Dona Maria das Graças Liberdade enviuvara muito cedo, assumindo assim a responsabilidade da criação e educação de seus filhos gêmeos, Nino e Nina, além de ter que tocar um patrimônio volumoso, deixado pelo falecido, que incluía a Fazenda Liberdade – propriedade centenária cafeeira, da época do Brasil-Colônia, que trazia em sua história uma triste passagem pelo período escravagista, tendo sido uma das que mais se aproveitou dessa mão-de-obra para alcançar riqueza. Por conta disso, seu esposo, Baronete Antônio João Lustosa Felicidade, sempre fez questão de frisar “que naquelas terras nunca mais aconteceriam abusos, de nenhuma ordem ou espécie”!
Assim, D. Liberdade, como era conhecida na região, tratou de garantir o desejo do marido, assegurando que a fazenda fosse um celeiro de liberdade, mas também de desenvolvimento. Sempre preocupada, e atenta aos negócios, buscou as melhores formas de obter rentabilidade e sustentabilidade para sua propriedade (sem a dependência de governos ou padrinhos), garantindo aos que para ela trabalhavam as melhores condições laborais e de subsistência. Ela sempre dizia: “O pão, o colono conquista com o suor de seu trabalho, mas é preciso que o patrão nunca se esqueça de zelar pela saúde e educação da família de seus empregados. Colono feliz produz mais – quanto mais se produz, mais riqueza se gera para todos”.
Quando os filhos já contavam 23 anos, recém-saídos da faculdade, D. Liberdade fora acometida por uma doença terminal que, de forma muito agressiva, lhe tirou a vida. Em seu leito de morte, a matriarca deixou-lhes as últimas orientações.
“Meus filhos, agora que já estão formados, cada um de vocês será responsável por cuidar de metade da Fazenda. O compromisso que exijo é dedicação e trabalho digno, sem nunca esquecerem-se daquele que é o nome de nossa terra e de nossa família, Liberdade – para empreender, crescer, viver e ser feliz – essa é uma regra áurea que vocês nunca deverão quebrar. Quero que, passados cinco anos, vocês dois sentem e analisem os resultados que alcançaram. Não se esqueçam! A Fazenda Liberdade sempre foi o ideal de seu pai e meu também, e espero que vocês sigam os nossos passos”. Fechando os olhos, Dona Liberdade foi encontrar-se com seu Baronete Lustosa.
Passadas as exéquias da matriarca, os filhos trataram de dar andamento ao último desejo da mãe. A cada um foi dada a fração correspondente a cinquenta por cento do patrimônio, de tal forma que ambos tivessem iguais condições para fazer cumprir o assumido no leito de morte da mãe. Como a fazenda tinha núcleos de negócios, bem definidos e estabelecidos, a Nino coube o agronegócio e o gado de corte. Para Nina restaram o setor Laticinista – leite e derivados, e a criação de gado leiteiro.
Apesar de gêmeos, Nino e Nina eram muito diferentes um do outro. Desde pequenos, Nina sempre foi o retrato fiel da mãe na beleza, na cordialidade, mas também no respeito ao próximo – às suas ideias, valores e opiniões. Já seu irmão era substancialmente diferente – mesmo não desrespeitando ninguém, da mãe só guardou a visão empreendedora mas, ao contrário da genitora, só focava no lucro, entendendo que cada um era responsável por seu sucesso ou fracasso, e ponto final. Por isso, sempre achou um gasto desnecessário, e desmedido, o investimento que a fazenda fazia em saúde e educação dos colonos. Em seu modo de pensar, cada um que se resolvesse sozinho.
Passados os cinco anos estabelecidos, os irmãos sentaram-se para analisar os resultados obtidos em suas frações de negócio. O primeiro a apresentar os números foi Nino que, empolgado, apresentou as margens de lucro aumentadas em 30% no setor de agronegócio e 27% no gado de corte. Segundo ele, para o próximo quinquênio a margem projetada poderia ser aumentada em 15%.
Pragmático como ele só, Nino só se esqueceu de falar de que, nesse período, a evasão de pessoal de sua fração foi de 30%, entre afastamentos voluntários, e para tratamento de saúde. E que sua força de trabalho hoje era formada essencialmente por homens e mulheres com mais de 50 anos, portanto com baixa produtividade. Isso porque os mais jovens abandonaram a propriedade em busca de melhores condições de trabalho na cidade.
Chegada a vez de Nina, os resultados não foram nada modestos – o setor Laticinista cresceu 35%, com a conquista de um selo de qualidade que permitiu a entrada dos queijos e derivados no mercado internacional; o setor leiteiro teve um lucro de 19% com a melhora da genética das matrizes, tudo desenvolvido dentro da própria fazenda.
