Saudações e reverências faço, a todos aqueles que ancestralmente me precederam: Tenente João Ricardo de Oliveira, avô e autodidata, inspiração e referência moral; Professor Waltinho de Geografia, que me ensinou a “viajar” sem sair da carteira; Professor Walter Rossignoli, que nunca se eximiu da fala vernácula, mas ainda assim ensinava português como nenhum outro; Professor Mário Roberto Lobúglio Zaggari, Mestre da Língua que me ensinou que as palavras têm história; Professora Ilma de Castro Barros Salgado, eterna Madrinha das Letras, a qual me apresentou a Pedro Nava; Professora Francis Paulina Lopes da Silva, amiga e orientadora, que me ajudou a nascer para a Literatura e à grande Mestra, escritora e amiga, Professora Maria de Lourdes Abreu de Oliveira, exemplo e inspiração na trilha das Letras. E “Salvem as professorinhas!!!”
Assim começo essa narrativa, de maneira emblemática, para lembrar o quão marcante pode, e deve ser a figura do professor na vida de qualquer pessoa. Não que só existam lembranças suaves, ou melodiosas, mas aqui quero salientar o lado bom dessa carreira, que me parece estar cada dia mais se aproximando do descrédito e de uma desvalorização sem medidas, e aí sempre vai parecer que da escola só sobraram as más recordações. Mas será que é isso mesmo? Ou melhor, será que tem que ser? É possível encontrar culpados, ou responsáveis, por tamanho desvio de percepção?
Penso que não precisa ser assim, como na verdade não o era, pelo menos nas minhas reminiscências infanto-juvenis, isso porque para mim (naquela época) pai, professor e padre eram autoridades máximas (não no sentido de autoritarismo, mas de exemplo a ser seguido). E voltando o olhar mais para trás ainda, antes de eu ser inventado nesse mundo, vejo a imagem romântica das professorinhas, normalistas, que eram as responsáveis pelo be-a-bá das crianças e pela tabuada, todas sorridentes e felizes, e olha, até onde já consegui pesquisar, não encontrei relatos de que naquela época fosse mais fácil dar aulas, ou que os alunos fossem menos “arteiros” do que os de hoje.
Então, o que ocorre é que a sociedade em que vivemos evoluiu, não que esse processo tenha sido retilíneo, sem sobressaltos, nunca o é. Às vezes, a melhor forma de remexer o fundo do rio enlameado é com uma “cabeça d’água”, que sai revirando tudo que encontra pela frente, e com a humanidade não foi, e nem seria diferente.
O grande problema está em saber entender e acompanhar esses saltos evolutivos, sem que isso se torne uma celeuma em nossas vidas. No caso da escola, por exemplo a pública, hoje o que mais se discute é a permanência dos alunos em sala-de-aula (como se fosse possível amarrá-los à carteira), os indicadores oficiais cada dia mais assustadores (vivemos a era dos índices, mas esquece-se que esses números não são absolutos, e sua relativização está justamente nas análises que deles podem advirem), os problemas de inclusão (dos gêneros hoje cada vez mais mutantes, até a inserção de alunos com altas potencialidades dentro de um contexto escolar que só se preparou para atender alunos com déficit) e a grande, e talvez maior crise, a do professor – acuado, agredido, desiludido e desmotivado a ser tal qual as normalistas, ou como os professores das histórias de romance.
Aqui tenho que tentar entender quem é esse professor em questão, de que perfil profissional se está falando: como ele chegou (ou escolheu) nessa carreira, e como ele foi formado, para poder aí sim, construir um sentido e encontrar uma resposta para esse mar de queixumes e chorumelas.
Primeiro lugar, a escolha: ocorreu no Brasil um fenômeno interessante, com a expansão das vagas nas Universidades Públicas Brasileiras, que foi o da popularização do acesso aos cursos de baixa demanda, e isso se deu, principalmente, através do aumento das vagas noturnas. Nessa época os cursos de Licenciatura (em especial), receberam um incremento numérico de alunos considerável, e isso, em tese, seria a solução para a formação de professores, já que “o problema da educação no Brasil, era falta de mão-de-obra”, então, “fabrique-se” mais professores e o problema solucionado estará. Não se resolveu à época, como ainda hoje não se resolve. Fato.
