“Educação é coisa séria” : investir agora, para não gastar depois!

Em uma semana cheia de notícias sobre Educação, não poderia encerrá-la sem trazer à baila a discussão sobre esse, que é um tema muito polêmico, e vem ocupando o cenário político local e nacional – como implementar ações efetivas para a melhoria dos indicadores, e mudança dos paradigmas  adotados em sala-de-aula, que se demonstram mais ineficientes a cada dia? Afinal, Educação é investimento ou despesa? Para responder a essa questão vamos dar um giro pelo mundo, identificando as boas práticas de ensino, e discutindo a relação entre eficiência e eficácia no investimento público.

Japão – reconhecido como o país da gentileza e dos bons hábitos, o sistema educacional japonês é baseado na formação do caráter das crianças primeiro, para depois se preocupar com a aquisição de conhecimento, por isso, os primeiros anos da vida escolar japonesa são dedicados ao desenvolvimento do respeito pelo próximo, compaixão e generosidade, bem como a introdução de conceitos de certo e errado, justiça, autocontrole e determinação. Essas habilidades estabelecem o equilíbrio necessário para alcançar sucesso dentro da sala de aula, e por todo o resto da vida desse estudante.

Finlândia – país reconhecido por oferecer um dos melhores sistemas de ensino do mundo, e que tem como princípio a lógica do “menos é mais”.  Os professores na Finlândia gastam cerca de 600 horas anuais dentro da sala-de-aula, o que representa metade do tempo gasto pelos professores nos Estados Unidos, por exemplo. A vantagem de ficar menos tempo em sala, é que os docentes ganham mais tempo para investir em suas próprias habilidades e desenvolvimento profissional, o que tem como resultado uma maior qualidade, e não quantidade, de horas ensinadas. Ou seja, ganham os professores e ganham os alunos.

Singapura – país reconhecido pela melhor taxa de conclusão do período escolar na Ásia, e que tem como foco do seu sistema educacional, o investimento nas tecnologias para auxiliarem professor e alunos no processo de ensino-aprendizagem. Além disso, nos últimos anos, Singapura percebeu a necessidade de investir no que chamam de mindset, que nada mais é do que o desenvolvimento das habilidades emocionais, e de resiliência das crianças. Essas mudanças foram fundamentais dentro da sala-de-aula, e usadas para moldar a forma como as matérias são ensinadas, além de estimular a positividade na vida dos alunos.

Alemanha – neste país não se adota (nem se estimula) o ranqueamento e a disputa dentro do sistema de ensino, por entender-se que ao colocar pressão no desempenho sobre as crianças, acaba-se comprometendo todo o processo de ensino-aprendizagem. Lá também não existe a separação de turmas deficitárias, ou que apresentem alunos com dificuldades cognitivas ou de comportamento, sendo assim as escolas atuam de forma mais generalizada e compreensiva, permitindo que crianças de diferentes níveis possam aprender juntas, na mesma sala-de-aula. Segundo o entendimento dos alemães, isso diminui a segregação entre os estudantes, e aumenta a flexibilidade em lidar com pessoas diferentes.

O que há de comum entre esses quatro modelos de ensino, distintos entre si, mas com um objetivo em comum que é a formação qualificada das suas crianças, é a busca pela eficiência e eficácia no ensino. Mas o que diferencia a eficiência da eficácia?

Esses dois termos foram apropriados dos processos fabris, em uma linha de produção, onde ser eficiente consiste em fazer certo as coisas, ou seja, realizar as operações com menos recursos – menos tempo, menor orçamento, menos pessoas, menos matéria-prima, etc… Já a eficiência é fazer as coisas certas, ou seja fazer as melhores escolhas para que o nível de eficiência seja maximizado.

O investimento no PIB, por exemplo, no Japão é de 3,3% em Educação, abaixo do investimento médio global que é de 4,9%. Já a Finlândia investe 6% de seu Produto Interno Bruto, enquanto Singapura e Alemanha investem 3,7% e 4,8% respectivamente em educação, e ainda assim são referências internacionais com seus sistemas educacionais. Portanto, como se pode ver, investir muito não significa investir certo, o que é o caso do Brasil que usa 6% do seu PIB em Educação, contudo, não obtém o retorno esperado nos índices avaliativos, insatisfatórios no cenário internacional (63º em Ciências, 59º em Leitura e 65º em Matemática segundo ranqueamento do PISA), e no cenário nacional (5,5 anos iniciais, 4,4 anos finais e 3,5 no ensino médio, segundo o IDEB).

Reconhecendo que na última década e meia o governo federal investiu pouco, ou quase nada, na Educação Básica, direcionando todos os seus esforços para a melhoria do ensino superior, os números do último Exame Nacional de Avaliação do Desempenho Escolar – ENADE não justificaram os investimentos feitos, até então já que apenas 5,8% dos cursos avaliados em 2018 no ENADE conseguiram atingir a nota máxima da avaliação, Das faculdades privadas, apenas 3,3% conquistaram o conceito máximo (5) na avaliação; da rede pública, 20% dos cursos alçaram a nota 5 e mais de 300 graduações ficaram sem conceito na avaliação.

