Sobre Política e Alienação

Segundo Aristóteles, “O homem é por natureza um animal político, tem primeiro na família sua socialização e garantia da manutenção da vida em seus aspectos financeiros e educativos, mas é na Polis que se realiza plenamente, encontrando no fiel cumprimento das leis a justiça, dado que só podemos ser feliz no exercício da justa medida, ou seja, sendo prudentes e encontrando o meio termo em nossas ações.” E o filósofo grego ainda complementa dizendo que “O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade.”.

Interessante notar como esse conceito, o da Política, mudou tão profundamente na sociedade contemporânea, pois, se antes ela representava o mecanismo de garantia da Justiça e Sociabilidade na “Pòlis”, hoje, ao contrário, é vista como elemento desagregador (de pessoas e grupos), corruptora e corruptível, centralizadora de poder e garantidora de interesses privados (e às vezes espúrios).  E o que levou a essa desconstrução de sentido? As pessoas – que fizeram (e ainda fazem) dela um instrumento para a satisfação de interesses pessoais, em oposição ao sentido lato da palavra que era cuidar das coisas e interesses da cidade-estado, pensando sempre no coletivo. Alguns costumam chamar essas pessoas de políticos, prefiro tratá-los como idiotas, ou simulacros de políticos.

Mas não apenas isso contribuiu para sua má imagem; com o passar do tempo essa palavra ganhou extensões de sentido, para referir-se a determinado setor ou segmento da vida em sociedade, como por exemplo: politica estudantil, partidária, sindical, educacional, pública e tantos outros mais que, repetindo os erros dos idiotas a que me referi acima, serviram-se (e ainda se servem) dela para atender a interesses, nem sempre republicanos e éticos.

Com esse cenário, ser político (ou falar de politica) no Brasil virou sinônimo de partidarismo, Ideologismo, brigas e desavenças, negociatas e tomada de vantagens, distanciando, dessa forma, o cidadão comum dessa importante discussão, que faz parte da nossa vida desde o núcleo primordial – a família, como bem lembrou Aristóteles. O resultado disso é o surgimento de uma geração de alienados, mas de fato quem são, ou o que são esses alienados?

De acordo com o vernáculo, alienado é aquele que sofre de perturbação mental, louco, maluco; aquele que não tem consciência dos problemas políticos e sociais; aquele que se mantém alheio à realidade que o cerca. Isto posto, posso afirmar que existe hoje uma gama de alienados convivendo conosco em nossas casas, no trabalho, na escola e até nas Igrejas, que se subdividem pelo tipo ou grau de alienação:

  1. Alienado padrão: aquele que, de fato, apresenta ou sofre de alguma disfunção psíquica, popularmente conhecido como “pinel”, muito comum de se ver infiltrado dentro das milícias partidárias, tão recorrentes nos dias de hoje.
  2. Alienado acomodado: aquele que, vive em Marte, pensando nos problemas de Júpiter, totalmente desconectado da vida em sociedade.
  3. Alienado divergente: aquele que, apesar de não participar da vida política, nem tampouco se interessar pelo assunto, não perde a oportunidade de emitir juízo de valor, ou expressar sua opinião sempre que tem oportunidade, com o propósito único de ser contra por ser contra.
  4. Alienado engajado: aquele que, apesar de possuir uma filiação (partidária, religiosa ou política), não se envolve e não participa, apenas convive. Lembra muito a figura do Cristão, que participando das celebrações em um templo religioso, ao término não sabe falar sobre o que foi tratado durante a pregação.

Simão Bacamarte, no conto “O Alienista” de Machado de Assis, fez um experimento para demonstrar os traços de loucura presentes na sociedade Itaguaiense, comprovando a máxima “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”, onde obteve como resultado (depois de internar quase toda a cidade) que o traço comum dos alienados daquele lugar era algum tipo de desvio de personalidade, de onde tirou a conclusão que os loucos é que eram os normais por serem a maioria, e os sãos (no caso, apenas ele) é que eram os alienados, portanto careciam de internação.

Trazendo a ficção para a vida real, tem-se que o universo de alienados no Brasil parece ser maior do que o número de engajados, donde se pode depreender que o normal é ser alienado e que o incomum é ser politizado, portanto, como fez Bacamarte, que sejam internados em um hospício (ou presos) esses pervertores da ordem pública que tentam impor à sociedade suas posições marxistas, leninistas, socialistas, liberalistas e tantos outros “istas”!

O panorama que se vê reproduzido hoje no Brasil é quase esse; devido à demonização da Política (e dos políticos como demonstrado algumas linhas acima) é cada vez mais difícil ser engajado sem levar pedrada, sem o enxovalho e a alcunha de corruptos e milicianos, o que é muito ruim para a construção de um projeto de sociedade onde o coletivo seja prioritário em relação ao individual.

Disso resulta que seu objetivo principal, que era a aproximação de pessoas, foi pervertido em guerras fratricidas, a construção do diálogo em favor de um meio termo que atendesse às necessidades e anseios da maioria, virou sinônimo de acordão, e a vida em sociedade baseada na Justiça (cumprimento das Leis), se transformou em salvaguarda de criminosos condenados (vide o exemplo factual do que está ocorrendo agora no STF, em Brasília).

Em um momento como o que se vive, onde o dissenso e o extremismo se tornaram a tônica dos debates sobre Política, onde o seu descrédito assume contornos cada vez maiores, onde ainda a confundem com partidarismos pouco republicanos, é premente que esse bando de loucos animais políticos que somos nós (ainda que em menor número que os alienados) façamos romper os grilhões que nos foram impostos, e nos insurjamos para lembrar a todos que ela (a Política) continua sendo a melhor ferramenta para a construção de pontes entre as nações, para a aproximação dos pares e também dos díspares e, principalmente, para a formação de um Estado que seja plural, onde a Justiça seja a justa medida, e onde através do meio termo e do bom senso, cada indivíduo tenha a plena condição de ser feliz dentro de sua “Pólis”. Ser contra, ou alienar-se dentro de uma zona de conforto, é dar razão a uma máxima que Platão já preconizava na Grécia Antiga: “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”

.Professor Sérgio Soares

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