Naquela manhã acordara com um gosto de morte na boca, já sabia que a inominada estava a caminho, por isso, antes de assumir seu posto, deu um longo e demorado beijo na sua preta, e fez um último carinho em seu filho. Tião, que contava 18 anos, morava com Karolyne, de apenas 16, com quem já tinha um menino, Izaac. Depois da despedida, pegou sua companheira inseparável, a Russa Catarina, seu rádio e foi pra laje. Lá, como de costume, sentou numa lata, acendeu um baseado, e ficou entorpecido pela calmaria, um silêncio no morro, que só podia significar uma coisa… Perdido no espaço-tempo, lembrou-se do dia em que chegou na comunidade, com apenas 12 anos, cheio de mágoa, e se tornou fogueteiro. De tão bom que era, em pouco tempo já comandava os moleques do foguete, e por todos era temido, porque caso algum pisasse na bola, Catarina cantava alto. Esse sentimento de raiva só foi quebrado com o nascimento de Izaac, o nome foi uma homenagem a seus pais, que nunca o conheceram.
Na noite anterior, ficaram os dois, ele e o pequeno, deitados na laje, olhando para as estrelas entre gargalhadas, onde Tião contava para o filho a história de cada constelação e tudo que havia visto na sua visita à Base de Alcântara. Então, como que no despertar de um sonho bom, foi acordado com o rádio gritando: Caveira! Caveira! No mesmo instante o céu da comunidade se encheu de foguetes, que foram rasgados pelas rajadas de fuzil, e pelo barulho ensurdecedor dos helicópteros dando rasante. Tião se colocou em posição de tiro, e sentou o dedo na Russa, porém, aquele instante – minuto, que pareceu uma eternidade, foi interrompido pela bala certeira de um Sniper que, com um único disparo, interrompeu a carreira do menino fogueteiro… Mas será que o fim dessa história precisava ter sido mesmo esse?!?
Tião nascera Sebastião, filho único de uma família muito humilde, mas honesta. Foi criado em uma comunidade onde nunca se envolvera com nada de ruim, apesar da violência do local. Filho de pais evangélicos, sua vida sempre foi casa – escola – igreja, mas ainda assim era uma criança muito feliz, e dedicada aos estudos. Seu grande sonho era ser astronauta. Até que um dia, aquele menino quase acreditou que isso pudesse se tornar realidade.
Era semana da Pátria, e em comemoração a essa data especial, a escola iria receber a visita do Coronel Astronauta, ídolo maior de Sebastião (Tiãozinho como era chamado pela família e amigos). Na véspera da visita, nem dormira direito, pensando em como seria encontrar com o seu herói, e o que poderia perguntar para ele. Acordou cedo, despediu-se dos pais e, num galope, chegou à escola antes mesmo do portão se abrir. Quando tocou o sinal de entrada, já estava a postos para sentar na primeira fila do auditório. E a hora chegou.
Foi como se ele tivesse sido teletransportado para outra dimensão, cada palavra, cada gesto do convidado, o faziam voar alto, sonhando como seria conhecer o espaço. Foi então que, num sacolejo, foi acordado com alguém chamando seu nome – Sebastião da Silva, Sebastião da Silva – até que a Diretora o puxou da cadeira – Vem cá Tiãozinho, você foi o sorteado. Ainda atônito, e sem entender o que estava acontecendo, o menino foi levado para o centro do palco, onde o Coronel lhe cumprimentou dizendo – Parabéns, você foi o escolhido para viajar comigo, e conhecer a Base de Alcântara, o Centro Aeroespacial Brasileiro. Você aceita? Sem palavras, o garoto só conseguiu abraçar com toda a força do mundo, seu maior herói.
Os dias seguintes foram de pura excitação e preparação. Acompanhado da mãe, Tiãozinho embarcou na viagem que mudaria sua vida para sempre. Viveu a experiência de viajar de avião, aproveitar as mordomias de um hotel e, finalmente, conhecer a casa do Astronauta brasileiro. Chegando à Base, não perdeu um segundo sequer das explicações do militar, absorveu cada palavra, guardou em sua retina cada imagem – o Centro de Comando, a Área de Treinamento Físico, a Base de Lançamento, mas o que lhe fez perder o chão, foi realmente conhecer o simulador de gravidade. Aquele foi o dia mais longo, e ao mesmo tempo mais marcante de sua vida. Na despedida ganhou um uniforme, feito especialmente para ele, igual ao dos oficiais aviadores que faziam seus treinamentos em Alcântara.
De volta à comunidade, o que deveria ter sido a realização de um sonho, começou a se tornar o maior pesadelo da sua vida de menino. Ele, que acreditava que seria recebido como uma celebridade foi surpreendido, no dia em que voltou a escola, com a indiferença dos seus colegas, mas o que mais lhe machucou de verdade foram as piadinhas – filhote de astronauta, lambe botas de milico, baba ovo de governo. Aquelas palavras pareciam não fazer sentido em sua cabeça que, com apenas 11 anos, estava sofrendo sua maior decepção.
E as ofensas não melhoraram, na verdade foram só piorando, até que um dia aconteceu a gota d’água – a professora de História falou (em tom de deboche para a sala inteira ouvir) que a única forma de moleque negro e pobre conseguir chegar perto das estrelas, era subindo em um andaime bem alto, para lavar janela de prédio. – Se orienta moleque, e acorda pra vida! Disse a professora, em tom de vaticínio.
Aquele chamamento fez realmente Tiãozinho acordar. Se antes ele andava apenas triste, desde então começou a nutrir uma revolta com tudo e com todos que, não aguentando mais, o fez, no meio da madrugada, pegar suas coisas e fugir de casa, deixando para trás seus pais e seus sonhos. Acabou indo parar em outra comunidade, mais distante, onde descobriu que podia ganhar dinheiro e abrigo, trabalhando de fogueteiro para o tráfico. Naquele dia morreu o Tiãozinho – Sebastião da Silva, e nasceu ali o Tião fogueteiro.
Professor Sérgio Soares