“A pena é mais forte do que a espada”

O cantopoeta Edmilson de Almeida Pereira pergunta no poema A Letra e a Voz: “O que ouço é o texto ou a voz de quem leu? […] Mas ouvimos, no meio de tudo, talvez um texto e a voz que o lê. Se é notícia rude ou sorte, se é nossa gente, como saber? No rascunho da tarde, escutar é um ato de espionagem.“ e isso me fez lembrar da importância da palavra; ainda que na sua forma mais rude, a de um fonema, ela carrega dentro de si a história de uma vida inteira.

Na Antiguidade Clássica (quando a escrita ainda era prestígio de poucos) os aedos, poetas orais que se apresentavam nas Ágoras gregas, eram a representação de Mnemosyne a mãe das Musas – a memória. O ato da declamação era um ato místico, sobrenatural, no qual o poeta, tomado pela inspiração da Musa, deixava-se vagar num turbilhão de lembranças. Nesse momento, a memória perdia sua função psicológica e ganhava outros matizes: antropológicos, históricos, políticos e ou religiosos.

Com o surgimento da escrita, o homem gradativamente passou a servir-se menos da oralidade, para registrar suas memórias através de sinais que vieram a se tornar a representação grafêmica dos variados idiomas que compõe o complexo léxico da sociedade humana. Os pesquisadores Fentress&Wickham (Memória social: novas perspectivas sobre o passado.Trad. Telma Costa. Lisboa: Teorema, 1992) afirmam que “escrever não só congela a memória como a congela sob formas textuais que evoluem de maneira bastante diferente das que se servem a memória oral”.

E a letra evoluiu, no caso da sociedade moderna para um código binário que permitiu representá-la na tela de um smarphone e, ainda assim, é através desse signo que a história é preservada, que  relacionamentos são construídos e que compromissos são desfeitos. O fato é que, nem com toda a revolução tecnológica empreendida nos últimos tempos, o homem conseguiu encontrar ferramenta de comunicação mais eficaz e poderosa do que a palavra escrita, como bem dito no provérbio inglês “ a pena é mais forte do que a espada” (the pen is mightier than the sword).

Basta olhar para trás e ver: na tradição cristâ, primeiro com os Dez Mandamentos, depois com os escritos dos evangelistas. No Velho e no Novo Mundo, a Carta de Pero Vaz de Caminha apresentando a terra brasilis a Portugal e a declaração da Independência Americana. Na literatura, desde os Grandes Clássicos, até um manual com ‘A Arte da Guerra’ de Sun Tzu. Todos esses repositórios de história, arte, cultura, religião e politica só reforçam o prestígio da pena na vida do homem.

Trazendo essa questão para temas mais atuais (e que ocupam os noticiários) pode-se destacar o conflito civil na Venezuela onde um ditador, Nicolás Maduro, ainda não foi deposto justamente porque os organismos internacionais preferiram adotar saídas diplomáticas, ao invés de apoiar o confronto armado. Na política brasileira, três presidentes já foram depostos, sem que uma única gota de sangue fosse derramada. Em 2018 caminhoneiros pararam o país em uma manifestação totalmente orquestrada através das redes sociais. Em Brasília, o mais alto colegiado de Ministros do país, para dar salvaguarda a um criminoso do colarinho branco, pode colocar de volta às ruas toda a sorte de bandidos e malfeitores. Em todos esses casos apresentados, foi a Letra – o texto escrito, quem deu sustentação às narrativas, e produziu os resultados esperados, sem ela tudo não teria passado de relatos orais, confundidos com boatos ou fofocas.   

Hoje, mais do que em outros tempos, a liberdade de expressão criou exércitos de militantes e milicianos (virtuais ou não), que valendo-se do poder da pena criaram uma nova Ágora (virtual), onde declamam e proclamam suas odes panfletárias – à Amazônia, ao capitalismo, ao lulismo, ao bolsonarismo e a tantos outros “ismos”, nem sempre baseadas em verdades absolutas, nem tampouco relativas, onde mais vale o barulho causado, do que a causa do estrondo.

Ao contrário desses militantes, conheço um escrevedor de histórias em textículos, que teve a vida modificada pela Letra, não apenas no sentido formal de ilustração, mas de transformação profunda, de um ente cordato que fazia parte do rebanho, para um lutador – de pena em punho – que dia-a-dia vem se notabilizando na Arte da Guerra sem espadas. No universo que criou, suas personagens dão voz às suas ideias e projetos, sempre dentro daquilo que acredita  ser o justo e o necessário.

Não que tenha sido fácil, muito pelo contrário. Em todos os segmentos por onde passou se destacou pelo empenho e competência, mas pagou um preço alto por isso – desonra, falsidade e traição. Só que, de tanto apanhar, o couro ficou curtido e aprendeu a bater – em uma de suas experiências como professor de zona rural, turma cheia e multidiversificada, aprendeu que a voz forte e colocada é a diferença entre conseguir dar uma boa aula, e perder o controle da turma. E assim trouxe essa lição para a vida fora da sala-de-aula.

Conforme diz o verso do cantopoeta, “No rascunho da tarde, escutar é um ato de espionagem.“, por isso ele teve que aprender a decifrar a letra por debaixo da letra, a ter um olhar armado – próprio dos iniciados nas inconfidências mineiras, o que lhe ajudou a enxergar os desafios e desafetos com justiça, mas sempre com olhar crítico. E hoje, este escrevedor está às voltas com outra história (ou outro projeto), onde sua personagem principal precisa nadar contra a maré, ser a voz dissonante no espetáculo (como um justiceiro solitário) para conseguir mudar a história de toda uma gente. As armas para essa batalha – a Pena e a Letra – com elas construiu cidades, fabricou personagens, mas através delas também pode erguer pontes, ou derrubar as paredes que sejam colocadas em seu caminho em uma prova cabal de que “A pena é mais forte do que a espada”.

Professor Sérgio Soares

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