Mas esses resultados só foram possíveis porque, junto com sua capacidade empreendedora, Nina nunca se esqueceu da máxima que sempre ouvira de sua mãe “Colono feliz produz mais”, assim não descuidou da saúde e da educação de seus empregados, tendo como resultado um nível muito baixo de afastamentos para tratamento de saúde, uma evasão dos postos beirando quase a zero, e uma geração de novos técnicos agrícolas, que incentivados e apoiados pela patroa, se formaram e já estavam de volta à fazenda, agora gerando lucro e retorno pelo investimento feito.
Além disso, preocupada com as mulheres dos colonos, que em grande parte viviam para cuidar dos filhos e da casa, incentivou e capacitou, através do Cooperativismo, essas mulheres a criarem uma associação de artesãs que passaram a produzir e comercializar seus produtos, com a marca da Fazenda Liberdade.
Como isso não se tratava de uma competição para ver quem lucrava mais, ambos acertaram de voltar a analisar os números no próximo quinquênio, mas uma coisa ficou implicitamente comprovada entre eles – o lucro é importante, mas quando você pode lucrar – e ao mesmo tempo incentivar a produção de riqueza – os resultados sempre serão mais significativos e transformadores. Aí sim, de fato, existirá Liberdade, não só a econômica, mas principalmente a social.
Segundo Mário Vargas Llosa “A liberdade é inseparável do liberalismo. E a liberdade não pode ser só liberdade econômica: deve avançar ao mesmo tempo nos campos econômico, político, social, cultural.” É assim que penso, e é isso que tenho tentado trazer nos meus textos.
Por essa razão, nas minhas últimas incursões pelo mundo da política, tenho encontrado mais Ninos do que Ninas, e isso é explicado, em parte, pelo fato de que “ser liberal” é uma adjetivação muito capiciosa, que pode ser aplicada tanto ao discurso da esquerda, quanto ao da direita, mas, no caso desse último sobreveio um neologismo (e desculpem a redundância) criado para associar, pejorativamente, a figura do Liberal à imagem de um governo, o “Neoliberalismo”. Talvez tenha surgido daí a motivação para que alguns grupos e partidos, de viés liberal, tenham optado pelo endurecimento pragmático de seu discurso em torno de um aspecto – o econômico, em detrimento de um conceito geral e mais amplo.
De outra forma, percebo também um grande apego a formalidades conceituais da época do “pai do Liberalismo” (John Locke, Século XVII), ao passo que existe na contemporaneidade uma visão sobre o que é ser um liberal, mais arejada e pujante, como na América Latina (onde Vargas Llosa é um de seus expoentes), e na Escola Austríaca, tendo como referência os estudos de Mises. Nesses dois casos o Liberalismo não é apenas uma questão de conceito, mas de postura. Mais uma vez Vargas Llosa lembra que “[…] há uma grande diferença entre um governo liberal e um governo que empreende algumas medidas de abertura econômica”.
Essa é outra característica daqueles grupos e partidos a que me referi – dentro e fora do Brasil têm surgido figuras populistas, que apoiadas em um discurso conservador (que nada tem a ver com o Liberalismo) vêm empreendendo políticas econômicas, baseadas em princípios liberais: livre-mercado, estado mínimo, desoneração fiscal e liberdade para o empreendedorismo – que são importantes e positivas para o desenvolvimento de um povo, estado ou Nação. O problema é que, na maioria das vezes, essas políticas priorizam apenas o lucro, o ganho, em detrimento do bem-estar coletivo – nessa ótica Educação, Saúde e Segurança são vistos como despesas, e não como investimento, e Nino representa bem esse perfil.
Já disse outras vezes e repito: “Ser liberal dá trabalho, e é muito custoso!”, da mesma forma que ser uma Nina, requer muito talento, pois exige do sujeito o melhor de dois mundos – empreender, com visão e ciente que é dele a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso, e fomentar oportunidades – não apenas “dar a vara”, mas ensinar a pescar. Na nossa sociedade, que ainda é baseada em um paternalismo governamental, onde o Estado é a viúva que provêm a todos; de cunho assistencialista, onde o importante é manter o assistido na condição eterna de pedinte, propor algo diferente disso é quase uma heresia. Mas esse é o caminho, pelo menos para aqueles que (como eu) ainda acreditam que o Liberalismo é a melhor ferramenta para o desenvolvimento pleno de um povo, garantindo suas liberdades individuais, e também o respeito à Democracia.
Professor Sérgio Soares