Dar aulas nunca foi tarefa penosa, muito pelo contrário, sempre desenvolvi esse ofício com muito prazer e maestria, traço genético herdado do Tenente João Ricardo de Oliveira, avô paterno – modelo de honradez e inspiração como mestre. Engraçado, que somente quando essa temática surgiu em meu mapa ficcional, é que dei conta que minha história no magistério poderia ser representada por um gráfico com duas variáveis (inversamente proporcionais), onde uma seria o status, representado por uma linha descendente, enquanto que a outra seria a experiência de vida, marcada em uma linha ascendente. E entre uma e outra, a experiência será sempre a mais importante.
O magistério superior foi minha porta de entrada na docência. Período muito rico onde tive a oportunidade de experimentar todas as teorias e ideias que o Mestrado em Literatura me possibilitou apreender. Fui apresentado à Rede Pública como regra três da única Escola Estadual da cidadela aonde viria a morar (substituindo sempre que necessário), até assumir as três turmas do Nível Médio e Educação de Jovens e Adultos dessa mesma escola por dois anos.
Como a vida é uma roda viva, acabei sendo surpreendido por uma mudança estrutural nos meus planos, e assim tive a sorte de experimentar um novo movimento na minha trajetória docente – eu que achava que nunca iria trabalhar com adolescentes, assumi duas turmas de 6º ano de uma escola urbana (mas com público em grande parte vindo da zona rural) com um alto número de alunos em distorção idade – série.
Nesse período mais aprendi do que ensinei, antevendo aquele que seria o meu mantra, profetizado pela poetisa Cora Coralina – Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Voltei a lecionar com os mais jovens pouco depois, na Rede Municipal da cidade em que fui morar. Lá atendi as turmas do Fundamental II e, por conta do trabalho desenvolvido, em Dezembro do mesmo ano, fui convidado a assumir a Secretaria de Educação. Outra mudança na vida do professor (com certeza a mais profunda), pois só quando passei para o outro lado da mesa é que pude compreender o tamanho do estrago que uma política educacional mal feita pode causar à Educação Básica, bem como o quão complexas são as relações e questões estruturantes de uma escola dentro da rede pública.
O somatório dessas experiências forjou um novo homem que, após sua saída da gestão municipal, percebeu que o caminho era sem volta, que dali em diante tinha um compromisso com a Educação. Só que esse caminho não foi (nem é) fácil e, por várias vezes, se viu tentado a largar tudo de lado e cuidar da própria vida. Mas nessa hora a lembrança dos jovens que ensinou (e se perderam nas vielas e nos becos) fazendo da folha do caderno, seda para enrolar baseado, trazia de volta a gana e a indignação necessárias para continuar lutando.
Sendo assim, decidiu construir uma narrativa diferente das que usualmente escreve, justamente para demonstrar a indignação do Professor com a falta de resposta dos órgãos de governo aos sérios problemas de aprendizagem em Minas Gerais (aqui não se referindo às pessoas, e sim às instituições – Governadoria e Secretaria Estadual de Educação).
É prática comum no meio político servir-se de estatísticas e números para maquiar resultados, prova disso é que recentemente vi uma notícia que falava sobre a apuração de um pleito, onde a chapa postulante teve uma votação próxima de 100%, portanto, quase uma unanimidade. Porém, o que não foi divulgado (nem nas entrelinhas) é que a taxa de comparecimento foi de apenas 30%, ou seja, a maioria dos possíveis votantes desaprovou a chapa, ao não comparecer às urnas.
No caso da Educação (que hoje é pautada por Indicadores oficiais) a situação não é muito diferente. É comum ver números apresentados sem a devida contextualização, e análise das séries históricas que levaram à construção daqueles índices, o que dificulta a construção de uma política educacional eficiente, que combata a causa do problema, e não apenas os efeitos por ele causados. Por exemplo, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de Minas Gerais.
Segundo resultados do último levantamento, feito em 2017, para os Anos Finais o índice foi de 4.4, quando a meta esperada para esse período era de 5.1. Já para o Ensino Médio, o índice medido foi de 3.6, com uma meta esperada de 4.8. Analisadas as séries históricas pode-se depreender que, apesar de abaixo dos índices projetados, o nível de aprendizado dos alunos se manteve estável, o que poderia ser facilmente interpretado (e divulgado para a população e para a imprensa) como um ganho, pois vem se mantendo a “qualidade” do ensino no estado.
Contudo, o IDEB é o somatório de várias avaliações e indicadores e assim, quando esses números são analisados, os resultados são gravemente preocupantes. Tomo por base os dados da reprovação na fase final do Fundamental II (9º ano) e na fase final do Médio (3º ano). No primeiro caso, em 2018, menos de 10% dos alunos concluintes foram reprovados, enquanto que, no outro segmento, menos de 8% não conseguiram concluir o Ensino Médio.
