O desafio do ensino nos dias atuais: Saber X Saber Fazer

Dia desses, em um de meus rápidos retornos à pequena e pacata Prosperidade, tive a oportunidade de acompanhar uma palestra do nobre professor Pandolfo, no plenário da Câmara dos Vereadores, onde ele falava sobre o “O desafio do ensino nos dias atuais: Saber X Saber Fazer”.

“Senhoras e senhores, boa noite. Professor não é aquele que precisa antepor ao próprio nome uma infinidade de letras (MBA, MSc, PhD, …) para comprovar seu cabedal de conhecimento, mas sim aquele que, tendo absorvido ao máximo os ensinamentos no seu tempo de aluno, tem, na condição de facilitador, a sabedoria para dividi-los com a humildade de entendimento de que ensinar é um ato de troca, onde muito se aprende com aquele a quem se ensina”.

E foram com essas palavras que ele deu início à sua exposição, lembrando que muito se espantava quando encontrava com seus pares na cidade (ele que leciona na zona rural), e o assunto era sempre o mesmo – “alunos não querem aprender, esses moleques são incorrigíveis, os pestes não respeitam mais a autoridade de um professor”!

Então ele fez uma pausa e, de maneira enfática, lembrou que “respeito é um sentimento que deve ser conquistado, ele nunca nascerá de maneira impositiva” e, além disso, ”a perda de autoridade a que tanto se referem os colegas, nada mais é do que uma maneira eufemista de dizer que, como o Professor não sabe o que é ensinar (ou não quer aprender), precisa recorrer ao argumento de autoridade – eu mando e vocês obedecem – para cumprir seus exaustivos 50 minutos de aula”.

Completa o sábio mestre dizendo que, “no tempo das cátedras, o Magister, devidamente togado, proferia sua aula como quem falava para as paredes, e essa imagem ainda está muito viva na retina – e na prática – de muitos colegas (ainda que não mais togados), que tratam suas classes como tábulas rasas de conhecimento, cabendo a ele, ‘o Mestre’, a hercúlea tarefa de ‘tentar’ fazer-lhes aprender alguma coisa”.

Pandolfo lembra que, “a melhor forma de se fazer ouvir e entender pelo outro, é se colocando próximo a ele, na sua estatura e no seu campo de visão, de tal forma que as palavras façam sentido, e isso não se consegue do alto de um palanque, ou sentado por detrás de uma mesa. O professor não é mais o centro do mundo, o senhor do Saber, mas sim um facilitador, aquele que se coloca ao lado, para ensinar e aprender com o aluno, que é rico em sabedoria e pleno de uma história viva, que tem origem no núcleo familiar, e nunca será igual a do outro, sentado na cadeira oposta”.

Um dos grandes desafios que ele aponta nos dias de hoje é o modelo de ensino-aprendizagem adotado nas escolas, que se prende a um formalismo curricular, baseado mais em fórmulas e conceitos, do que na vivência e na experimentação do conteúdo, modo de criar aderência, substância entre aquele que aprende e aquilo que é aprendido, e não uma mera repetição de palavras e símbolos convencionados.  

Segundo o professor, “as pessoas desaprenderam a diferença entre o ‘Saber’ e o ‘Saber Fazer’” e explica dando um exemplo prosaico – imaginem aquelas negras das cozinhas das fazendas, aquelas mesmas que serviam às grandes famílias de Prosperidade e, à beira do fogão de lenha, cozinhavam um frango com quiabo divino, que todos comiam rezando. Receita? Não existia, era tudo de cabeça – da dosagem do sal, até as artimanhas para retirar a baba do quiabo.

Agora imaginem esse mesmo prato, executado por um Chef de cozinha (recém-saído da Escola de Gastronomia), que seguirá a receita padrão, ainda que à beira de um fogão de lenha. Alguém tem dúvida de que o prato do Chef nunca chegará nem aos pés daquele preparado pela Maria Preta? E sabe qual o motivo para isso? Simples, existe uma diferença ontológica entre o “Saber” e o “Saber Fazer”, o primeiro diz respeito ao conhecimento formal, ao estabelecido e o outro à proficiência, à capacidade de usar o conhecimento aprendido de maneira única, própria ou com diferencial’. Encerrando sua palestra, Pandolfo arremata dizendo que:

 “Meus caros. É preciso que nós, professores, nos desapeguemos do estrito, da propedêutica acadêmica e conceitual para que possamos, de fato, ensinar nossos alunos a aprenderem, de maneira autônoma e com liberdade de pensamento e criação.Dessa maneira, estaremos formando uma nova geração que não apenas saberá as regras para uma correta conjugação dos tempos verbais, mas, principalmente, será capaz de criar e de se expressar em qualquer contexto e situação, de maneira crítica e original. Tenham todos uma boa noite”.

Noite memorável de aprendizado. Me despedi das autoridades e conhecidos presentes,  e tomei meu rumo.

E é dessa forma que a Academia ainda ensina seus futuros ensinantes – seja nas ciências ou nas linguagens – através de um mero repetir de fórmulas e de conceitos, e isso se deve ao fato de que os Mestres, engessados em seus pedestais de bronze, não se dignaram (durante as últimas décadas) a rever seus princípios e metodologias, continuando tudo como era antes no tempo das “professorinhas”.

