, e sim na forma como o homem enxerga sua relação com a tecnologia (que sempre foi de temor e ameaça), basta lembrar do livro “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley ou do filme “Matrix”, onde a relação entre máquina e homem era marcada pela dominação de um em relação ao outro.
Ainda nos meus tempos de faculdade (no curso de Letras), acompanhei o surgimento dos e-books, onde há época se dizia que todos os livros iriam desaparecer (e isso não aconteceu), depois quando os jornais começaram a migrar para as plataformas digitais, que o impresso sumiria (também não sumiu), com o surgimento do Youtube falava-se do fim das rádios e TV’s abertas, que não sumiram, mas foram obrigadas a disponibilizar conteúdo na grande rede.
Como espero ter consigo demonstrar, sempre existirão discursos de viés ideológico que irão tratar as tecnologias como meio de massificação (basta ver o exemplo recente das últimas eleições presidenciais) e perversão e crime (a Deep Web é prova disso), da mesma forma que sempre existirá o medo de que essas novas ferramentas diminuam postos de trabalho, e entre professores esse discurso é ainda mais comum, e a prova disso é que ainda conheço colegas que não acessam e-mail, em uma quase total tecnofobia. Para esses o futuro reserva um choque de realidade quando, conformados ou não, convictos ou não, terão que se render às facilidades de uma CNH digital (apresentada ao guarda de trânsito pelo celular em uma blitz), ou quando forem realizar uma compra, e precisarem fazer a leitura do QR Code do produto através do Smartphone.
Mas a grande verdade desse textículo é que ir contra a realidade dos fatos, é como enxugar gelo – as tecnologias foram criadas pelos homens, para melhorar a vida dos homens e na Educação não pode ser diferente. Por isso não adianta se apoiar em uma retórica conservadorista que prega que “no tempo das professorinhas era melhor”, por isso Ler, Escrever e Contar basta, porque a sociedade (e as nossas crianças e jovens também) mudou, portanto temos a responsabilidade de oferecer um sistema de ensino eficiente e eficaz, e que oportunize todas as possibilidades que esse “novo mundo”, como disse Blanquer, pode oferecer. Então, afinal, você tem medo de quê?
Professor Sérgio Soares