Dia desses, ouvi do amigo Lazin mais uma de suas histórias, que representam a força imagética da oralidade do povo mineiro. Nesse dia, o velho contador de causos veio me falar de uma cidade que desapareceu. Segundo o amigo, isso se deu lá pras bandas da divisa com Goiás, na época que ainda tinha muito índio naquela região. A história era mais ou menos assim.
Santa Cruz dos Desterrados de Minas era uma típica cidade do interior que contava com pouco menos de dois milheiros de pessoas, de casarios simples, gente hospitaleira e onde o tempo parecia andar embalado pelo som das rodas dos carros-de-boi. Por lá não se tinha muito o que se fazer, o que mantinha a economia da cidade era a produção leiteira vinda das fazendas, e o pouco de comércio que existia, era ainda do tipo secos&molhados. Um encanto de lugar.
Certo dia o lugarejo acordou com uma novidade incomoda, que mudaria a vida daquela localidade, e do povo que ali vivia – o Governante-Mor decidira, por Decreto-Lei, que cidades com menos de dois mil habitantes seriam extintas do mapa nacional, daquele dia em diante. Ocorre que, justamente Santa Cruz, possuía hum mil, novecentos e noventa e nove nascidos, bem contados.
Ainda sem entender o impacto que a nova Lei poderia causar, a cidade começou a perceber que algo de muito errado estava acontecendo – de repente, a fazenda do Zé Olinto sumiu, com gado, gente e porteira fechada. Depois a do Melchíades. Depois a do João Cerqueira, e assim foi até que não restasse mais uma só na região.
Mas o que mais chocou a população foi quando acordaram de manhã, e a venda do Zé Anastácio não estava mais lá. Nem a Praça, nem a Escola, nem a Prefeitura. Como que por encantamento, uma a uma as ruas e casas da cidade foram desaparecendo, e junto com elas, as pessoas. Em menos de uma semana já não existia mais Santa Cruz dos Desterrados de Minas. Seu povo e sua história também sumiram, e nem os parentes distantes e próximos pareciam se lembrar mais daquela gente.
Segundo meu amigo Lazin, reza a lenda que as almas daqueles viventes ficaram vagando de cidade em cidade, e à noite eram vistos, andando pelas ruas e batendo às portas das casas, n’uma procissão de mortos-vivos desterrados que, entre murmúrios e gemidos, perguntavam se ali que era a cidade deles. De Santa Cruz, só restou o Cruzeiro que marcava a entrada da cidade.
Professor Sérgio Soares