Nesse período (e ainda hoje é assim) existia uma clara diferenciação entre o perfil de um aluno, por exemplo (falando da minha área), que cursava Letras, à noite, e daquele outro que o fazia no turno integral. Primeira diferença – a faixa etária, o do noturno, via de regra, era adulto com faixa etária acima dos trinta anos, pai ou mãe de família, trabalhador que tentava, depois de muito tempo afastado, retomar seus estudos, e encontrava nessa abertura de vagas as chances – baixa concorrência e facilidade no cursar. Porém, esse mesmo aluno, apesar do leque de opções que o curso oferecia, só conseguiria se formar em Língua Portuguesa.
Ao passo que, o aluno do turno integral, mais jovem, recém-saído do ensino médio, que não tinha obrigações familiares a cumprir, tinha à sua disposição as formações em Língua Portuguesa, Línguas Estrangeiras e Latim, além do maior benefício, poder integrar-se aos inúmeros grupos de pesquisa e projetos de extensão da Universidade, e assim, quase que, assegurar seu ingresso em um Lato ou Strictu Senso, pós-formado.
E quais eram as perspectivas para um e outro? Para o primeiro, considerando que ele teria cumprido toda a creditação exigida pelo curso, seria o de buscar um novo caminho como professor temporário na educação pública, ou prestar concurso como efetivo para alguma das redes. Já para o outro, como bem dito, na maioria das vezes seguiria o caminho já pronto à sua frente, que era o da formação continuada (o que é bom), e dela só sairia Mestre ou Doutor para prestar concurso público em uma IFE, ou dar aula em uma escola ou faculdade particular.
E olha que interessante situação está construída: o sistema se retroalimenta, pois o mesmo professor que se formou no turno integral, em Letras, daí a seis ou sete anos estará dentro de uma Universidade dando aulas para esses alunos do turno noturno que, teoricamente, não tiveram a mesma oportunidade. E qual o problema nisso? A vivência, a experiência e a maturidade que só a prática em sala-de-aula pode oferecer, e que nenhuma Tese de Doutoramento pode dar conta de superar.
E esse é o segundo ponto em que preciso me deter agora. A Academia (em especial na área de formação de professores) parou no tempo, tanto no quesito técnica conteúdista, quanto no que diz respeito aos métodos de ensino, o que leva, automaticamente, a um produto final, ou seja, um professor formado para formar sem preparação para enfrentar os desafios que aquela “cabeça d’agua” trouxe para nossa sociedade – famílias desestruturadas, governos que não souberam investir corretamente na Educação Básica, geração Z com muita informação e pouca, ou nenhuma, noção de respeito (independente da classe social) e, talvez o maior desafio, o de transformar a escola em uma referência positiva na vida desses jovens, onde eles queiram ficar, e não onde seja preciso “mantê-los”.
O resultado disso tudo é justamente o descrédito da profissão, a má valorização e remuneração da carreira, e os constantes conflitos dentro das escolas, que mais parecem campos de batalha, muitas vezes. Ao mesmo tempo, criou-se uma geração de professores insatisfeitos, desanimados e que perderam a noção de que dar aulas tem que ser, antes de tudo, um ato de entrega, uma troca, e hoje, mais do que nunca, de mediação, onde aquela imagem que a Academia reforça de Magister, ainda preso a uma bancada ou um púlpito, não mais representa o mundo real.
Para “Salvarmos nossas Professorinhas” preciso é resgatar os princípios formadores dessa profissão – paixão, entrega e dedicação – sem tesão não há solução (seja em qual carreira for), não dá para ser meio professor (ou dar meia-aula) e a dedicação (que deve ser perene), não apenas nas preparações de aula, mas também na sua formação continuada, que deve ser igualmente constante.
Além disso, penso que os órgãos reguladores da Educação deveriam mudar as regras para ingresso no Magistério Superior, pois, se para um Advogado virar Juiz ele deve ter um tempo mínimo de experiência como causídico (discernimento para julgar, e não apenas conhecer as Leis) e o Médico deve cursar bons anos de Residência Médica para aprender a cuidar de gente, o professor também deveria ter vivido um ciclo mínimo, ao menos, da Educação Básica para poder dividir essa experiência com os futuros novos professores.
Olhando a história desses que marcaram a minha história, vejo que (se não todos) a maioria construiu suas carreiras lá na Educação Básica, como professores e Diretores de Escola nas redes, para só depois adentrarem os auspiciosos portões da Universidade Pública, na condição de Mestres, de fato e de direito. Sem essa mudança, de postura e de comprometimento, continuaremos repetindo receitas de bolo, que a cada dia se tornam mais solados e indigestos.
Professor Sérgio Soares