Lógico que já existem vozes dissonantes nesse concerto (graças à Deus), mas esse grupo ainda é muito tímido, diante da grande massa de pensadores do “Saber” que compõe as Universidades e Centros de Formação Superior. O resultado disso é que, lá na ponta, o professor que chega às escolas acaba repetindo o discurso que o Professor Pandolfo tantas vezes ouviu nas ruas e praças de Prosperidade – “alunos não querem aprender, esses moleques são incorrigíveis, os pestes não respeitam mais a autoridade de um professor”!

Quem mais sofre com isso? O peste do aluno que não quer aprender e que não respeita a autoridade do professor. Não quer aprender ou será que a maneira de ensinar, de preparar a aula e mesmo de corrigir a prova desse aluno é que estão erradas? É muito simples colocar a culpa do problema no lado mais fraco (no caso, o aluno) enquanto a responsabilidade sobre esse (des) aprendizado está por detrás da mesa, confortavelmente sentado em uma cadeira, esperando os 50 minutos de sofrimento acabar.

Pensar dá trabalho (e como dá), mas pensar uma aula que seja única, e não apenas uma repetição de recortes dá mais trabalho ainda. Corrigir uma avaliação, tendo como base um gabarito de respostas prontas é simples, difícil é preparar uma questão que leve o aluno a refletir sobre a resposta, e que essa seja a soma de duas verdades – a da cartilha, e a da leitura de mundo que esse aluno faz sobre o que a cartilha fala. Realmente, dá muito trabalho!

Em uma sociedade onde se espera do cidadão que ele seja crítico e multitarefa (em função das constantes evoluções tecnológicas que surgem todos os dias) é necessário não apenas ter um diploma para chamar de seu, mas sim que seu dono seja capaz de usá-lo de maneira singular. Isso é o que vai diferenciá-lo dentro de um mercado tão competitivo como o de hoje (assisti esses dias, na chamada de um programa de TV, a história de uma modelista: senhorinha já bem idosa, acostumada a riscar e cortar seus moldes, que teve que se reinventar para aprender a trabalhar com um programa de inteligência artificial, que a ajuda na construção das modelagens da confecção, agora em 3D e com muito mais precisão).

Portanto, é necessário rever o conceito de aprendizagem para entender que ele nasce em nossas vidas muito antes do início da vida escolar, está dentro das nossas casas, das nossas igrejas e nas ruas, e surge como uma acomodação coletiva que leva ao não pensar, a não refletir sobre as informações que permeiam e influenciam o sujeito a todo o momento, que apenas as recebe e as aceita. Nesse modelo não existe espaço para o dissenso.

Contudo, (ideologicamente falando) buscar o “porquê” dessa subserviência do pensamento pode ser muito perigoso, mas é só a partir da disseminação desse gérmen, desse princípio de investigação e de questionamento, que um aluno vai chegar em uma classe e ter a curiosidade (e a coragem) de questionar o professor por que dois e dois tem que ser quatro, e não pode ser quatro e um terço. Em termos pedagógicos, isso é ir além do conhecimento formalista (“Saber”), demonstrando raciocínio lógico acima da média, e aguçado senso crítico (“Saber Fazer”).

Interessante notar como esse conceito academicista de organização dos saberes dentro de um Curriculum Vitae, criou uma geração de falsos doutores, falsos professores, falsos engenheiros e tantos outros que, mesmo aprovados em uma seleção por currículos se demonstram ineficientes quando na prática efetiva do ofício. O mais curioso é que Curriculum Vitae é uma expressão latina que significa “trajetória de vida”, portanto, ele deveria ser a síntese daquilo de melhor que o sujeito é capaz de fazer; só que não! Acabou se tornando um mero repositório de títulos conquistados que, na maioria das vezes, não refletem a capacidade e as habilidades do sujeito.

E como esse modelo de seleção virou praxe para contratação, em se tratando de setor privado, demita-se e chame o próximo da lista caso se demonstre ineficiente, mas quando se fala do setor público (devido à própria característica de algumas contratações) os resultados podem ser bem mais catastróficos, justamente porque quem contratou não soube entender a diferença entre a experiência (o Saber Formal) e a proficiência (o Saber Fazer, a maestria) que vai distinguir os candidatos à vaga.

Fecho mais essa narrativa, valendo-me das palavras do Professor Pandolfo no encerramento de sua palestra, com o desejo real e sincero de que elas sirvam de amálgama para uma mudança representativa no modo de ensinar e aprender dentro das escolas, mas também na forma como a sociedade enxerga essa importante ferramenta de transformação social e econômica do indivíduo que é o “Saber”:

“É preciso que nós, professores, nos desapeguemos do estrito, da propedêutica acadêmica e conceitual, para que possamos, de fato, ensinar nossos alunos a aprenderem, de maneira autônoma e com liberdade de pensamento e criação. Dessa maneira, estaremos formando uma nova geração que não saberá apenas as regras para uma correta conjugação dos tempos verbais, mas, principalmente, será capaz de criar e de se expressar em qualquer contexto e situação, de maneira crítica e original.”

Professor Sérgio Soares

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