Isso seria motivo de comemoração, se o IDEB do Médio não estivesse em 3.6, muito abaixo da meta desejada para o estado que era de 4.8. Então, como um segmento que apresenta um desempenho tão abaixo do esperado, pode ter um índice de aprovação na última série, que é preparatória para os exames de ingresso nas Universidades, tão alto? (Na base de dados consultada, não existe análise de proficiência para o nível Médio.)
Já quando se olha o 9º ano (que é a fase preparatória para o Médio) os números são mais significativos (ou preocupantes) ainda. Como um segmento que aprova quase 90% de seus alunos, apresenta um IDEB de 4.4 (também abaixo da meta projetada), com indicadores muito piores ainda quanto à proficiência?
Nesse segmento, mais de 60% dos alunos matriculados não aprenderam nada, ou quase nada do conteúdo esperado em Língua Portuguesa; quando o assunto é a Matemática, 80% deles concluíram essa etapa sem saber nada ou quase nada do conteúdo ministrado. Como se explica então um número tão baixo de reprovados? O reflexo disso se vê no Ensino Médio, pois, como a educação é um processo, na 1ª série, em 2018, a reprovação foi de quase 20% dos alunos, número maior que a média do segmento todo que foi de 13,5%.
Não quero dizer aqui que reprovação massiva seja demonstração de eficiência, muito pelo contrário. Contudo, um alto índice de aprovação com indicadores de proficiência tão baixos levantam a preocupação sobre como está ocorrendo o processo de ensino-aprendizagem dentro das escolas mineiras, que envolve não só a Metodologia de Ensino, mas também os processos de Avaliação e Planejamento Pedagógico adotados?
Isto posto, não posso deixar de perguntar: porque a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ainda não foi implementada em Minas Gerais, se em Outubro de 2018 a versão final do Currículo de Minas já estava pronta para ser apresentada à Rede, e assim, a partir de Janeiro de 2019, as escolas teriam condições de capacitar a equipe, e atualizar seus Projetos Políticos Pedagógicos? Se a base, além de apresentar princípios norteadores para a construção dos currículos regionais, tem como fundamento justamente a mudança nos métodos de ensino, e processos de avaliação e planejamento pedagógico?
Enquanto isso, o estado de Minas está às voltas com a “construção coletiva” de um Currículo de Referência para o Ensino Médio, como se o problema da aprendizagem estivesse no “currículo adotado”, e não nos procedimentos e outras questões estruturais. Além disso, esse segmento apresenta uma situação tão particular que a própria Base, que foi formada por centenas de especialistas das três esferas – municipal, estadual e federal (que trabalharam por quase 7 anos) – decidiu por bem não incluí-lo na versão final do documento aprovado em 2017, justamente por ter enxergado a necessidade de uma discussão e aprofundamento maior dos temas correlatos a ele.
Lógico que não posso atribuir a culpa de mais de uma dezena de anos de (des) compromisso com a Educação Básica à atual gestão da SEE, nem tampouco ao gestor do estado, pois, de fato, seria uma inverdade. Contudo, não posso deixar de perguntar onde está o Planejamento Educacional para Minas? Que espera-se baseado não em números palatáveis e sonoros aos ouvidos da população (ou dos Deputados da ALMG), mas que demonstre eficiência e eficácia no trato com a coisa pública, em especial com a Educação, base do tripé de sustentação de qualquer governo? Planejamento esse que contemple ações de curto, médio e longo prazo, preferencialmente baseadas em políticas de Estado (ao invés de Governo), que garantirão a continuidade de sua execução. Onde ele está posto depois de quase 12 meses de governo?
Tenho plena convicção de que todo o palavrório dessa narrativa, provavelmente não passará de um solilóquio (ao melhor estilo Clarice Lispector), mas não poderia trair minha consciência, fechando os olhos para tudo que tenho visto e acompanhado na mídia (e nas redes sociais), nem tampouco esquecer a imagem simbólica da folha de caderno que serviu para “endolar” o baseado, pois ela representa o descaso e o desprestígio que a Escola Pública tem hoje no Brasil – ao invés de ser tratada como espaço transformador de pessoas, que é a sua real função, tornou-se “fiel guardadora” de crianças e jovens problemáticos, além de palanque para doutrinação e conversão de futuros militantes.
Contra isso serei sempre crítico, duro se preciso for, e ainda que a repercussão dessa narrativa não ultrapasse os limites da minha rede pessoal – formada por amigos e familiares – não vou desistir da Educação, nem parar de escrever e comentar sobre esse tema que tomei como objetivo pessoal e político, pois como alguém disse por aí, dias atrás, “a pena é mais forte do que a espada”, e a minha é mais poderosa do que a BIC do Presidente, palavra de Professor!
Professor Sérgio Soares