Com a mudança de governo, o MEC apresentou no correr do ano uma série de ações que pretendem modificar o cenário educacional brasileiro, atuando de forma crítica e incisiva nas universidades, reavaliando critérios e modelos de avaliação, com a intenção de melhorar seus indicadores. Contudo, os investimentos em educação básica ainda se demonstram tímidos, com foco na educação médio e tecnológica, com vistas ao resgate do prestígio da educação técnico-profissionalizante entre os jovens, em uma clara tentativa de desconstruir o “mito” da formação superior como melhor forma de realização financeira e profissional.

No cenário estadual, a nova administração do estado que herdou um passivo de problemas financeiros e de gestão (em especial na educação que amarga um péssimo resultado nos indicadores oficiais, e problemas ainda maiores dentro da Rede – infraestrutura, formação docente e contaminação por discursos alheios ao objetivo final da escola), seguindo o pensamento do governo federal, investe seus esforços hoje em uma “revitalização” do ensino médio, propondo um Médio para 2020 mais “colorido”, segundo palavras da própria gestora estadual de educação, com foco em um sistema integral (ou integralizado?) que valoriza a formação técnico-profissionalizante. Só esqueceram de explicar que esse projeto não contempla todos os alunos da rede estadual, nem em números absolutos, nem tampouco no que diz respeito aos turnos, já que essa “revitalização colorida” do Médio não atinge os alunos que cursam o turno noturno, nem tampouco aqueles que cursam a Educação de Jovens e Adultos.

Como se não bastasse, o modelo adotado pela atual gestão mineira desconsidera mais de 700.000 alunos, matriculados no Fundamental II, que não são lembrados dentro da política educacional do estado, ao contrário, o que está proposto é a municipalização desse segmento de ensino, oferecendo a esses jovens um futuro incerto, já que as redes municipais têm seus próprios problemas para resolver, e receber os alunos do Fundamental II trará como consequência uma piora, ainda maior, nos indicadores.

Como já dito, investir muito não significa investir certo, e esse é o resumo da educação brasileira – investiu-se 6% do Produto Interno Bruto – PIB e a rede federal de ensino não melhorou em relação aos indicadores internacionais, isso porque os conceitos de eficiência e eficácia não foram respeitados, explico: se o objetivo do modelo de ensino adotado pela esquerda, era melhorar o acesso à educação superior, e por isso investiu em novas vagas, em cotas de ensino, em novos Campi e na contratação de novos servidores para suprir essa demanda, essas ações foram ineficazes, pois os números não melhoraram e só fizeram aumentar o custo de uma “máquina”, que hoje está em cheque diante do novo cenário no governo federal, que trabalha com a noção de investimentos baseados em resultados.

E um dos motivos para esses resultados ruins está justamente em um erro lógico – educar não é um ato objetivo, antes é um processo cheio de subjetividades, que se não começar da maneira correta (na educação infantil) nunca alcançará bom desempenho na educação superior, pois as deficiências devem ser corrigidas no tempo certo, caso contrário se tornarão cumulativas no decorrer da formação dessa criança – jovem – adulto.

Da mesma forma, o modelo proposto pelo governo estadual repete o  equívoco da rede federal, erro na eficácia (mudança de modelos com foco em consequências e não nas causas dos déficits educacionais da rede – desconsiderar os problemas de proficiência do Fundamental I e II é um exemplo disso, direcionando todos os esforços para o Médio) e na eficiência, pois devido às limitações orçamentárias impostas pela situação fiscal do estado,  tem investido pouco, e muitas vezes errado em ações já testadas em outras gestões, e que também não apresentaram bons resultados.

Fazendo uma síntese das experiências exitosas nos países citados, temos que: é importante valorizar a formação do caráter das crianças, antes mesmo da questão formal do ensino; incentivar o desenvolvimento das habilidades emocionais, para construir jovens e adultos mais seguros; propiciar uma relação positiva com as novas tecnologias, ao contrário do modelo de “demonização” proposto pela ideologia de esquerda da educação francesa; investir na formação docente, onde a lógica do “menos é mais” faz todo sentido, desde que haja o comprometimento da classe docente com o retorno do tempo investido, através da melhoria das aulas oferecidas, além de um modelo de ensino que valorize as qualidades, e não as deficiências, como ainda é visto em nossas redes.

Portanto, o investimento na educação básica é o caminho sustentável para a mudança desse cenário educacional brasileiro, com a consequente melhoria dos seus indicadores, e a Base Nacional Comum Curricular – BNCC é a estrada pronta e pavimentada para essa mudança. Ao mudar a educação de um país, serão mudados também seus indicadores sociais e, assim, a qualidade de vida do povo brasileiro irá melhorar, pois o caminho mais seguro para o desenvolvimento de qualquer nação é através do investimento com eficácia e eficiência no ensino das suas crianças e jovens. Por isso, gestores educacionais e governantes, deixo aqui um alerta: não brinquem quando o assunto é ensinar, porque “Educação é coisa séria”!

Professor Sérgio Soares

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